Quem você precisou deixar de ser para chegar até aqui?

Sucesso pode exigir que você abandone partes de quem é; reflita sobre autenticidade, liderança e o preço de chegar até aqui

Ao longo dos anos, observando diferentes culturas organizacionais, percebi que os esforços para cabermos em padrões podem custar caro demais. Foto: Freestocker/Magnific

Há perguntas que quase ninguém faz. Talvez porque algumas respostas sejam caras demais. Durante séculos, repetimos o convite atribuído à filosofia grega: conhece-te a ti mesmo, mas desconfio que o nosso tempo exige uma pergunta anterior. Quem você deixou de ser para chegar até aqui?

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Vivemos uma época que celebra resultados, patrimônio, influência e poder. Aprendemos a admirar quem chega primeiro, quem suporta mais pressão, quem nunca demonstra fraqueza, mas quase nunca perguntamos o que ficou pelo caminho.

E talvez essa seja a pergunta que deveria ocupar não apenas os consultórios, mas também as salas de reunião, os conselhos de administração e as mesas onde se decidem os rumos das empresas. Quanto de nós foi sendo negociado para que o sucesso acontecesse?

Ao longo dos anos, observando diferentes culturas organizacionais, percebi que os esforços para cabermos em padrões podem custar caro demais.

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Parece haver pouco espaço para quem alcançou lugares de poder preservando a própria autenticidade. Como se a sensibilidade diminuísse a autoridade.

Como se a vulnerabilidade enfraquecesse a liderança. Como se ser verdadeiro fosse incompatível com ser bem-sucedido. Estaríamos, então, condenados a um sucesso mal-sucedido?

Para sobreviver, aprendemos a interpretar papéis. Vestimos personagens. Adaptamo-nos. Dizemos o que esperam de nós. Escondemos aquilo que ameaça nossa aceitação. E, pouco a pouco, confundimos pertencimento com identidade.

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A máscara social não é o problema. Ela faz parte da vida. Todos nós, em algum momento, precisamos dela.

O perigo começa quando deixamos de perceber onde termina a máscara e onde começamos nós. Talvez seja por isso que tantas pessoas conquistem exatamente a vida que desejaram e, ainda assim, carreguem um vazio impossível de explicar.

Não é a falta que dói. É o desencontro. Entre quem somos e quem aprendemos a representar. Entre Larissas e Anittas, entre nomes, cargos, títulos e personagens, poucos têm coragem de admitir, ou sequer de sentir, a saudade de quem um dia foram. Talvez esse seja o luto mais silencioso do nosso tempo. O luto de si mesmo.

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Enquanto isso, seguimos alimentando um modelo de sucesso sustentado pela comparação. As redes sociais amplificam referências que quase sempre são superficiais.

O mundo corporativo continua premiando, muitas vezes, a performance antes da presença. E nós vamos nos convencendo de que parecer basta.  Mas, o corpo costuma discordar, e aquilo que a consciência racionaliza, ele transforma em exaustão. Aquilo que insistimos em calar, ele encontra outra forma de dizer. Não porque nos pune, mas porque tenta nos devolver a nós mesmos.

Talvez olhar para dentro nunca tenha sido um gesto romântico. Talvez seja o ato mais radical que um líder possa fazer em uma cultura que recompensa personagens e negligencia pessoas.

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A verdadeira coragem talvez não esteja em conquistar mais um cargo, mais um patrimônio ou mais reconhecimento. Talvez esteja em preservar quem fez a viagem enquanto o mundo aplaude quem chegou.

Por isso, antes da próxima promoção, da próxima meta ou da próxima conquista, talvez exista apenas uma pergunta que mereça ser respondida. Quem você deixou de ser para chegar até aqui? E, se a resposta doer, talvez ela não seja o fim da história. Talvez seja, finalmente, o começo do caminho de volta.