A isenção também vota

Há 2.600 anos, Atenas já sabia: quem ocupa um lugar de influência e escolhe se ausentar não é neutro; apenas terceirizou a decisão

Das pessoas que confiam em você, quantas vão votar pensando melhor por sua causa — ou pior, pelo seu silêncio?. Foto: Divulgação

Atenas, por volta de 594 a.C. A cidade vive à beira da ruptura: dívidas impagáveis, facções em conflito aberto, a elite cuidando do próprio patrimônio enquanto o resto desmorona.

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Chamam Sólon para reescrever as regras. Entre as leis que ele deixou, há uma que Aristóteles registrou e que quase ninguém cita: em tempos de conflito civil, o cidadão que não tomasse parte perdia seus direitos de cidadão. Repare no detalhe. Sólon não disse qual lado escolher.

Ele puniu a ausência. Para o legislador mais respeitado da Grécia, a pior postura diante de uma crise não era errar de posição. Era assistir de camarote, esperando descobrir quem venceria para então se acomodar.

Um século e meio depois, Péricles levou a ideia adiante: em Atenas, quem se afastava da vida pública não era visto como um homem tranquilo, mas como um homem inútil. Os gregos tinham até uma palavra para o cidadão fechado nos próprios interesses: idiótes. Dela veio “idiota”.

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O muro custa caro

A isenção tem uma reputação que não merece. Parece prudência, maturidade, elegância. Na prática, é a decisão mais cômoda disponível para quem tem poder: não assumir o desgaste de pensar em voz alta e, ainda assim, colher o resultado, seja ele qual for.

Todo executivo conhece esse mecanismo dentro de casa.

A empresa raramente quebra por uma decisão errada; quebra pela sucessão de decisões que ninguém quis tomar. O conselheiro que se cala na reunião difícil não é neutro. Ele emprestou o próprio voto a quem falou mais alto. Com o País é igual. E estamos às vésperas das urnas.

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Você tem mais influência do que admite

O Edelman Trust Barometer 2026 traz um dado que deveria pesar sobre toda cadeira de liderança no Brasil: o empregador é a instituição mais confiável do país, com 80% de confiança entre os empregados.

O governo fica em 45%, a única instituição classificada como não confiável. E 70% dos empregados afirmam que o empregador tem a obrigação de reduzir as divisões na sociedade, enquanto só 47% acham que ele cumpre bem esse papel.

Leia de novo: num País em que 7 em cada 10 pessoas hesitam em confiar em quem tem valores ou visões diferentes das suas, a voz mais crível na vida de milhões de brasileiros não está na TV nem no palanque. Está na reunião de segunda-feira. É a sua.

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Isso não é privilégio. É responsabilidade com CPF.

Não é sobre quem. É sobre o quê

Deixo claro o que este texto não é: um convite a idolatrar pessoas ou partidos. O líder que transforma a eleição em torcida abdica do pensamento crítico tanto quanto o que se omite.

O papel de quem lidera é outro, e mais exigente: levar a conversa do “quem” para o “o quê”. Que ideias estão em jogo? O que elas produzem na economia, no emprego, na segurança jurídica de quem investe, na saúde das empresas e das entidades que fazem o país tracionar? Quais propostas geram oportunidade, e quais apenas administram a carência?

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A rede de proteção social é legítima e necessária; ninguém sério discute amparar quem precisa. A questão é se a ponte leva a algum lugar. Política pública boa se mede pela porta de saída, não pelo tamanho da fila. Dignidade não se distribui: se constrói. E o trabalho é a sua principal obra.

O IBGE mostra de onde vem a virada. O Brasil ainda tem 8,2 milhões de jovens que não trabalham, não estudam e não se qualificam, o equivalente a 17,5% da faixa de 15 a 29 anos.

Em 2019 eram 11 milhões, e a busca por cursos técnicos e de qualificação ajudou a puxar essa queda. Oportunidade e formação movem gente. E formar gente é, exatamente, o ofício de quem lidera.

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Três movimentos para esta semana

1. Troque a torcida pelo critério. Antes de votar, e antes de falar sobre o voto, responda por escrito: quais três indicadores do país mais afetam o meu negócio e as pessoas que dependem dele? Avalie propostas por esses critérios, não por simpatia. É o mesmo rigor que você exige de um plano de negócios.

2. Oriente sem direcionar. Seu papel é elevar o nível da conversa, nunca conduzir o voto de alguém. Incentive a equipe a ler propostas, comparar fontes e votar com consciência, e pare aí. Pressionar colaborador a votar em A ou B é assédio eleitoral, ilegal e fiscalizado pelo Ministério Público do Trabalho. Influência legítima forma consciência; influência ilegítima compra obediência.

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3. Ensine o valor do trabalho pelo exemplo. Os jovens da sua empresa e da sua casa aprendem ética observando o que você tolera. Honestidade, esforço e ambição não se ensinam em palestra. Eles se ensinam no crédito dado a quem entrega, na recusa ao atalho, na primeira oportunidade dada a quem nunca teve uma. Abra uma vaga de aprendiz ou estágio a mais neste ciclo. É política pública feita pelo setor privado.

O que fica

Nenhum lugar de influência é acidente. Se você chegou à cadeira de dono, de diretor ou de conselheiro, não foi apenas para proteger o patrimônio e perpetuar o sobrenome. Foi para que suas decisões, e seu exemplo, alcançassem gente que você nunca vai conhecer.

Sólon punia quem se ausentava. Hoje ninguém vai punir você. Por isso a responsabilidade é inteiramente sua.

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Então, antes das urnas, a pergunta não é em quem você vai votar. É outra:

Das pessoas que confiam em você, quantas vão votar pensando melhor por sua causa — ou pior, pelo seu silêncio?

Fontes: Aristóteles, Constituição de Atenas, 8.5 (lei de Sólon); Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, II.40 (discurso fúnebre de Péricles); Edelman Trust Barometer 2026 — Relatório Brasil; IBGE, PNAD Contínua Educação 2025.