Muito mais que um maiô e uma virilha

Show "O Último Voo da Nave" reuniu 50 mil pessoas em São Paulo e mostrou que o maior legado de Xuxa está na memória afetiva de gerações

Nas últimas semanas, vi parte da discussão sobre o espetáculo ser reduzida ao corte do maiô, à virilha aparente ou aos figurinos inspirados nos anos 1980. Foto: Tom Zé/AgNews

Há espetáculos que são medidos pelo tamanho do palco, pela tecnologia empregada ou pelo número de ingressos vendidos. Outros são medidos pela quantidade de memórias que conseguem despertar. “O Último Voo da Nave”, que reuniu cerca de 50 mil pessoas em São Paulo, pertence à segunda categoria. Eu saí do estádio convencido de que aquele encontro jamais foi apenas um show. Foi um retrato afetivo de várias gerações.

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Nas últimas semanas, vi parte da discussão sobre o espetáculo ser reduzida ao corte do maiô, à virilha aparente ou aos figurinos inspirados nos anos 1980. Sinceramente, achei um desperdício.

Quando uma artista com mais de quatro décadas de carreira consegue mobilizar dezenas de milhares de pessoas, talvez a pergunta mais importante não seja o tamanho do maiô, mas o tamanho do legado.

Xuxa representa um dos fenômenos culturais mais relevantes da história recente do Brasil. Muito antes de temas como diversidade, respeito às diferenças, preservação da natureza, proteção aos animais, combate à violência e cidadania ocuparem espaço frequente no debate público, ela já os levava diariamente para milhões de lares brasileiros por meio de uma linguagem acessível, afetiva e voltada às crianças. Ela ajudou a formar valores de uma geração inteira.

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Hoje, aos 63 anos, dona de uma aparência admirável e de uma presença de palco impressionante, continua despertando paixões, críticas e debates. Isso acontece porque figuras realmente relevantes nunca passam despercebidas.

Enquanto alguns insistem em discutir um figurino, outros enxergam a dimensão humana de uma mulher que marcou profundamente suas vidas.

Durante e depois do espetáculo, li dezenas de relatos nas redes sociais. Jovens que, quando crianças, eram considerados “diferentes”. Que sofriam bullying na escola, eram apontados nas ruas, não encontravam acolhimento dentro da própria família e sequer conseguiam entender quem eram.

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Todos descreviam uma sensação semelhante: bastava ligar a televisão e encontrar aquela apresentadora loira para sentir que existia um lugar seguro, onde ninguém era julgado e onde a felicidade parecia possível, mesmo que por algumas horas.

Esses depoimentos talvez expliquem melhor o sucesso do show do que qualquer análise técnica. Grande parte do público não estava ali apenas para reviver músicas ou coreografias da infância. Estava reencontrando uma fase da vida em que se sentia amada, protegida e compreendida. A nostalgia, nesse caso, não era sobre o passado. Era sobre o sentimento de pertencimento.

É impossível medir o impacto de uma personalidade como Xuxa apenas por números de audiência, discos vendidos ou ingressos esgotados. Seu maior patrimônio talvez seja invisível. Está na autoestima reconstruída de milhares de crianças. Está nos adultos que encontraram coragem para serem quem realmente eram. Está nas famílias que aprenderam valores importantes por meio de um programa infantil.

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Por isso, reduzir sua trajetória a um maiô cavado ou a um figurino inspirado nos anos 1980 me parece injusto e superficial. Xuxa é muito maior do que qualquer roupa que tenha vestido.

Ela se tornou um símbolo de acolhimento, de afeto e de transformação para milhões de brasileiros.

Talvez nem ela tenha a real dimensão da própria importância.

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Alguns artistas fazem sucesso. Outros entram para a história. Pouquíssimos conseguem ocupar um espaço permanente na memória afetiva de um país inteiro.

Xuxa é uma dessas raras pessoas. E isso vale infinitamente mais do que qualquer discussão sobre um maiô ou uma virilha.