Por que Ravi Lobo tem apenas 18 mil seguidores pelo Instagram?

Rapper de Salvador criou obra originalíssima de vida e de morte, mas ainda não alcançou público que sua arte merece

Ravi Lobo lançou o álbum 'Shakespeare do Gueto 2' em 2025

Ravi Lobo lançou o álbum 'Shakespeare do Gueto 2' em 2025 | Lane Silva/Divulgação

O rapper Ravi Lobo é um dos maiores artistas contemporâneos deste país, e sei disso há pouco tempo. Só fui escutá-lo com mais atenção depois que o entrevistei para o podcast Direto da Gazeta, em julho deste ano, e desde então não entendo por que ele tem apenas 18 mil seguidores no Instagram.

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Há quem defenda que ter seguidores pelas redes sociais pouco importa, mas não sou desses. Para artistas, isso deixou de ser apenas vaidade. É uma forma de mostrar como o seu trabalho é relevante, chega longe, influencia e emociona pessoas e é sustentável profissionalmente. Por isso, é inexplicável a quantidade de “followers” dentro do momento popularíssimo que o rap vive.

Ravi é de Salvador e ganhou visibilidade há pouco mais de 10 anos pelo grupo Rap Nova Era. O som era gangsta, original, violento e corajoso (o que continua sendo). Dos personagens apresentados nos primeiros clipes, muitos morreram jovens, em uma das periferias mais perigosas do Brasil. Ravi atravessou as armadilhas enquanto conquistava admiradores – mais dentro do rap do que no público em geral, pelo menos fora da capital baiana.

Conseguiu, também, ser respeitado por músicos locais de outras vertentes. Isso é para poucos. É notório que o gênero musical enfrentou resistência na cidade mais negra do mundo fora da África, pela influência de outros estilos que sempre disputaram a preferência dos corações soteropolitanos.

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Na carreira solo, lançou o EP Shakespeare do Gueto, um clássico instantâneo, e manteve o nível no álbum Shakespeare do Gueto 2, ao lado de nomes como Edi Rock, Galo de Luta e Lazzo Matumbi. Está tudo ali: a voz rascante, a crueza das frases musicais e a sonoridade interessantíssima. Cada verso revela como “Salvador nunca foi Wakanda”, sem esquecer da importância do flow.

A Bahia carrega o estereótipo da alegria, da malemolência, mas tem uma carga também de traumas pesados vindos um histórico de tristezas sem fim. Não à toa o rap de Ravi é soturno. Não à toa, ainda, parte considerável do samba baiano é essencialmente melancólico, como Ederaldo Gentil, Riachão e Batatinha, que cantou: “É proibido sonhar / Então me deixe o direito de sambar…”

Já falei brincando para o também rapper Max B.O. que é difícil pegar um verso isolado do Ravi para colocar no Twitter, para indicar meu estado de espírito do momento, porque cada palavra dele é carregada do peso de se viver numa região empobrecida da capital baiana. Cada linha denuncia os perigos, os inimigos por todos os lados, o racismo operando de maneira sofisticada, orquestrada e cruel. Mas há ali também, para quem se dispuser a prestar atenção, delicadezas afloradas, esperanças reconstruídas, rezas para crianças evitarem o crime. É uma obra de vida e de morte e de lutos e renascimentos.

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“Minha vida é guerra e paz, isso me define…”, como canta em Love in Crime Pt. 2.

O hip hop segue salvando vidas e mudando mentalidades. Para melhorar, nunca atraiu tanto dinheiro e visibilidade do mercado artístico quanto agora. Ravi Lobo deveria estar usufruindo melhor desse momento. Uma obra gigante ele já tem. Agora é com o público.