Que tipo de paternidade queremos celebrar?

Reflexão sobre infância, saúde mental e o papel dos adultos na construção de uma paternidade mais presente e protetora

Neste mês em que celebramos Dia dos Pais, talvez a pergunta mais importante não seja qual presente comprar, nem onde almoçar em família. Foto: Magnific

Neste mês em que celebramos Dia dos Pais, talvez a pergunta mais importante não seja qual presente comprar, nem onde almoçar em família. Talvez seja outra, muito mais desconfortável: que tipo de paternidade estamos, como sociedade, aprendendo a celebrar?

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A pergunta me atravessou nos últimos dias. Como mãe e psicóloga dedicada ao impacto social, acompanhei com profunda inquietação o caso do pequeno Gustavo, de apenas três anos. Horas antes de ser levado para passar o fim de semana com o pai, o menino chorava e dizia, em voz baixa, que não queria ir. Ao ser questionado sobre o motivo, respondeu: “Porque ele me bate.”

Poucos dias depois, o país inteiro assistia, consternado, ao desfecho daquela história. Mas a tragédia não terminou ali. Em poucas horas, milhares de opiniões voltavam-se para a mãe.

Como se, diante da dor, nossa primeira necessidade fosse encontrar um culpado, e não refletir sobre o sistema que continua produzindo histórias como essa. Talvez esse seja um dos maiores sintomas da nossa sociedade. Julgamos rápido demais. Escutamos de menos.

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Enquanto isso, a voz mais importante continua sendo a menos ouvida: a da criança. Passamos gerações ensinando nossos filhos a obedecer aos adultos.

Talvez tenha chegado o momento de ensinar os adultos a escutarem seus filhos. Porque uma sociedade que desconfia da palavra de uma criança dificilmente conseguirá protegê-la.

Durante décadas, confundimos violência com educação. Quantas vezes ouvimos que “uma palmada educa”, que “criança faz manha”, que “isso passa”. Naturalizamos o medo como ferramenta de disciplina e confundimos autoridade com imposição.

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Mas a infância não pode continuar sendo interpretada pelos olhos de um passado que já não se sustenta. Hoje sabemos muito mais sobre desenvolvimento infantil, trauma e saúde mental do que sabíamos há algumas décadas. Ainda assim, seguimos relativizando falas, minimizando sinais e tratando o sofrimento infantil como algo pequeno demais para merecer nossa atenção.

Vivemos um tempo em que o medo parece ocupar o lugar da sensibilidade. O medo de processos. O medo de errar. O medo de contrariar protocolos. O medo da exposição pública. E, quando o medo passa a orientar decisões, o cuidado deixa de ocupar o centro delas.

É por esse motivo que toda essa triste narrativa não é apenas um debate sobre uma família. É uma discussão que diz respeito ao modelo de sociedade que estamos construindo. A saúde mental de crianças não pode continuar sendo tratada como um problema privado, restrito às paredes de uma casa.

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Ela é uma questão social. Educacional. Institucional. E, inevitavelmente, política, porque depende das escolhas que fazemos como sociedade para proteger quem ainda não consegue se proteger sozinho.

Neste Dia dos Pais, talvez devêssemos celebrar menos a autoridade e mais a presença. Menos o medo e mais a confiança. Menos a obediência silenciosa e mais a coragem de uma criança que sabe que pode dizer o que sente sem receio de não ser acreditada.

Porque um bom pai não é aquele cuja voz é a mais alta dentro de casa. É aquele diante de quem um filho nunca precisa ter medo de dizer a verdade.

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Talvez essa seja a verdadeira reflexão deste Dia dos Pais: estamos formando crianças para obedecer aos adultos… ou adultos capazes de escutar as crianças?