Inglês de brasileiro: identidade ou desculpa para não melhorar?

Por muito tempo, o ideal que orientou o ensino e a aprendizagem de inglês foi bastante claro: falar como um nativo

Era comum associar fluência a ausência de sotaque estrangeiro, como se a aproximação ao padrão nativo fosse o único caminho legítimo

Era comum associar fluência a ausência de sotaque estrangeiro, como se a aproximação ao padrão nativo fosse o único caminho legítimo | Divulgação

Por muito tempo, o ideal que orientou o ensino e a aprendizagem de inglês foi bastante claro: falar como um nativo. Esse modelo aparecia como objetivo final, como parâmetro de sucesso, como aquilo que separava quem “sabia inglês” de quem ainda estava no caminho.

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Era comum associar fluência à ausência de sotaque estrangeiro, como se a aproximação ao padrão nativo fosse o único caminho legítimo. Mas, quando a gente olha com mais calma para o funcionamento real da língua no mundo hoje, essa ideia perde todo o sentido.

O inglês há tempos ultrapassou as fronteiras de países específicos e hoje funciona como uma língua global, usada principalmente entre não nativos. Em reuniões de trabalho, viagens, ambientes acadêmicos e interações online, o mais comum não é um nativo conversando com um estrangeiro, mas dois (ou mais) não nativos negociando sentidos em inglês.

É nesse contexto que surgem críticas importantes, como as propostas pela linguista Jennifer Jenkins, que questiona justamente essa visão idealizada do modelo nativo. Segundo ela, chega a ser uma injustiça social esperar que todos usem o inglês como falantes nativos do idioma, quando a própria função da língua no mundo não é essa.

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Nos últimos anos, com a força das redes sociais, tenho acompanhado o crescimento de um movimento que segue na direção oposta. Há uma valorização cada vez maior do sotaque brasileiro no inglês como símbolo de identidade. A mensagem costuma ser acolhedora e necessária: não, você não precisa apagar quem você é para falar outra língua. Para muita gente, isso representa um alívio depois de anos tentando alcançar um padrão que dificilmente seria atingido.

É verdade que não precisamos soar como um estadunidense, um australiano ou um inglês para nos comunicarmos bem. Eu mesma defendo que nosso sotaque falando inglês é a nossa identidade e jamais deveria ser motivo de vergonha. Porém, isso não significa que podemos falar de qualquer jeito quando a intenção é se comunicar internacionalmente.

Imagine se cada falante simplesmente transferisse, sem nenhum ajuste, todos os padrões sonoros da sua língua materna para o inglês. A comunicação inevitavelmente começaria a se comprometer. Um japonês mantendo apenas os sons do japonês, um francês preservando integralmente seus padrões fonológicos, um brasileiro adaptando tudo ao português. Em algum momento, a compreensão se perde ou passa a exigir um esforço muito maior de quem está ouvindo.

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A pronúncia diz respeito a como produzimos os sons da língua, e isso impacta diretamente a inteligibilidade, ou seja, o quanto somos compreendidos. Defender o sotaque como parte da identidade faz sentido. Ignorar a importância de uma pronúncia clara é outra história.

No fim das contas, talvez a resposta para a pergunta do título seja menos radical do que parece. O inglês com sotaque brasileiro é, sim, identidade. Mas trabalhar a pronúncia não deve ser visto como um ato de submissão cultural, e sim como uma estratégia de comunicação. Ajustar sons, treinar o ouvido, perceber contrastes que não existem no português, tudo isso faz parte do processo de aprender uma nova língua. E é um processo fascinante e que, acima de tudo, garante a liberdade e a autonomia de se comunicar com mais confiança.

Por isso, o mais importante é não deixar com que o medo do erro iniba a sua comunicação e ir polindo a sua pronúncia aos poucos, sem pressão. Afinal, falar um inglês imperfeito ainda é infinitamente melhor do que não falar inglês nenhum.

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Carina Fragozo é doutora em Linguística pela USP, professora de inglês há mais de 20 anos e reúne mais de 3 milhões de seguidores nas redes sociais. Fundadora do English in Brazil, escola de inglês online, é referência no ensino do idioma na internet brasileira.