Na semana passada, falamos sobre como pensar de forma exponencial. Hoje, no nosso segundo capítulo sobre os “4 Gaps da Inovação”, quero falar sobre algo mais íntimo do que a tecnologia: a sua capacidade de confiar e se adaptar.
Em novembro passado, durante uma imersão no Vale do Silício e no Texas, vivi uma experiência que, há poucos anos, pareceria filme de ficção científica. Chamei um carro pelo aplicativo e ele chegou. Até aí, normal. A diferença é que, ao abrir a porta, o banco do motorista estava vazio.
Eu andei no Waymo, o táxi sem motorista do Google, e vi de perto a evolução dos robotáxis. A sensação é indescritível. Estatísticas já mostram que esses robôs são dez vezes mais seguros ao volante do que seres humanos. Mas o que travou minha mente naquele banco de trás não foi a tecnologia em si, foi a ironia da nossa evolução comportamental.
A pirueta da confiança
Pense na minha geração (e provavelmente na sua).
Nos anos 90, minha mãe dizia: “Nunca entre em carros de estranhos”.
Nos anos 2000, com a chegada da internet, o conselho mudou: “Não encontre na vida real aquelas pessoas estranhas da internet”.
Aí veio a Uber e o Airbnb, e passamos a chamar estranhos da internet para entrarmos no carro deles.
Agora, em 2026, estamos entrando em carros de estranhos onde não há ninguém.
Em uma janela de menos de 40 anos, fomos do medo total à confiança cega em algoritmos. Passamos da revolução digital para a revolução móvel e, agora, para a revolução da inteligência.
Isso me leva ao conceito central deste artigo: Nós não estamos vivendo uma era de mudanças. Estamos vivendo uma mudança de era.
Parece um jogo de palavras, mas a diferença é brutal.
Na “era de mudanças”, as coisas apenas melhoram (o carro fica mais rápido). Na “mudança de era”, a lógica do mundo se altera (o motorista deixa de existir). Saímos da era analógica, dominamos a digital e agora precisamos acoplar um “cérebro digital” ao nosso: a Inteligência Artificial.
O Segundo Gap: A Mentalidade Fixa
Diante de uma mudança de era, o maior inimigo da sua carreira não é a IA, é a rigidez. É aqui que entra o segundo abismo que separa quem cresce de quem estagna: o Gap do Mindset.
A psicóloga Carol Dweck, em seu livro seminal Mindset, define dois tipos de pessoas:
- Mindset Fixo: Acredita que suas habilidades são imutáveis. “Eu sou assim”, “Não levo jeito para tecnologia”, “Sempre fizemos desse jeito”.
- Mindset de Crescimento: Acredita que pode evoluir, aprender e se transformar, não importa a idade.
- Para sobreviver profissionalmente de 2026 em diante, você precisa, obrigatoriamente, migrar para o segundo grupo. E isso está ligado ao que chamamos de Locus de Controle.
- Pergunte-se: Onde está o controle da sua vida?
- Locus Externo: Você acha que a economia, o governo, o chefe ou a IA são os culpados pelo que acontece com você. Você é uma vítima das circunstâncias.
- Locus Interno: Você entende que, independente do cenário caótico, você tem o poder de agir, aprender e contornar a situação.
Flexibilidade é a nova estabilidade
Se você ainda está esperando o mundo “voltar ao normal” ou se agarrando à forma como trabalhava há cinco anos, você caiu no Gap do Mindset.
O mercado atual não premia mais quem sabe tudo (o “especialista fixo”). Ele premia quem aprende rápido (o “adaptável”). A estabilidade não vem mais de um cargo vitalício, mas da sua flexibilidade cognitiva.
Se fomos capazes de desaprender o conselho da nossa mãe sobre “estranhos” para confiar em robôs motoristas, somos capazes de aprender qualquer coisa. A ferramenta já mudou. A pergunta é: sua cabeça já mudou também?
Na próxima semana, vamos explorar o terceiro gap da inovação. Até lá, experimente algo novo.
