O rapper Ravi Lobo é um dos maiores artistas contemporâneos deste país, e sei disso há pouco tempo. Só fui escutá-lo com mais atenção depois que o entrevistei para o podcast Direto da Gazeta, em julho deste ano, e desde então não entendo por que ele tem apenas 18 mil seguidores no Instagram.
Há quem defenda que ter seguidores pelas redes sociais pouco importa, mas não sou desses. Para artistas, isso deixou de ser apenas vaidade. É uma forma de mostrar como o seu trabalho é relevante, chega longe, influencia e emociona pessoas e é sustentável profissionalmente. Por isso, é inexplicável a quantidade de “followers” dentro do momento popularíssimo que o rap vive.
Ravi é de Salvador e ganhou visibilidade há pouco mais de 10 anos pelo grupo Rap Nova Era. O som era gangsta, original, violento e corajoso (o que continua sendo). Dos personagens apresentados nos primeiros clipes, muitos morreram jovens, em uma das periferias mais perigosas do Brasil. Ravi atravessou as armadilhas enquanto conquistava admiradores – mais dentro do rap do que no público em geral, pelo menos fora da capital baiana.
Conseguiu, também, ser respeitado por músicos locais de outras vertentes. Isso é para poucos. É notório que o gênero musical enfrentou resistência na cidade mais negra do mundo fora da África, pela influência de outros estilos que sempre disputaram a preferência dos corações soteropolitanos.
Na carreira solo, lançou o EP Shakespeare do Gueto, um clássico instantâneo, e manteve o nível no álbum Shakespeare do Gueto 2, ao lado de nomes como Edi Rock, Galo de Luta e Lazzo Matumbi. Está tudo ali: a voz rascante, a crueza das frases musicais e a sonoridade interessantíssima. Cada verso revela como “Salvador nunca foi Wakanda”, sem esquecer da importância do flow.
A Bahia carrega o estereótipo da alegria, da malemolência, mas tem uma carga também de traumas pesados vindos um histórico de tristezas sem fim. Não à toa o rap de Ravi é soturno. Não à toa, ainda, parte considerável do samba baiano é essencialmente melancólico, como Ederaldo Gentil, Riachão e Batatinha, que cantou: “É proibido sonhar / Então me deixe o direito de sambar…”
Já falei brincando para o também rapper Max B.O. que é difícil pegar um verso isolado do Ravi para colocar no Twitter, para indicar meu estado de espírito do momento, porque cada palavra dele é carregada do peso de se viver numa região empobrecida da capital baiana. Cada linha denuncia os perigos, os inimigos por todos os lados, o racismo operando de maneira sofisticada, orquestrada e cruel. Mas há ali também, para quem se dispuser a prestar atenção, delicadezas afloradas, esperanças reconstruídas, rezas para crianças evitarem o crime. É uma obra de vida e de morte e de lutos e renascimentos.
“Minha vida é guerra e paz, isso me define…”, como canta em Love in Crime Pt. 2.
O hip hop segue salvando vidas e mudando mentalidades. Para melhorar, nunca atraiu tanto dinheiro e visibilidade do mercado artístico quanto agora. Ravi Lobo deveria estar usufruindo melhor desse momento. Uma obra gigante ele já tem. Agora é com o público.
