O fascínio dos brasileiros por reality show e pelas vilãs

Os reality shows ocupam um espaço privilegiado na televisão brasileira há décadas

Adriana Esteves deu vida a personagem Carminha, considerada uma das vilãs mais icônicas das novelas brasileiras

Adriana Esteves deu vida a personagem Carminha, considerada uma das vilãs mais icônicas das novelas brasileiras | Reprodução/Rede Globo

Os reality shows ocupam um espaço privilegiado na televisão brasileira há décadas. Mais do que entretenimento, funcionam como um grande espelho social, no qual o público se reconhece, se projeta e, principalmente, julga. O sucesso desse formato no Brasil passa pela combinação de emoção, conflito e identificação. O telespectador não assiste apenas para saber quem vence, mas para acompanhar trajetórias, embates morais e reviravoltas que lembram a vida real, só que condensadas em episódios diários.

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Nas telenovelas, a figura da vilã sempre teve papel central na cultura televisiva brasileira. Personagens como Nazaré Tedesco, eternizada por Renata Sorrah em Senhora do Destino; Carminha, vivida por Adriana Esteves em Avenida Brasil; Flora, interpretada por Patrícia Pillar em A Favorita; e Maria de Fátima, de Glória Pires em Vale Tudo, marcaram época. Elas eram cruéis, manipuladoras e, ao mesmo tempo, fascinantes. Muitas vezes, roubavam a cena das protagonistas e se tornavam assunto nacional. Agora, quem brilha e chama a atenção dos telespectadores é Arminda, personagem vivida por Grazi Massafera em Três Graças.

Essa herança migrou com força para os reality shows. No Big Brother Brasil, vilãs e vilões se transformaram em personagens centrais da narrativa. Participantes como Karol Conká, que protagonizou uma das maiores rejeições da história do programa; Jade Picon, frequentemente apontada como fria e calculista; e, agora, Ana Paula Renault, dividem o público, geram debates intensos e conquistam parte da audiência. Mesmo rejeitados, esses participantes raramente são esquecidos. Pelo contrário, ajudam a impulsionar audiência e engajamento.

O brasileiro gosta de torcer, mas também gosta de criticar, de se indignar e de discutir comportamentos. A vilã entrega tudo isso. Ela quebra regras sociais, desafia consensos e expõe contradições. Em muitos casos, diz o que parte do público pensa, mas não teria coragem de assumir em voz alta. Por isso, mesmo quando são alvo de ódio, essas figuras despertam curiosidade e mantêm o público ligado.

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Há ainda o prazer do julgamento coletivo. Reality show é conversa diária, pauta nas redes sociais, no trabalho e na família. As vilãs são o combustível desse debate, porque polarizam opiniões. Poucos ficam neutros diante delas. Ou se rejeita com veemência, ou se defende com intensidade. Essa divisão sustenta o formato e reforça o sentimento de participação do espectador.

No fim das contas, a paixão do brasileiro por reality shows e por vilãs revela muito sobre nossa relação com o drama, o conflito e a emoção. Gostamos de histórias fortes, personagens extremos e narrativas que nos permitam observar, julgar e refletir sobre o comportamento humano. Mesmo quando dizemos que não gostamos, seguimos assistindo. Porque, no fundo, são essas vilãs que transformam programas em fenômenos culturais e personagens em figuras inesquecíveis.