Hoje, comento o que entendo por práticas de leitura no plural. Prefiro adotar um viés abrangente, a fim de não reiterar simplesmente a constatação de que são baixos os níveis de leitura da população brasileira. Sem negar essa realidade decorrente, entre outras, das fragilidades de nosso sistema educacional nos ciclos básicos, opto por alargar a compreensão acerca do hábito de leitura, para pensar em estratégias sobre como fomentá-lo.
Para início de conversa, o verbo “ler” é polissêmico, acolhedor de muitas variantes. Lemos rostos, paisagens, constelações e imagens, além de livros, jornais e revistas, e também os territórios que habitamos ou visitamos. Sem falar num outro fato: muito se lê nos celulares. Pontuo, também, que a cultura brasileira é tributária da combinação entre as tradições oralizada e escrita da palavra.
Que conexões podemos encontrar (e estimular) entre essas modalidades? Encarar a questão por tal ótica corresponde a não nos rendermos ao estigma simplista do analfabetismo funcional. Há que se promover um ecossistema pluralizado de fontes de leitura, incrementando os vasos comunicantes entre elas.
Se a leitura – com a variedade de seus contextos, objetos e leitores – é formadora das subjetividades e enriquecedora de nossos repertórios, então precisamos nos engajar para ampliar suas condições de possibilidade, que são múltiplas. Como gestor, tenho encorajado o desenvolvimento de ações que expandem o escopo da tríade “livro, leitura e literatura”, articulando-a às vivências das pessoas.
Considero, com base em minha experiência profissional, que um modo alvissareiro de alcançar esse objetivo seja pela conjugação de iniciativas diversificadas. Refiro-me a ações permeáveis às experiências de vida como elas de fato se dão – territorializadas, midiatizadas, oralizadas e escritas –, com a palavra servindo como elo de conexão social e enquanto meio de reencantamento da rotina.
Evoco, para dar concretude a meus argumentos, o exemplo das bibliotecas. Esse tipo de equipamento deve ser concebido, estruturado e administrado de maneira igualmente ecossistêmica. Isso envolve contemplar, no mínimo, dois critérios básicos: um referente ao alcance geográfico e outro relativo ao perfil programático.
A primeira preocupação recomenda que as bibliotecas fixas, desejavelmente situadas em entroncamentos urbanos aptos a atrair gente de diferentes localidades, sejam complementadas por seus análogos móveis, que sirvam de satélites capazes de chegar a territórios deslocados de intersecções viárias mais abrangentes.
Ao critério espacial, devemos somar a sua programação, que necessita ser permeável e dinâmica. Para fazer valer a polissemia do ato de ler, incentivando-o no cotidiano das pessoas, tanto as bibliotecas instaladas quanto as volantes podem incorporar perfil camaleônico, ao se deixarem moldar por características próprias da paisagem humana e do ambiente em que se encontram.
A essas combinações se agregam, ainda, as bibliotecas comunitárias, resultantes da capacidade de organização de agentes locais, e que se fortalecem quando contam com apoios dos entes públicos e privados.
Se, de um lado, uma compreensão purista da leitura é pouco promissora para a realidade brasileira, pois não chega a dar conta da sua complexidade, de outro, sustentar essa prática como algo pleno de matizes e de transversalidades pressupõe incrementar as conexões entre suas modalidades – e nisso, a facilitação do acesso à cultura do livro tem papel essencial.
