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Parece, mas não é

Nem uma casa de pé!!!

A notícia da crueldade praticada contra a população civil, como na época das Cruzadas em sua marcha para Jerusalém, é uma arma eficaz

Heródoto Barbeiro

Publicado em 03/06/2024 às 21:15

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O que vale é a destruição da capacidade do adversário revidar e continuar a guerra / Reuters/Ibraheem Abu Mustaf/AB

A nova tática da guerra contemporânea recapitula a ação da Idade Média. Não basta matar os soldados inimigos, é preciso exterminar toda a população civil. De um lado, para desregular o sistema econômico das cidades atacadas, com a destruição do campo –fornecedor de alimentos para todos – e do comércio – com a fuga dos mercadores e financiadores das trocas. De outro, para encher o inimigo de medo, fragilizar a defesa da cidade e quebrar o ânimo de seus defensores. A notícia da crueldade praticada contra a população civil, como na época das Cruzadas em sua marcha para Jerusalém, é uma arma eficaz. Isso ganha uma dimensão maior com o desenvolvimento bélico de novos canhões, metralhadoras e a aviação militar. Esta é a arma que recebe maior quantidade de investimentos com aviões cada vez mais potentes, eficazes, capazes de carregar muito mais bombas, destruir o inimigo com pequenas perdas de soldados. Mas eficazes para destruir a vida humana onde quer que esteja!

Os pretextos para pesquisa e construção de armas de destruição em massa são os mais diversos. Especialmente alimentados por ódios político, racial e até mesmo religioso. Em um conflito é preciso recuperar a tática russa de terra arrasada, usada contra Napoleão Bonaparte. Não deixar nada que o inimigo possa usar a seu favor e permitir que a população civil busque abrigo contra os ataques e colabore com os esforços de guerra dos seus soldados. Para tanto, os cientistas militares trabalham dia e noite na pesquisa de bombas que possam ser lançadas pela aviação militar contra alvos civis: as cidades do inimigo. Não importa se o alvo é uma indústria local, mas a bomba atingir um hospital onde milhares de habitantes buscam abrigo na vã ilusão de que estão protegidos em seu refúgio. A ética da guerra é corroída pela máxima de que o que vale são os fins e não os meios. Atingir indefesos, crianças, mulheres e idosos é apenas um detalhe. O que vale é a destruição da capacidade do adversário revidar e continuar a guerra. E a aviação é um diferencial competitivo, diz um expert em marketing da morte. Outro expert em economia calcula que o custo-benefício de bombardeios por meio da aviação é excelente. Cai o custo por morte e há compensação dos investimentos realizados.

A segunda-feira amanhece com sol e a população sai para os afazeres diários. Mesmo durante meses de guerra, destruição e mortes de milhares de pessoas. A pequena cidade está intocada, apesar de o conflito estar se desenvolvendo há meses – e ela não tem nenhum objetivo militar relevante para ser destruído. No final da tarde do dia 26 de abril de 1937, os primeiros bombardeios aéreos são percebidos pela população civil. À noite, tornam-se intensos com ondas de aviões da Luftwaffe despejando todas as suas bombas. Os incêndios tomam conta das casas, muitas de madeira, e a fumaça cobre todo o povoado. Glória é da Legião Condor nazista enviada para a Espanha em socorro ao líder do movimento fascista local, Francisco Franco, em luta contra os socialistas da república. Hermann Goering, braço direito do ditador nazista Adolf Hitler, faz uma experiência da eficácia de um bombardeio aéreo em uma cidade e escolhe a pequena Guernica. É um treino para um futuro combate se as nações democráticas do mundo não concordarem com a política externa do III Reich em anexar territórios de seus vizinhos, a política do Lebensraum. O chefe da força aérea nazista pode comemorar: é possível destruir uma cidade toda só com a aviação, uma manobra inédita militar. E pode funcionar em outras cidades no futuro, quem sabe Varsóvia...


EM TEMPO: a destruição está imortalizada no painel Guernica, de Pablo Picasso, exposto em Paris durante a invasão nazista. Um coronel foi à exposição e ficou impressionado com a retratação do ataque e perguntou ao artista: “Foi o senhor quem fez isso?”. Picasso respondeu: “Não. Foi o senhor.”

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