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População de rua em São Paulo
População de rua em São Paulo
Foto: Jorge Araujo/Fotos Públicas

SP: Censo da população de rua aponta dificuldade nas abordagens

As equipes de abordagem relataram situações de risco em áreas onde há concentração de usuários de drogas e até dificuldade em acessar barracas

Uma relatório criado pela empresa contratada pela Prefeitura de São Paulo para atualizar o censo da população cita uma série de dificuldades para abordar os sem-teto, o que pode comprometer a dimensão real de quantas pessoas vivem nas ruas da capital hoje em dia. 

De acordo com o documento enviado à Secretaria de Assistência Social no dia 9 de novembro, e obtido com exclusividade pela reportagem, as equipes de abordagem relataram situações de risco em áreas onde há concentração de usuários de drogas e até dificuldade em acessar barracas em trilhas no matagal. 

Nesses casos, a contagem de pessoas foi feita de forma visual ou a partir de relatos de pessoas no entorno, como comerciantes, ambulantes e outros sem-teto, segundo o documento. 

Na avenida Cruzeiro do sul, no bairro de Santana, na zona norte, as equipes foram hostilizadas por um "pai de rua" que estava com sete crianças. Diante da situação, as respostas do questionário foram preenchidas "por observação", segundo o relatório. 

Na zona leste, em Guaianases, a presença de cachorros nas barracas afugentou as equipes. Na avenida Nordestina, em São Miguel Paulista, os recenseadores foram impedidos de entrar em uma trilha que dá acesso a oito barracas montadas no matagal. 

Desde o início da pandemia é visível o aumento da população de rua principalmente na região central da cidade, onde há maior concentração de sem-teto pela facilidade de acesso a doações e equipamentos públicos. 

Segundo cálculos informais do padre Júlio Lancellotti, da Pastoral da Rua, vivem nas ruas da capital paulista, atualmente, 35 mil pessoas, número 40% maior do que o apontado pelo último censo, divulgado em 2019, quando havia 25 mil. 

O número oficial só será divulgado após a avaliação da contagem dos sem-teto e a elaboração do perfil socioeconômico dessa população, o que tem previsão de ser concluído na terceira semana de dezembro. O contrato com a empresa Qualitest Ciência e Tecnologia foi assinado em setembro por R$ 1,7 milhão. 

Previsto para ser entregue no último dia 24, o relatório preliminar com a análise do assunto está atrasado, assim como a entrega do relatório completo, prevista para o último dia 29. 

Em nota, a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) afirmou que o cronograma de entrega está dentro dos prazos contratuais, "que sofreram alterações somente pontuais, exclusivamente em razão do calendário de feriados e do início da temporada de chuvas na cidade". 

Diante do aumento da população de rua durante a pandemia, a prefeitura contratou recentemente uma empresa para fazer o censo de crianças e adolescentes em situação de rua, levantamento inédito na capital paulista. 

A metodologia usada no censo dos sem-teto, porém, é questionada por líderes de movimentos sociais ligados à população de rua, como o padre Lancellotti. "Muita gente é contada só visivelmente. Encontrei várias pessoas que não foram abordadas pelas equipes", diz. 

Ele também chama a atenção para o período em que as abordagens são feitas, sempre depois das 22h. "As pessoas dormem nesse horário e não querem abrir a barraca para responder às perguntas", diz o padre. 

Trechos no relatório preliminar confirmam registros de moradores de rua que se recusaram a sair das barracas ou das malocas para receber as equipes. Nesses casos, a contagem é feita a partir de relatos de pessoas do entorno, segundo o documento. 

Na cracolândia, ponto de concentração de usuários de drogas na região central, por exemplo, a contagem foi feita de forma visual depois que a equipe recebeu ameaças de um traficante que reclamou de não ter sido avisado sobre a visita dos pesquisadores. 

As falhas também são criticadas por Robson Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo. Segundo ele, o censo não reflete a realidade. "Há pessoas que vivem em buracos dentro de viadutos que não são abordadas pelas equipes", diz. 

Em nota, a Smads afirmou que o trabalho de campo dos recenseadores obedece a critérios e metodologia científicos. "As equipes recebem treinamento e, de modo geral, têm experiência anterior de trabalho com população de rua." 

Após fazer a contagem dos sem-teto, os recenseadores têm que voltar às ruas e abrigos para fazer a pesquisa socioeconômica que consiste em cerca de 80 perguntas. A lista inclui questões sobre o local onde a pessoa costuma dormir e se alimentar, o grau de escolaridade e até se tem dependência de álcool ou drogas.

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