A Infidelidade Que Mais Dói

Sobre assumir a própria falha e descobrir quem se é depois dela

Falo da dor de não ter sido fiel a quem eu sei que sou

Falo da dor de não ter sido fiel a quem eu sei que sou | Johannes Plenio/Pexels

Existe um tipo de dor que não nasce da rejeição. Não nasce do abandono. Não nasce da perda. Ela nasce quando você se trai.

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Passei a vida inteira entendendo a dor de ser ferida. Sempre houve um outro. Um gesto mal colocado. Uma palavra atravessada. Uma ausência injustificável. Havia algo externo a apontar, algo que explicava a ruptura.

Mas ninguém me preparou para o dia em que eu seria a responsável por ela.

Não falo apenas da dor de ter magoado alguém, embora isso também doa. Falo da dor de não ter sido fiel a quem eu sei que sou.

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Há algo devastador em perceber que você agiu abaixo dos próprios princípios. Que uma atitude impensada arranhou uma versão sua que levou anos para ser construída. A dor não está só na consequência do que aconteceu, mas na consciência de que você poderia ter sido maior.

E isso me feriu profundamente porque, por alguns minutos, não fui a mulher que prometi a mim mesma ser.
E essa é uma forma silenciosa de infidelidade.

Falamos muito sobre trair o outro. Quase nunca falamos sobre trair a própria consciência. Sobre aquela fratura interna que não aparece para ninguém, mas que ecoa no silêncio da madrugada.

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É olhar para o espelho e perguntar quando foi que você deixou de se honrar.
Errar é humano. Mas quando o erro fere quem você é, ele não machuca apenas a imagem que o outro tem de você.

Ele machuca a imagem que você tem de si. E talvez seja por isso que seja tão difícil saber o que dizer depois. Pedir desculpas é possível.

Reconstruir o diálogo é possível. Mas como se pede perdão à própria essência?

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Talvez o perdão comece quando paramos de fugir da dor que o erro revela. Quando aceitamos olhar para ela sem defesas, sem justificativas, sem máscaras.

O poeta Rumi escreveu que a ferida é o lugar por onde a luz entra. Talvez a consciência doa porque ilumina. Talvez a lucidez seja o primeiro passo da reconstrução.

Se você já viveu algo assim, sabe do que falo. Sabe da sensação de ter atravessado uma linha invisível e do desejo quase urgente de voltar a ser quem você era antes de cruzá-la.

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A maturidade não está em nunca falhar. Está em não permitir que uma falha se transforme na sua identidade. Está em sustentar a própria responsabilidade sem se destruir.

Eu errei. E isso me atravessou.

Mas talvez a dor que sinto agora seja a prova de que meus valores ainda estão vivos. A indiferença seria muito mais perigosa. A consciência, ainda que dolorosa, é sinal de que não me perdi por completo.

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O erro não define quem eu sou. A forma como escolho agir depois dele, sim. Se a ferida abriu algo em mim, que seja lucidez.

Se houve ruptura, que haja reconstrução. Porque às vezes a luz só entra onde antes houve corte.