Quase 60% dos jovens envolvidos com o tráfico afirmam que sairiam dessa realidade se tivessem uma fonte de renda digna. A pesquisa do Data Favela não é opinião, é estatística – e desmonta o discurso confortável de que o crime é escolha moral, e não consequência social. Enquanto o País insiste em tratar a violência como caso de polícia, ignora que ela nasce, cresce e se reproduz na ausência de oportunidades e políticas públicas.
É nesse ponto que o livro Humanos, recém-chegado às plataformas digitais, provoca um choque necessário. A obra expõe, com contundência e sensibilidade, quem são as pessoas que o Brasil insiste em enxergar apenas como manchete policial: jovens, mães, trabalhadores informais, gente atravessada pela desigualdade estrutural.
Os números revelam o óbvio que preferimos negar: repressão sem política de renda é enxugar gelo. Criminalizar a pobreza pode render aplausos momentâneos, mas não salva-vidas.
Se quase 60% querem sair, o problema não é falta de vontade, é falta de Estado, de mercado responsável e de escolhas coletivas que priorizem gente, não estatísticas de encarceramento.
Não acreditamos em vocação para o mal. Acreditamos em portas fechadas. Muitos desses jovens dormem com fome ante de dormirem com uma arma debaixo do travesseiro. (Celso Atayde e Marcus Vinicius Atayde).
O livro “Humanos” chega às plataformas digitais e expõe, com contundência e sensibilidade, quem são as pessoas que o País só vê como manchete policial
O tráfico de drogas costuma ser narrado no Brasil pela lente da guerra: caveirões, tiroteios, operações e estatísticas. Raramente pela realidade das pessoas envolvidas. É justamente para preencher esse vazio que chega ao público “Humanos”, novo livro de Celso Athayde e Marcus Vinícius Athayde, lançado no dia 12.
A obra nasce de uma pesquisa inédita do Instituto Data Favela, que ouviu quase 4 mil pessoas envolvidas com o crime em 23 estados. O resultado é um raio-x raro, que desmonta mitos e revela uma faceta do tráfico que o País evita olhar: a que fala de infância, família, fé, fome, medo e escolhas atravessadas pela ausência de oportunidades.
Números que revelam o que o Brasil insiste em não ver:
- Metade dos entrevistados tem até 26 anos; 80%, até 36.
- A maioria é preta, com família, filhos e responsabilidades cotidianas.
- Quase 50% citam a falta de dinheiro como principal motivo para entrar no crime.
- A resposta mais frequente para “o que faria diferente na vida?” é “ter estudado”.
- 60% vivem com menos de dois salários mínimos, derrubando o mito de que o crime enriquece.
- 84% afirmam que não desejam que seus filhos repitam o mesmo caminho.
Os relatos mostram jovens que passam muitas vezes fome antes de tocar em uma arma. O tráfico aparece como o “segundo turno da pobreza”, trabalhadores informais ou subempregados que, sem alternativa, buscam no crime o complemento de renda que o mercado não oferece.
Um diálogo entre gerações, e entre duas vivências da mesma ferida social
O livro também marca o encontro de duas perspectivas. Celso, 62 anos, filho de favela, viveu a fronteira fina entre crime e sobrevivência e registrou o país profundo em “Falcão – Meninos do Tráfico”. Marcus, 25 anos, economista, cresceu com a mesma pele e o mesmo CEP que moldam as estatísticas sobre violência no Brasil. A dupla mostra que a diferença entre eles e muitos dos entrevistados nunca foi moral – foi oportunidade.
Humanos, de Celso Athayde e Marcus Vinícius Athayde, não foi escrito para confortar consciências, mas para deslocá-las.
Construído a partir da pesquisa Raio-X da Vida Real, realizada pelo Instituto Data Favela, o livro escuta diretamente quem o País prefere silenciar, pessoas em situação de crime nas favelas brasileiras.
Ao unir dados, vivência e reflexão, revela o que existe por trás das estatísticas da violência, histórias atravessadas pela ausência do Estado, pela pobreza e pela escassez de oportunidades. São escolhas feitas sob a pressão da sobrevivência, não da perversidade. A provocação final é inevitável: se conhecemos as causas, por que seguimos tratando apenas os efeitos?
Disponibilidade:
“Humanos” estará disponível na Amazon.
