Entre investimentos privados bem-sucedidos, pistas históricas demolidas e reformas marcadas por polêmicas, o automobilismo brasileiro vive entre a excelência isolada e a precariedade estrutural.
O mapa do automobilismo nacional é um fiel espelho das contradições brasileiras: ilhas de modernidade e profissionalismo cercadas por abandono, promessas não cumpridas e obras malfeitas.
A paixão pelo esporte a motor é genuína e antiga, mas esbarra repetidamente na precariedade da gestão pública e na lógica predatória da especulação.
No topo da pirâmide está o Autódromo José Carlos Pace, em Interlagos, única pista brasileira de Grau 1 da FIA e palco da Fórmula 1 e do WEC.
Ano após ano a pista vem passando por mudanças em sua estrutura externa, com generosas injeções anuais de recursos da Prefeitura de São Paulo, esforço necessário para manter o Brasil no calendário das principais categorias internacionais.
No entanto a Prefeitura não tem de que reclamar, uma vez que arrecada muito mais do que gasta, e ainda transformou o Autódromo em uma arena multiuso, arrecadando com shows e festivais, que achatam até o calendário do automobilismo.
Mais espaços
Na capital paulista, existe ainda o Circuito do Anhembi, que inicialmente recebeu a Fórmula Indy por quatro anos consecutivos (2010 – 2013), e desde 2023 com uma ligeira modificação no traçado cumpre seu papel na Fórmula E.
Fora do poder público, o Velocitta, em Mogi Guaçu, brilha como o exemplo mais bem-sucedido de iniciativa privada: moderno, bem mantido e homologado com o grau 3 da FIA, tornou-se a casa natural da Porsche Cup e da Stock Car.
No Sul, a resistência dita o ritmo. Cascavel (PR) é o maior case de sucesso de gestão pública recente: doado à prefeitura, foi remodelado com asfalto de nível internacional e estrutura padrão FIA, mantendo viva a mítica “Curva do Bacião” e um calendário recheado de categorias nacionais.
Em Nova Santa Rita (RS), o Velopark demonstrou resiliência ímpar ao ser reconstruído após as devastadoras enchentes de 2024 e, agora sob nova direção privada por parte do proprietário da Fueltech, Anderson Dick, garante seu futuro.
Já o lendário Tarumã (RS) sobrevive mais pela tradição e pela paixão regional do que pela modernidade, lutando para adequar suas altíssimas velocidades às exigências de segurança, cada vez mais caras, das categorias de elite.
Enquanto o Dumondo, em São Francisco de Paula, acena com um ambicioso projeto bilionário previsto para 2026.
Goiânia viveu seu momento de glória em março, com a retomada da MotoGP após reforma de R$ 250 milhões. O evento atraiu mais de 150 mil pessoas e gerou impacto econômico de R$ 868 milhões.
Problemas pontuais no asfalto foram rapidamente atacados pelo governo estadual, mas deixou uma mancha já que houve tempo mais que suficiente para que isso não ocorresse.
O jornalista Teo José, comentou que os problemas no asfalto de Goiânia podem impactar nas negociações com a Fórmula Indy para 2027.
“Eu não acredito neste asfalto”, disse o conhecido narrador da Band, criador do bordão “Não perde mais”.
No Nordeste a Paraíba surgiu com a positiva inauguração do Autódromo Internacional da Paraíba, em João Pessoa, fruto da visão do ex-piloto Fernando Monteiro.
O reverso da medalha, porém é doloroso e extremamente vergonhoso. Primeiro com Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, que foi vítima da sanha especulatória e desfaçatez de uma série de políticos.
Começou sendo mutilado com os Jogos Panamericanos de 2007. Não contentes os administradores do estado Fluminense, demoliram completamente o circuito em 2012 para os Jogos Olímpicos e nunca foi substituído.
As estruturas criadas para as olimpíadas hoje estão abandonadas ou foram também demolidas dando espaço para especulação imobiliária; o Rio, que nos anos 80 sediou a Fórmula 1, recebeu um oval para Indy e foi palco de provas de MotoGP, foi cruelmente assassinado.
Hoje tudo se resume a promessas, primeiro com um terreno que seria cedido em Deodoro pela Marinha, mas por ser campo de provas era um terreno minado.
Agora a promessa é de se construir uma pista em Guaratiba, e o Rio segue sem um circuito para pratica do automobilismo a nível nacional.
Curitiba também perdeu seu autódromo, mas o espaço do Autódromo Internacional de Curitiba (Circuito Raul Boesel) seguiu um roteiro diferente.
Ele pertencia a um particular e os proprietários resolveram o demolir em 2022, com especulação que seria vendido para criação de um condomínio de luxo.
Até hoje o terreno e o Kartódromo que ficavam nas suas dependências estão completamente abandonados, e em breve deve ser transformar em um bairro planejado de luxo.
Em Fortaleza, o Virgílio Távora caminha para o fim, vítima da especulação imobiliária. O circuito o mais antigo da região e berço da Stock Car no Norte-Nordeste, caminha para a demolição após o governo estadual desistir da revitalização e ceder o terreno à especulação imobiliária. Com ele, vão embora décadas de história e o esporte a motor cearense perde sua única casa.
Ainda mais frustrantes são os casos de investimentos milionários que nascem com problemas graves.
Pernambuco ainda possui um autódromo permanente de automobilismo: o Autódromo Internacional Ayrton Senna, localizado em Caruaru, no Agreste do estado. Inaugurado em 1992, o circuito já foi uma das principais praças do esporte a motor no Nordeste, recebendo categorias como Fórmula Truck, motovelocidade, campeonatos regionais e diversos eventos de track Day.
Durante os anos 1990 e início dos anos 2000, o autódromo viveu períodos de grande movimentação, atraindo público de vários estados nordestinos.
Mudanças no cenário
Nos últimos anos, porém, o cenário mudou drasticamente. O complexo entrou em um processo gradual de deterioração, marcado por problemas de manutenção, desgaste severo do asfalto, estruturas envelhecidas, mato alto e episódios de vandalismo.
A falta de investimentos contínuos também impediu que a pista acompanhasse as exigências modernas de segurança e homologação das principais categorias nacionais.
Hoje, o Autódromo de Caruaru permanece ativo apenas de maneira limitada, recebendo eventos menores e competições regionais, mas sem condições adequadas para sediar grandes campeonatos nacionais de automobilismo ou motovelocidade.
Brasília, é um caso à parte: o Autódromo Internacional Nelson Piquet foi reaberto após uma década de abandono com um mísero investimento de R$ 60 milhões do BRB, cifra que, para qualquer especialista em homologação da FIA, já soava insuficiente desde o primeiro dia.
A pista foi fechada para sua primeira reforma desde sua inauguração em 2014 para completa reforma e iria receber a Fórmula Indy, mas com a realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, o dinheiro foi desviado para revitalização do Estádio Mané Garrincha.
Diferentes gestões passaram e o circuito só foi reaberto totalmente inacabado em no final de 2025, sem os boxes, os guardrails, o centro médico, a sala de controle de corridas, a sala de cronometragem, a sala de imprensa e uma nova ponte de duas mãos para aceder aos boxes, entre outras coisas.
Apesar do alarde feito pelo BRB, a reinauguração foi manchada por vários escândalos, culminando na prisão do então presidente do banco e em cortes drásticos no patrocínio, deixando o futuro da pista em aberto.
Em Cuiabá, o novíssimo Autódromo do Parque Novo Mato Grosso mal abriu as portas e já foi rejeitado pela Porsche Cup por graves falhas de segurança, pela ausência de zebras adequadas e pela infraestrutura aquém do mínimo exigido.
Uma pista inaugurada sem estar pronta, uma façanha que, no Brasil, infelizmente não surpreende ninguém.
Finalmente, o Autódromo Orlando Moura, em Campo Grande, engatinha na tentativa de se resgatar após anos de imbróglios judiciais e de abandono.
O automobilismo brasileiro avança apesar do Estado, não graças a ele. Sobram imaginação, garra de pilotos, equipes e promotores, mas faltam guard-rails adequados, boxes dignos, centros médicos e infraestrutura mínima na maior parte do território.
Enquanto Interlagos, Velocitta, Goiânia, Cascavel e o Autódromo Internacional da Paraíba mostram que é possível construir projetos sólidos com investimento, planejamento e gestão séria, boa parte do país ainda convive com obras incompletas, infraestrutura precária e promessas jamais concluídas.
Ao fã, resta torcer para que a paixão pelo automobilismo consiga, algum dia, superar a improvisação crônica que há décadas limita o potencial das pistas brasileiras.
