Crises corporativas não são acidentes: são falhas previsíveis de governança

O colapso pode parecer repentino; a deterioração que o antecede quase nunca é

Crises corporativas raramente começam no dia em que se tornam públicas /DC Studio/Magnific

Quando uma grande empresa entra em crise, a explicação costuma surgir rapidamente: fraude, erro contábil, decisão equivocada de um executivo, mudança inesperada do mercado, insegurança jurídica ou algum evento extraordinário alheio a gestão.

Continua após a publicidade

A narrativa do acidente é confortável porque transforma um problema organizacional em episódio isolado. Mas crises corporativas raramente começam no dia em que se tornam públicas. Elas normalmente são construídas durante meses ou anos, enquanto sinais de alerta são ignorados, controles perdem efetividade e estruturas de governança deixam de cumprir verdadeira sua função.

Governança corporativa existe justamente para reduzir a distância entre o surgimento do risco e a capacidade da organização de identificá-lo, avaliá-lo e enfrentá-lo. Conselho de Administração, Conselho Fiscal, Comitê de Auditoria, auditoria interna, gestão de riscos, controles internos, compliance e auditoria independente não constituem uma coleção de exigências burocráticas. São mecanismos complementares destinados a reduzir a probabilidade de que decisões inadequadas, conflitos de interesses, falhas operacionais ou irregularidades individuais evoluam silenciosamente até ameaçar a organização.

Os números mais recentes do mercado de capitais brasileiro ajudam a dimensionar a importância dessa infraestrutura de supervisão. Segundo o inédito Relatório da Atividade Sancionadora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ao final de junho de 2026, havia 1.023 processos administrativos com potencial sancionador em andamento nas oito áreas técnicas da autarquia responsáveis por apuração ou investigação. A CVM também emitiu, entre abril e junho, 43 ofícios de alerta e duas stop orders.

Continua após a publicidade

Esses números não significam que todos esses casos decorram de falhas de governança corporativa, tampouco permitem presumir responsabilidade antes do devido processo. A própria CVM esclarece que processos com potencial sancionador envolvem apuração ou investigação de possíveis irregularidades e podem, conforme os elementos de autoria e materialidade encontrados, resultar em acusação, proposta de inquérito ou ofício de alerta. Demonstram, entretanto, algo importante: supervisão, prevenção, investigação e enforcement são componentes permanentes da infraestrutura necessária à integridade do mercado.

Quando uma crise alcança dimensão suficiente para destruir valor de mercado, comprometer empregos, afetar credores ou provocar intervenção regulatória, portanto, a pergunta relevante não deveria ser apenas “quem errou?”. Há outra, institucionalmente mais importante: por que os mecanismos responsáveis por identificar e mitigar o problema não funcionaram antes?

Essa mudança de perspectiva pode alterar profundamente a análise, já que uma fraude praticada por determinado executivo pode explicar o evento que desencadeou uma crise, mas não necessariamente sua dimensão. Para que uma irregularidade material permaneça oculta durante longo período, outras barreiras podem ter falhado: controles insuficientes, informações inadequadas, baixa independência das funções de fiscalização, supervisão deficiente ou uma cultura organizacional incapaz de questionar decisões da alta administração.

Continua após a publicidade

É por isso que governança não pode ser confundida com um simples organograma. Uma companhia pode possuir conselho, comitês, políticas, código de ética, matriz de riscos e sofisticados sistemas de controle e, ainda assim, apresentar governança deficiente. Estruturas formais importam, mas sua efetividade depende da qualidade da informação, da independência de julgamento, da competência dos administradores e, principalmente, da disposição institucional para formular perguntas difíceis antes que o mercado seja obrigado a fazê-las.

A lógica regulatória é relevante: não basta possuir estruturas de governança; é necessário permitir que investidores compreendam e avaliem como elas funcionam. Quando determinada prática recomendada não é adotada ou é adotada apenas parcialmente, a companhia deve apresentar justificativas pertinentes. Governança deixa, assim, de ser apenas declaração institucional e passa a integrar o conjunto de informações submetidas ao escrutínio do mercado.

É nesse ponto que a cultura organizacional deixa de ser conceito abstrato e passa a representar variável econômica. Empresas nas quais más notícias circulam lentamente podem acumular riscos mais rapidamente. Quando subordinados evitam contrariar superiores, executivos concentram excessivamente decisões e conselhos recebem informações filtradas, a governança perde justamente uma de suas principais capacidades: produzir contraditório antes que decisões relevantes se tornem irreversíveis.

Continua após a publicidade

Existe também uma consequência diretamente financeira, já que investidores não precificam apenas lucros futuros. Precificam riscos e a confiança de que as informações disponíveis representam adequadamente a realidade econômica da companhia. Quando essa confiança desaparece, podem surgir queda no valor dos ativos, aumento do custo de capital, dificuldade de refinanciamento, deterioração da classificação de risco e retração de investidores.

A dimensão econômica dessa confiança é particularmente relevante no Brasil. Segundo a CVM, somente no primeiro semestre de 2026 foram emitidos R$ 420 bilhões em valores mobiliários, distribuídos em 2.384 ofertas, crescimento de 10,8% em volume financeiro em relação ao mesmo período de 2025. Ao final de junho, a autarquia contabilizava 92.978 participantes regulados e estimava em R$ 52,33 trilhões o valor total do mercado sob sua regulação — R$ 18,94 trilhões quando excluído o valor nocional dos produtos derivativos.

Em um mercado dessa magnitude, qualidade da informação, integridade e governança deixam de constituir questões exclusivamente internas das empresas. Tornam-se componentes da própria infraestrutura de confiança necessária à formação e à alocação eficiente do capital.

Continua após a publicidade

Isso não significa que governança seja capaz de eliminar crises ao passo em que nenhuma estrutura de controle consegue extinguir completamente riscos, fraudes, erros humanos ou choques externos. A função da boa governança é diferente: reduzir a probabilidade de ocorrência de eventos evitáveis, aumentar a capacidade de detecção e resposta e limitar a magnitude dos danos quando o problema surgir.

Talvez esteja aí uma das principais dificuldades da sociedade e das próprias empresas em reconhecer seu verdadeiro valor de mercado. Quando a governança funciona, o resultado mais importante frequentemente é justamente aquilo que não aconteceu: a fraude interrompida, a aquisição rejeitada, o risco identificado, o conflito tratado, o investimento revisto ou a decisão corrigida antes de produzir perdas relevantes. Prevenir raramente gera manchetes. Fracassar, quase sempre.

Por isso, depois de cada grande crise empresarial, administradores, investidores e reguladores deveriam evitar a tentação de tratá-la apenas como consequência de indivíduos que tomaram decisões erradas. Pessoas importam, responsabilidades individuais precisam ser rigorosamente apuradas e irregularidades devem produzir consequências.

Continua após a publicidade

Mas organizações bem governadas são concebidas precisamente para reduzir a possibilidade de que o erro ou a conduta irregular de uma pessoa comprometa todo o sistema. Crises corporativas não surgem necessariamente quando o problema finalmente aparece no balanço, em manchetes policiais, no Fato Relevante divulgado ao mercado ou na cotação das ações negociadas em bolsa.

Nesse momento, muitas vezes a crise apenas se tornou visível. Sua origem pode estar muito antes: na pergunta que ninguém fez, no risco que foi relativizado, no controle que não funcionou, na informação que não chegou ao conselho ou no alerta que a organização preferiu negligenciar.

É por isso que as crises corporativas graves raramente começam quando se tornam públicas. Em muitos casos, elas são apenas o desfecho visível de falhas de governança que se acumularam silenciosamente ao longo do tempo. A verdadeira medida de uma boa governança, portanto, não está na qualidade das respostas oferecidas depois da crise, mas na capacidade de fazer as perguntas certas antes que ela aconteça.