O Gurgel Itaipu E-150, considerado o primeiro carro elétrico brasileiro produzido em série experimental, foi um dos projetos mais ousados da indústria nacional. Lançado em 1974, em plena crise do petróleo, o modelo antecipou uma tendência que só se tornaria global décadas depois.
Em um período em que o Brasil ainda buscava autonomia tecnológica, o veículo mostrou que havia talento e visão para desenvolver soluções próprias em mobilidade sustentável.
Criado pela fabricante brasileira Gurgel, o compacto elétrico nasceu da convicção do engenheiro João Gurgel de que o país precisava reduzir sua dependência de combustíveis fósseis.
O nome “Itaipu” fazia referência à futura Usina Hidrelétrica de Itaipu, que ainda estava em construção na época e simbolizava força energética nacional. Ao todo, apenas 27 unidades foram produzidas, o que hoje torna o modelo uma raridade histórica.
Um carro à frente do seu tempo
O Itaipu E-150 surgiu em meio ao aumento expressivo dos preços da gasolina provocado pela primeira crise do petróleo. Enquanto o mundo buscava alternativas energéticas, a proposta de um veículo totalmente elétrico parecia ousada demais para a realidade brasileira dos anos 1970. Ainda assim, o projeto mostrou que era possível pensar diferente.
Compacto, leve e voltado para trajetos urbanos curtos, o modelo tinha uma proposta clara: ser prático e econômico. Décadas antes da popularização dos elétricos nas grandes cidades, ele já apontava para esse caminho.
Limitações tecnológicas da época
Como era esperado para um projeto pioneiro, o carro enfrentou obstáculos técnicos importantes. As baterias de chumbo-ácido eram pesadas, tinham autonomia limitada e exigiam longas horas de recarga em tomadas convencionais.
A velocidade máxima girava em torno de 50 km/h, adequada para uso urbano, mas insuficiente para deslocamentos maiores.
Além disso, o custo de produção era elevado para os padrões do mercado brasileiro da época. Isso impediu a fabricação em larga escala e transformou o Itaipu em uma experiência industrial restrita, embora simbólica.
Design simples e funcional
Visualmente, o veículo seguia a tendência dos microcarros europeus urbanos. Tinha dois lugares, estrutura de fibra de vidro e chassi leve, pesando cerca de 460 quilos. O objetivo não era luxo, mas eficiência.
O interior refletia essa proposta: painel simples, instrumentação básica e foco total na funcionalidade. O silêncio do motor elétrico chamava atenção nas ruas, algo incomum em uma década marcada por motores barulhentos e movidos a gasolina.
Um legado que ganhou novo valor
Embora não tenha alcançado sucesso comercial, o Itaipu E-150 consolidou seu espaço na história como símbolo de inovação brasileira. Mais do que um experimento automotivo, ele representou a tentativa concreta de desenvolver tecnologia nacional em um setor dominado por grandes montadoras estrangeiras.
Hoje, com a expansão dos carros elétricos e a busca global por soluções sustentáveis, o projeto de João Gurgel é visto como visionário. Museus e eventos de veículos antigos frequentemente relembram essa iniciativa que, mesmo limitada, provou que o Brasil já pensava em mobilidade elétrica muito antes de ela se tornar tendência mundial.


