O show de Shakira no Rio de Janeiro foi um fenômeno incontestável. Ruas cheias, rede hoteleira lotada, comércio aquecido e uma multidão celebrando em coro um dos maiores nomes da música pop mundial. Sob qualquer métrica imediata, funcionou.
Mas é justamente essa aparência de sucesso que mascara um problema mais profundo. Megaeventos não falham pelo que entregam, falham pelo que não conseguem sustentar.
O problema não é a realização de grandes shows. Eles são bem-vindos, movimentam a economia e têm seu valor cultural. A questão central está no intervalo entre esses acontecimentos.
O que acontece com a vida cultural das cidades nos meses que separam um megaevento do outro? A impressão que fica é de que esses espetáculos tentam compensar uma ausência prolongada.
Durante meses, grande parte da população tem pouco acesso a experiências culturais contínuas, acessíveis e diversas. Quando surge um evento grandioso, ele ocupa esse vazio de forma intensa, porém temporária. É como acender uma luz forte em um ambiente que passa o resto do tempo no escuro.
O problema, portanto, não está no evento em si, mas na lógica que o sustenta.
Essa lógica também se revela quando se observa quem, de fato, tem acesso aos recursos públicos e aos mecanismos de fomento cultural.
Enquanto milhões são direcionados para viabilizar grandes espetáculos, artistas periféricos seguem enfrentando barreiras estruturais para produzir, circular e se manter ativos.
Nas periferias, onde a produção cultural é intensa e diversa, a ausência de equipamentos culturais é evidente. Teatros, casas de show, centros culturais e espaços de formação ainda se concentram nas regiões centrais ou em áreas já consolidadas.
Isso limita não apenas o acesso do público, mas também as oportunidades para quem cria. Sem palco, sem estrutura e sem incentivo, a cultura local permanece invisibilizada, apesar de existir em potência.
O resultado é um sistema desigual: de um lado, grandes eventos que recebem investimento e visibilidade; de outro, uma base cultural fragilizada, que sobrevive com poucos recursos e pouca continuidade. E sem fortalecer essa base, não há política cultural que se sustente no longo prazo.
Se a cultura não chega de forma estruturada às periferias, ela não se democratiza, apenas se concentra. E, nesse cenário, o megaevento deixa de ser solução e passa a ser sintoma: uma resposta pontual para um problema que é, essencialmente, estrutural.
