Existe algo profundamente errado em uma sociedade na qual a notícia de uma morte mal foi confirmada e, antes que a família consiga compreender o que aconteceu, alguém já escolheu a música triste, a fotografia de capa e a lição que pretende extrair daquela tragédia.
Nos últimos dias, acompanhando a repercussão de um acontecimento que mobilizou o País, senti tristeza, como tantas pessoas sentiram. Mas confesso que, em determinado momento, o que passou a me incomodar não foi apenas a tragédia. Foi aquilo que fizemos com ela.
Vidas foram interrompidas. Famílias receberam uma notícia capaz de dividir suas histórias entre antes e depois. Ainda assim, rapidamente surgiu uma espécie de hierarquia algorítmica da dor: algumas vítimas ganharam nome, rosto e alcance; outras foram reduzidas à expressão “mais algumas pessoas”. A tragédia deixou de ser apenas uma perda humana e passou a disputar espaço no mercado da atenção.
E isso não é apenas uma impressão pessoal. Em 2021, um estudo publicado na revista científica PNAS acompanhou as menções a 2.362 figuras públicas nas notícias e no Twitter durante um ano antes e um ano depois de suas mortes. Os pesquisadores identificaram um padrão claro: a morte produz um pico abrupto de atenção, seguido por uma queda igualmente rápida. Os maiores aumentos de visibilidade aconteceram quando a morte era precoce e não natural.
Em outras palavras, a ciência conseguiu medir aquilo que nossos feeds demonstram diariamente: a tragédia cria um auge de interesse e, pouco tempo depois, perde seu valor de novidade. Por alguns dias, a pessoa está em todos os lugares. Depois, desaparece novamente, deixando para as famílias uma dor que não obedece ao ciclo de interesse do público.
Também sabemos que nem todo conteúdo circula da mesma forma. Em um estudo com quase 7 mil matérias publicadas pelo The New York Times, os pesquisadores Jonah Berger e Katherine Milkman descobriram que conteúdos capazes de provocar emoções de alta intensidade, como ansiedade e raiva, apresentavam maior probabilidade de compartilhamento. A tristeza, sozinha, tendia a circular menos.
Isso ajuda a explicar por que uma homenagem serena frequentemente perde espaço para o vídeo dramático, a revelação íntima, a especulação e a frase que provoca choque. O ambiente digital não necessariamente premia aquilo que é mais respeitoso. Ele favorece aquilo que ativa emocionalmente quem está diante da tela.
Existe ainda outro mecanismo. Em 2021, uma pesquisa publicada na Science Advances analisou 12,7 milhões de publicações de 7.331 usuários e realizou experimentos com outros 240 participantes. O objeto daquele estudo não era o luto, mas a indignação moral. Ainda assim, a descoberta é reveladora: quando uma manifestação recebia mais aprovação, curtidas e compartilhamentos, aumentava a probabilidade de a pessoa repetir aquele tipo de manifestação no futuro.
Isso não prova que toda homenagem seja oportunista. Prova algo talvez mais incômodo: as plataformas conseguem nos ensinar, por recompensa, quais emoções devemos voltar a exibir. Se uma publicação dramática sobre a morte de alguém gera atenção, seguidores e reconhecimento, o cérebro registra o retorno. Aos poucos, o que deveria ser uma experiência humana corre o risco de se transformar também em um comportamento treinado pelo engajamento.
Uma pesquisa publicada em 2022 no Journal of Technology in Behavioral Science foi ainda mais direta. Ao entrevistar jovens adultos sobre suas motivações para publicar o próprio luto, os pesquisadores encontraram quatro temas recorrentes: influência e pressão social, necessidade de anunciar a morte, benefícios pessoais e uma espécie de hipocrisia do luto digital os participantes consideravam suas próprias publicações sinceras, mas desconfiavam das intenções das outras pessoas.
Era um estudo qualitativo e pequeno, com 14 participantes, portanto não serve para condenar uma geração inteira. Mas nomeia perfeitamente a tensão que todos reconhecemos: publicamos para expressar a dor, mas também porque sentimos que precisamos publicar; buscamos acolhimento, mas simultaneamente julgamos quem parece estar usando a perda para chamar atenção.
Quero deixar algo muito claro: nem toda homenagem pública é oportunismo. Uma revisão publicada em 2025, depois de examinar 61 estudos sobre redes sociais e luto, mostrou que esses ambientes também podem servir para pedir ajuda, preservar vínculos com quem morreu, construir memoriais, encontrar comunidade e expressar emoções. Há pessoas verdadeiramente devastadas que encontram na escrita ou na publicação de uma fotografia a única forma possível de organizar o que estão sentindo.
O problema não está em publicar. O problema começa quando a homenagem fala muito mais sobre quem publica do que sobre quem morreu. Quando a fotografia serve para comprovar importância. Quando uma conversa íntima é exposta sem necessidade. Quando a proximidade com a pessoa que partiu se transforma em prova social póstuma. Quando a morte valida um método, fortalece uma marca ou vira gancho para um conteúdo cuidadosamente construído para performar sensibilidade.
A linha que separa homenagem de apropriação não está entre o público e o privado; está na intenção, no cuidado e em quem ocupa o centro da história.
Antes, a morte impunha uma pausa. Hoje, a notificação eliminou esse intervalo. A mesma mão que recebe a notícia abre a câmera, escolhe a imagem e publica. Fomos treinados a acreditar que tudo precisa ser transformado em conteúdo enquanto o assunto ainda está “quente”. Até o luto ganhou senso de urgência.
Se alguém demora a se manifestar, perguntam por que ficou em silêncio. Se não publica, interpretam como indiferença. Com isso, até quem está sofrendo de verdade pode se sentir obrigado a provar publicamente a própria dor. O ambiente digital não apenas comercializou o luto; ele também constrangeu quem sofre a performá-lo.
Talvez isso ajude a explicar a sensação coletiva de peso que tantas pessoas sentiram nos últimos dias. Pessoas mais cansadas, inquietas, ansiosas, emotivas ou estranhamente silenciosas. Se você prefere chamar isso de energia, atmosfera emocional ou resposta do sistema nervoso, o nome pouco importa: a exposição contínua a uma tragédia tem efeitos reais.
Um estudo longitudinal publicado na Science Advances acompanhou 4.165 pessoas durante três anos e encontrou um ciclo preocupante: maior exposição midiática a acontecimentos traumáticos previa mais sintomas de estresse posteriormente; esse sofrimento, por sua vez, estimulava o consumo de ainda mais conteúdo sobre novas tragédias, alimentando outra vez a angústia. Não apenas assistimos à dor. Podemos entrar em um ciclo no qual o sofrimento nos leva a consumir mais sofrimento.
Uma morte súbita também rompe a fantasia silenciosa de que o amanhã está garantido. Sem perceber, começamos a nos perguntar: e se fosse comigo? E se fosse alguém que amo? O que deixei para depois? Com quem ainda preciso conversar? Uma tragédia pública reabre perdas antigas, ativa medos e nos coloca diante da fragilidade que passamos grande parte da vida tentando esquecer. Isso não nos torna íntimos de quem morreu. Apenas nos lembra de que somos humanos.
Por isso, talvez precisemos recuperar uma pergunta muito simples antes de publicar qualquer coisa sobre a morte de alguém: isto acolhe quem ficou ou apenas me coloca no centro da conversa? Eu publicaria se ninguém pudesse ver meu nome, contar minhas visualizações ou saber que conheci aquela pessoa? Esta informação foi confirmada? A família gostaria de encontrá-la circulando? Isso realmente precisa ser dito agora?
Há muitas formas de demonstrar amor que não geram alcance. Mandar uma mensagem privada. Levar comida. Resolver uma tarefa. Proteger a família de perguntas. Fazer uma oração. Respeitar o tempo. Não publicar uma fotografia que não nos pertence. Não compartilhar uma informação apenas porque queremos ser os primeiros. A compaixão mais verdadeira muitas vezes acontece sem plateia.
As pessoas que partiram não precisam ser convertidas em personagens de uma narrativa conveniente. Antes de serem nomes em uma manchete, eram esperadas em algum lugar. Tinham conversas inacabadas, famílias, amigos, planos e lugares ocupados à mesa. Quem ficou terá de aprender a conviver com as cadeiras vazias muito depois de o assunto desaparecer dos nossos feeds.
Talvez a humanidade não esteja perdida, mas esteja sendo diariamente colocada para competir com a nossa necessidade de aparecer. E, sempre que transformamos a dor de alguém em oportunidade de alcance, deixamos o algoritmo vencer.
A morte já interrompeu vidas demais. Que a nossa fome por atenção não retire dos que ficaram também o direito ao silêncio, à intimidade e à dignidade do luto.
