O amor enquanto gira

Anne Carson e o amor são o ponto de partida para uma reflexão sobre desejo, prazer, dor e o sentido de compreender aquilo que sentimos

Anne Carson e o amor se encontram em uma reflexão sobre desejo, prazer e dor a partir de “Eros, o doce-amargo”, obra da autora.

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Livros de lá e de cá por José Manuel Diogo.

Um pião gira e um filósofo corre atrás dele. Acredita que, se o conseguir agarrar, compreenderá alguma coisa de essencial. Quando o apanha, porém, tem na mão um pedaço de madeira. O movimento desapareceu. Anne Carson abre Eros, o doce-amargo com esta história de Kafka e deixa-nos diante de uma dificuldade familiar: há coisas que se alteram quando tentamos prendê-las numa explicação.

Escrevi na CNN Brasil que o Nobel também ganha ao distinguir Carson. A autora chega ao prémio com uma obra que já ampliava as possibilidades da literatura. Para quem agora a descobre, este ensaio, publicado originalmente em 1986, permite acompanhar a atenção que dedica a uma palavra, a um gesto, a uma contradição.

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Na edição da Bazar do Tempo, traduzida por Julia Raiz, a primeira surpresa está no título. Doce-amargo causa um pequeno embaraço na língua. A tradutora quis preservar o encontro brusco dos dois sabores. Lemos e quase sentimos na boca uma resistência: a palavra demora um instante a acomodar-se.

Carson vai buscá-la a Safo. E detém-se no que seria fácil dar por entendido. É tentador supor que o amor começa doce e acaba amargo. Essa sequência parece-nos conhecida, mas empobrece o que a poeta grega escreveu. Na leitura de Carson, prazer e dor acontecem ao mesmo tempo. O desejo reúne-os num instante que nos divide.

É aí que a distância dos séculos se torna pequena. A alegria de ver alguém pode trazer consigo o receio de o perder. Uma presença aumenta a consciência da falta. A experiência cabe nessa palavra difícil, que conserva os dois sabores sem os deixar anular-se. A precisão com que Carson lê Safo dá-nos mais recursos para reconhecer aquilo que sentimos.

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O percurso exige atenção. Há palavras gregas e argumentos que pedem uma segunda leitura. A nota de Julia Raiz ajuda a perceber o trabalho necessário para trazer esse pensamento ao português: recriar um trocadilho, escolher como nomear quem ama, arriscar uma palavra que ainda nos soa estranha. A tradução participa da descoberta.

Volto ao pião do início. O filósofo quer agarrá-lo, mas o prazer também está na corrida, na esperança de chegar. Carson aproxima esse movimento da paixão e da leitura. Procuramos compreender e, nessa procura, alguma coisa em nós se desloca.

O Nobel trouxe o nome de Anne Carson para as notícias. Um livro começa a fazer o seu trabalho quando, depois da notícia, ficamos a pensar numa frase. Ou num pião que ainda gira.

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Eros, o doce-amargo: um ensaio — Anne Carson · Bazar do Tempo · 264 páginas.