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Foto: Divulgação/HFPA

Entenda como o fiasco do Globo de Ouro pode abalar esta temporada de prêmios

Cerimônia ficou marcada recentemente por episódios de boicote

A temporada de prêmios hollywoodianos de 2022 começará com um verdadeiro fiasco. Não há palavra melhor para descrever o que será o Globo de Ouro deste domingo (9), baleado por polêmicas que se arrastam há anos, mas que ganharam força nos últimos meses.

Nem mesmo cerimônia de entrega de prêmios haverá. Após dias tentando convencer celebridades a participarem da festa ou, ao menos, aparecerem nela, a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, que entrega o troféu, decidiu anunciar seus vencedores no que deve ser uma insossa conferência, sem transmissão pela TV –já que a emissora NBC se recusou a exibir o evento este ano– ou pela internet. Os vencedores serão anunciados em tempo real pelas redes sociais.

Participarão apenas os próprios membros do grupo, que viram na nova onda de Covid-19 uma bela justificativa para enxugar a níveis mínimos esta 79ª edição. Não há clima para festa, afinal, já que o Globo de Ouro está sob escrutínio por acusações de corrupção, clubismo e racismo.

Elas sempre assombraram a premiação, mas se tornaram mais contundentes após uma longa e detalhada matéria do Los Angeles Times publicada às vésperas da festa do ano passado.
Uma das descobertas do jornal foi a de que não havia negros entre os membros da associação. De lá para cá, um ex-presidente do grupo enviou um email criticando o movimento Black Lives Matter –que foi vazado e, claro, rechaçado– e celebridades que haviam sido premiadas no passado devolveram seus Globos.

Mudanças na Associação de Imprensa Estrangeira já estão em curso, como a inclusão de membros negros. Mas será necessário um bom tempo para reconquistar a confiança da indústria e do público. Essa é a avaliação feita nos bastidores de Hollywood, onde ninguém quer ter sua imagem atrelada ao Globo de Ouro neste momento, mas onde também descartam o seu cancelamento permanente.

Segundo um profissional de relações-públicas que trabalha promovendo filmes e atores para os votantes de prêmios como o Globo de Ouro, e que, por isso, preferiu não ser identificado, a crença é de que a indústria precisa dar um tempo à Associação de Imprensa Estrangeira. Há confiança de que mudanças serão adotadas, mesmo que este seja um processo lento.

Apesar da insatisfação de agora e do boicote que celebridades promoveram ao se recusarem a ir à cerimônia-conferência, o relações-públicas não espera ver grandes protestos acontecendo na noite de domingo para além de alguma movimentação nas redes sociais.

O formato diminuto e tímido deste Globo de Ouro é um baque enorme para uma premiação que ficou famosa por oferecer momentos de descontração e um caprichado bar para as celebridades mais badaladas do cinema e da televisão. Muita gente ligava a TV só para ver seus ídolos levemente embriagados e em momentos de informalidade. É o oposto do glamour irretocável visto anualmente no Oscar –que até tem seus surtos, mas bem mais contidos.

Esta será a primeira vez desde 2008 que o Globo de Ouro não terá uma cerimônia nesse formato já consagrado. Na ocasião, no entanto, o evento não sofreu mudanças por causa de um escândalo interno, mas devido a uma greve de roteiristas que paralisou muitas produções em Hollywood e deixou marcas na safra de filmes daquele ano.

Por causa de um complicado imbróglio e também devido à falta de roteiristas para escrever as piadinhas e os discursos emocionados que guiam as premiações hollywoodianas –pois é, há muito menos espontaneidade nesses eventos do que se imagina–, a Associação de Imprensa Estrangeira recorreu a uma coletiva de imprensa para anunciar seus vencedores. A NBC chegou a transmitir o evento, apesar da falta de apelo, bem como outras emissoras.

Mas o cancelamento deste ano é muito diferente, já que é a credibilidade do Globo de Ouro que está em jogo. Apesar de executivos e relações-públicas se mostrarem esperançosos quanto ao futuro da festa, as exceções de agora prometem chacoalhar a complicada arquitetura que mantém a temporada de prêmios e, mais importante, os filmes feitos para prêmios, de pé.

O Globo de Ouro é, afinal, a primeira grande premiação do calendário, responsável por confirmar ou derrubar favoritismos e ajudar quem trabalha no meio a pavimentar o caminho para o Oscar. O homenzinho dourado, este ano, só será entregue daqui a quase três meses, o que pode mergulhar alguns títulos celebrados no ostracismo, já que há pouca intenção de fazer propaganda em cima das vitórias tidas no Globo.

Ninguém quer ser o primeiro a abraçar a Associação de Imprensa Estrangeira novamente, diz o relações-públicas que preferiu não se identificar. Nos bastidores, ninguém confia no prêmio e, mesmo se confiassem, não gostariam de mostrar solidariedade tão cedo. Tanto que, segundo ele, os estúdios praticamente não se mobilizaram para fazer campanha para seus filmes, como de praxe. Isso também pode gerar um problema econômico. Muitos filmes pensados para as premiações não são exatamente queridinhos do público. Eles costumam ter números de espectadores modestos, e só quando são indicados ou ganham algum prêmio importante veem sua bilheteria catapultar.

Com o Oscar ainda longe e nenhum outro prêmio com apelo semelhante ao do Globo de Ouro nesse meio tempo, filmes menores, como "Belfast", ou aqueles que decepcionaram nas bilheterias até agora, como "Amor, Sublime Amor", vão ficar sem o empurrãozinho que tanto precisariam. E isso é uma pena num ano em que, diferentemente do padrão, as indicações ao Globo de Ouro foram razoáveis e não deram espaço para aparições duvidosas e polêmicas. Foi o caso de "Music", dirigido pela cantora Sia, no ano passado, que entrou na lista de melhor comédia ou musical mesmo sendo criticado por fazer um retrato problemático do autismo.

Temos, na seleção de agora, títulos elogiados pela crítica e que de fato estão concentrando as apostas para o Oscar e os prêmios dos sindicatos de Hollywood, como "Ataque dos Cães", "Tick, Tick... Boom!" e "Licorice Pizza". No lado televisivo, "Succession" é a favorita a melhor série de drama e em várias outras categorias.

Ainda envolto em sigilo, o Globo de Ouro deste domingo deve entrar para a história como a menos relevante e mais enfadonha cerimônia em seus quase 80 anos de história. As marcas que deixará ainda são incertas, bem como o tempo que a Associação de Imprensa Estrangeira passará na reabilitação. Mas, ao que tudo indica, ainda há gente brigando para manter o prêmio vivo -e estamos falando de uma indústria que gosta de pompa e circunstância.

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