Eu ainda fazia faculdade, devia ter uns 20 anos e estava no meu primeiro cargo de gestão.
Naquele dia tinha uma reunião importante com um cliente e ouvi do meu chefe que acreditei ser o melhor conselho: “Vai lá e coloca o pau na mesa!” Aquilo significaria decidir. Aquilo significaria liderar. Aquilo rapidamente significaria entender que era preciso agir como um homem.
A história da humanidade é ilustrada por centenas de protagonistas masculinos fortes, autoritários, líderes que comandavam exércitos e países inteiros com uma palavra de ordem.
Às vezes apenas um gesto, com o polegar, do alto de um camarote determinava a vida ou a morte de alguém em uma arena lotada, de outros homens bradando em conjunto. E tudo funcionava porque a estrutura era simples e binária, patriarcal e hierárquica. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Pois.
O Future of Jobs Report 2025 lançado pelo Fórum Econômico Mundial trouxe as 10 competências que mais crescerão até 2030. Procure a lista e encontre ao lado de Liderança, palavras como Resiliência, Flexibilidade, Criatividade e Curiosidade.
Sim, IA também está lá mas o que me interessa de verdade é confirmar que as habilidades que farão diferença são exatamente as que passamos décadas etiquetando como características femininas. Escutar antes de decidir. Negociar em vez de impor. Explicar o sentido. Convencer em vez de comandar.
Essa coluna nasce pra isso: destrinchar o que muda quando poder deixa de ser sobre comando e passa a ser sobre convocação. Convocar gente pra um propósito é trabalho fino. E, goste ou não, é trabalho historicamente feminino.
Hoje, quase trinta anos depois, não sei se aquele chefe teria coragem de repetir o conselho. Mas eu sei o que gostaria de poder voltar naquele dia e dizer para mim mesma, sentada naquela sala: garota, você não precisa do pau. Só precisa aproveitar a oportunidade de ter um lugar seu nessa mesa.
