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Agentes sepultadores, também conhecidos como coveiros, trabalham no cemitério da Vila Formosa, na zona leste da Capital, com proteção contra o coronavírus
Agentes sepultadores, também conhecidos como coveiros, trabalham no cemitério da Vila Formosa, na zona leste da Capital, com proteção contra o coronavírus
Foto: Marcello Zambrana/Agif/Folhapress

Sepultamentos crescem em São Paulo

Pandemia faz prefeitura dobrar o contingente de agentes funerários de forma emergencial; sepultamentos estão concentrados nos cemitérios São Luís, na zona sul, e Vila Formosa, na zona leste de SP

"Havia uma fila gigantesca no IML, em plena madrugada. Minha irmã viu carros e mais carros chegando cheios de corpos. O pessoal falando que não tinha mais lugar para colocar. A sensação foi horrível". O relato é da dentista Fernanda Winiawer Znamensky, que perdeu o pai diagnosticado com coronavírus na semana passada (leia relatos abaixo, editados pela Gazeta a partir de depoimentos de parentes das vítimas). A família dela, outras famílias e profissionais do serviço funerário confirmam: há um aumento considerável do número de mortes em São Paulo desde o início da pandemia do novo coronavírus.

De acordo com o sepultador Manoel Norberto, dirigente do Sindicato dos Servidores Municipais de SP (Sindsep), a pandemia obrigou a prefeitura a dobrar o contingente de agentes funerários de forma emergencial. São 220 novos funcionários terceirizados, com contrato de seis meses. Há também a expectativa da chegada de outros 200 funcionários para a área administrativa. O número de automóveis disponíveis passou de 36 para 56.

Os enterros relacionados ao coronavírus, segundo ele, estão concentrados principalmente nos cemitérios São Luís (zona sul) e Vila Formosa (zona leste). "A média no Vila Formosa era de 35 a 38, e hoje é de 52 a 62 sepultamentos por dia", afirma. A prefeitura, por sua vez, informa que a média diária é de cerca de 250 e que, em março, foram em média 228 por dia. Ou seja, para a prefeitura, a média caiu durante a chegada da doença na Capital. A expectativa do Ministério da Saúde é que a Covid-19 alcance seu pico no Brasil entre os meses de abril e maio.

Em ao menos um cemitério particular, porém, há queda do número de sepultamentos. O gerente comercial do Cemitério Congonhas, Valdir Gabone, diz houve uma baixa na quantidade de enterros no local. "É que diminuíram muito as mortes por acidentes automobilísticos ou brigas", explica.

Para Norberto, a gestão municipal não reconhece o aumento de sepultamentos para manter a calma na população. "A prefeitura está fazendo o papel dela de tentar evitar o alarde, de evitar mostrar que está perdendo o controle, mas estamos vendo no mundo o que está acontecendo. Não é uma situação só de São Paulo. É do mundo".

"Não teve nem 10 minutos de velório"

*Depoimento de Maria Helena Azevedo, radialista

"Minha mãe tinha 87 anos e estava em quarentena total, só com contato com a cuidadora e uma vez com a fisioterapeuta. Um dia ela ficou com um pouco de falta de ar. Como minha mãe tinha enfisema e fumou a vida inteira, além de estar debilitada, era normal ela ter falta de ar de vez em quando. Fez inalação, tomou remédios, e melhorou um pouco. Mas à noite teve um apagão e precisou ir ao hospital de ambulância, e eu fui junto.

No hospital, as notícias foram chegando muito rapidamente: "Sua mãe foi entubada"; "Ela foi para a UTI e não pode receber visitas"; "Ela teve um parada cardiorrespiratória". Até que chegou a notícia de que ela havia morrido. Não pude vê-la.

Dois dias depois meu irmão reconheceu o corpo. Ele teve que fazer o reconhecimento meio de longe, não pôde chegar muito perto, e ela já estava no caixão.

No Crematório da Vila Alpina, assinamos papéis e fomos próximo à sala de homenagem. Esperamos, esperamos, e nada. Fui na administração perguntar, e um cara me disse: 'Não, não tem homenagem, não tem nada. Acabou. O caixão chegou e já foi para o depósito. Está cheio de caixão aqui, está tudo impregnado. Para preservar a vida das pessoas não estamos fazendo nada. O que vocês podem fazer é vir buscar as cinzas'.

A causa da morte chegou quatro dias depois: era Covid. Minha mãe não tinha tido nenhum sintoma. Quando teve, morreu em 3 horas. Não teve nem 10 minutos de velório, não teve nada. A última vez que vi minha mãe foi na ambulância".

"Não pôde fazer velório, nada"

*Depoimento de Fernanda Winiawer Znamensky, dentista

"Meu pai de 74 anos morreu após 9 dias de internação por Covid-19, foi tudo muito rápido. Moro na Nova Zelândia e não pude ajudar nas questões burocráticas. Minha irmã me disse que havia uma fila gigantesca no IML, em plena madrugada. Ela viu carros e mais carros chegando cheios de corpos. O pessoal falando que não tinha mais lugar para colocar. A sensação foi horrível.

A orientação do médico era para que cremasse. Entendi, se trata de uma pandemia. Mas somos judeus. Pela religião judaica, não podemos cremar. Não deu tempo de explicar nada nem para o hospital nem para o pessoal do IML. Não houve tanto problema por não sermos religiosos. Mas e as famílias que são?

No crematório da Vila Alpina, minha irmã só assinou os papéis e avisaram a ela o dia de buscar as cinzas. Não pôde colocar qualquer roupa no meu pai, fazer velório, nada".

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