últimas notícias
Fernando Holiday é vereador em São Paulo pelo Novo
Fernando Holiday é vereador em São Paulo pelo Novo
Foto: Ettore Chiereguini/Gazeta de S.Paulo

Fernando Holiday: ‘Amadureci muito de 2016 para cá’

Vereador diz que errou em incentivar a ‘superficialidade’ do debate público e revela sonho de ser deputado federal e governador pelo Novo

O vereador paulistano Fernando Holiday acaba de se mudar para o Novo, o que garante ter sido sempre o seu desejo, mas que não havia acontecido antes por estratégias do Movimento Brasil Livre (MBL), movimento do qual fez parte até o início deste ano. Antes, ele integrou o DEM e o Patriota – e de ambos saiu após brigas com a direção das legendas.

Segundo ele, o Novo é um dos poucos partidos brasileiros que se guia por princípios, já que quase todos os outros não teriam “uma ideologia muito clara”. Com a mudança, a bancada da sigla na Câmara Municipal de São Paulo passa a contar com ele, Janaína Lima e Cris Monteiro.

Cerca de cinco anos depois de ajudar a botar fogo no debate político nacional e de duas eleições à Câmara Municipal, Holiday garante nesta entrevista à Gazeta que amadureceu, por ter aprendido a “dialogar com o diferente”, e reconhece erros do passado. Ele também revela as duas ambições que têm em sua trajetória política. A primeira é a de se tornar deputado federal, já no ano que vem. A outra é a de ser governador de São Paulo.

Muita gente dizia que o seu perfil sempre teve mais a ver com o Novo do que com os partidos que já fez parte. O que o impediu de ir ao Novo antes que o permitiu ir agora?

Boa pergunta. Eu tinha já tentado fazer parte do Novo em ocasiões anteriores, só que à época eu pertencia ao MBL, que era um grupo maior, que tinha e tem ainda outro projeto. E o projeto do movimento passava por ter candidatos nos mais diferentes partidos. E naquele momento interessava ao Novo, e ainda interessa, claro, como todos os partidos, que se apoie os candidatos do Novo, até para que o partido cresça e se consolide. Eu tinha essa dificuldade por ter de apoiar diversos outros candidatos que não estavam no Novo. Com a minha saída do MBL, em janeiro, alguns meses depois se tornou viável, então, a minha ida para o partido Novo, que se concretizou agora.

No DEM e no Patriota o sr. saiu após brigas internas. O sr. vê problemas ou empecilhos nessa estrutura partidária do Brasil? Acredita que o Novo seja diferente?

Acredito que o Novo hoje é o único partido que verdadeiramente não tem caciques, e é um partido que não personifica a identidade e os seus princípios. Se você pensa hoje no PT, você pensa no Lula, se você pensa no PSDB, você pensa no FHC, agora no Novo você vê diversas lideranças despontando, diversos nomes que surgem como deputados estaduais, deputados federais. Acho que essa é a primeira grande diferença. A outra diferença é que o partido se guia por princípios. No caso dos outros partidos que participei, o Patriota – que, inclusive, teve a filiação do Flávio Bolsonaro e a quase filiação do Jair Bolsonaro – e o próprio DEM, têm diversas pessoas dentro desses partidos que pensam completamente diferente uma das outras. Não tem uma linha ideológica muito clara, e alguns só estão por interesses vários. No Novo, acredito que tenha ali uma centralização em torno de princípios, em torno de uma ideologia.

O Arthur do Val, seu ex-companheiro do MBL, já disse que no Brasil existem dois partidos com linhas ideológicas de verdade: o PSOL e o Novo. Concorda?

Com certeza. Fora o partido Novo, você só vai encontrar na esquerda, no PSOL. Porque mesmo entre outros partidos de esquerda também têm várias distorções internas.

Tem desejo de ser candidato a deputado federal ano que vem?

Ser deputado federal sempre foi um sonho meu, eu pretendo me candidatar. Mas claro que eu vou me submeter às regras do partido, que tem seus processos internos, seus processos seletivos. Pode ser que a minha candidatura não seja aprovada, e eu vou aceitar isso com certeza. Mas meu sonho, meu desejo, é de fato me candidatar para deputado federal.

Macaque in the trees
Fernando Holiday durante entrevista à Gazeta - Ettore Chiereguini/Gazeta de S.Paulo

Qual o seu desejo político após ser deputado?

O meu grande sonho hoje é chegar ao Governo do Estado de São Paulo. A meta final é chegar ao governo do Estado.

O sr. foi eleito vereador em 2016, pela primeira vez. Mudou em algo desde então?

Eu amadureci muito de 2016 para cá. O principal amadurecimento está no diálogo com o diferente. Em 2016, quando fui eleito, eu vinha da militância de rua, impeachment da Dilma, aquela coisa toda, e eu tinha uma dificuldade em debater com quem discordava de mim e até mesmo em ouvir quem pensava diferente. A partir do momento em que eu entro na Câmara Municipal e passo a ter essa experiência quase cotidianamente, eu me vi obrigado a dialogar, obrigado a ouvir o outro, e entrar em acordo para conseguir aprovar meus projetos e até mesmo projeto de outros vereadores. Isso fez que, ao longo desses anos, eu amadurecesse muito.

Há uma cena do sr. se reunindo com o vereador Eduardo Suplicy (PT) logo depois que ambos foram eleitos para a Câmara Municipal, em 2017. Aquilo simbolizou o início da saída do processo da discussão eleitoral agressiva?

Além desse início, ao longo do mandato nós discutimos vários outros projetos, como a Renda Básica, que é uma bandeira dele, e o Revogaço, que é uma bandeira minha, e agora na eleição da Mesa deste ano o Suplicy foi o único vereador do PT que votou em mim para segundo secretário, contrariando a indicação do próprio partido, sinalizando um pouco desse histórico de diálogo que a gente teve.

Esse ambiente de “mitadas e lacradas” que houve na direita e na esquerda, essa agressividade, esse modo de tratar o oponente como inimigo, tende a diminuir?

Com certeza. A experiência Bolsonaro deixou o ambiente político um pouco traumatizado com esse ambiente de lacradas, de superficialidade do debate público. Eu acho que eu, inclusive, ajudei a de certa forma destruir essa qualidade do debate público, e hoje tento de alguma forma consertar isso. Todos nós percebemos o erro que foi a radicalização das eleições de 2018. Em 2020, nós já tivemos uma pequena mudança – a própria eleição do [Bruno] Covas em São Paulo foi um exemplo disso, uma figura moderada –, e acredito que em 2022 nós teremos alguma coisa nesse mesmo sentido.

Macaque in the trees
Entrevista Fernando Holiday - Ettore Chiereguini/Gazeta de S.Paulo

Qual avaliação fazia da gestão Covas e o que acha que vai mudar com o novo prefeito, Ricardo Nunes?

Desde que o Covas tinha assumido, com a renúncia do [João] Doria, eu tinha me declarado oposição ao governo dele por conta de algumas regulamentações, por exemplo, de aplicativo de transporte, que eu não concordava, e a própria gestão no início da pandemia, que eu achei extremamente caótica. Mas, com a configuração do segundo turno, entre Boulos e Covas, evidentemente acabei me aproximando mais do Covas. Achei o início de 2021 uma gestão muito razoável, eu não tive nenhuma crítica enfática a esse governo. Quanto ao Ricardo Nunes, acredito que ele tenha um bom diálogo com a Câmara, até por ter sido vereador, mas pairam sobre ele algumas suspeitas que precisam ser esclarecidas. Esse acho que será o principal desafio dele. Agora, quanto à competência técnica, acredito que ele tenha, sim, a capacidade de gerir a prefeitura.

O que se ouve de fora é que ele tem bom trânsito entre os vereadores, não?

Sim, o diálogo com os vereadores vai ser muito bom. Ele era um vereador que se dedicava ao estudo do orçamento da cidade, então acho que isso vai colaborar para a gestão.

No ano passado, houve várias propostas mais liberais na Câmara que só o sr., a Janaína Lima (Novo) e o Caio Miranda Carneiro (DEM) se posicionam a favor. Faltam, na sua visão, mais nomes liberais na Casa?

Acredito que faltou muito na legislatura passada, mas a onda liberal cresceu, e muito, agora na Câmara. De três vereadores que tínhamos, agora temos cinco vereadores que são com certeza liberais: três do Novo, eu, a Cris, e a Janaina, tem também o Rubinho Nunes, que é do MBL, e tem o Marlom do Uber. E, de certa forma, têm alguns outros vereadores jovens que não se declaram exatamente como liberais, mas que votam conforme a sua opinião a determinados projetos. O próprio Thammy Miranda é um exemplo desses. Ele é um dos vereadores que estuda realmente os projetos e não vota de acordo com aquele fisiologismo clássico.

Duas experiências nacionais que se venderam como liberais nos últimos tempos foram de Mauricio Macri, na Argentina, e do presidente Jair Bolsonaro. Qual sua avaliação?

Eu acredito que o grande problema do liberalismo no caso do Brasil é que nós nos acoplamos demais ao bolsonarismo, nós apostamos demais no Paulo Guedes. No fim das contas, o que venceu mesmo foi aquele ímpeto estatista que o Bolsonaro sempre teve, desde sempre, como deputado, tanto é que nenhuma das privatizações andou até agora, e a que estava andando, a da Eletrobras, foi completamente desconfigurada pelo relator. É realmente uma grande decepção nesse sentido. Já na Argentina, o Macri, com medo de perder a eleição, como de fato aconteceu, também se rendeu ao aumento de alguns subsídios, de algumas intervenções na economia já no fim do seu governo, o que acabou prejudicando. O grande problema do liberalismo nesses dois casos foi realmente o medo de continuar fiel a esses ideais mesmo diante da impopularidade.

Em entrevista recente para o UOL, o sr. indicou que reviu algumas posições em relação ao racismo. Na sua visão, quais são as armas para superar o racismo?

A matéria do UOL foi muito interessante. Eles pegaram figuras negras e fizeram o exame de DNA para saber as origens. E descobrindo minhas origens angolanas consegui de certa forma tocar a escravidão. Antes era algo dos livros de história, aquela barbaridade toda, mas ao saber as minhas origens se tornou algo pessoal. Mudou um pouco a minha visão por se tornar algo pessoal, algo familiar e perceber o quanto isso é presente hoje. Acredito que o racismo é muito presente em nosso país, mas acredito também que os movimentos negros que temos hoje no Brasil acabam reforçando esse preconceito com as pautas que defendem. As cotas raciais acabam trazendo mais julgamento para a cor da pele da pessoa, mais atenção para a cor da pele da pessoa, e acaba, a meu ver, trazendo dúvidas sobre a capacidade do negro. Mas precisamos também incluir os negros. Por isso defendo a extinção das cotas raciais em detrimento da ampliação das cotas sociais. Com as cotas sociais, levando em consideração a renda das pessoas e a formação em escola pública, a maioria dos incluídos vai ser negra. Eu acho que isso tem muito mais eficácia.

Considera que há poucos nomes na direita para debater temas como racismo e questão LGBT?

São pouquíssimos os nomes que se dispõem a debater isso. Os poucos nomes que ainda debatem esses temas estão no Livres, para discutir as causas LGBT e as causas relacionadas ao racismo, embora até discorde de algumas opiniões deles. Tem o professor Paulo Cruz, que hoje não está em nenhum movimento, mas também põe os seus posicionamentos. E tem eu mesmo. Ou seja, é um grupo muito pequeno de pessoas. Eu acho que a direita precisa se propor a debater mais essas questões.

Galeria de Fotos

Comentários

Tops da Gazeta