Existem assuntos que preferimos evitar. São sujos demais para serem ditos em voz alta. Feios demais para ocupar os palcos. Incômodos demais para interromper um jantar em família ou atravessar uma conversa entre amigos. Talvez por isso seja mais fácil acreditar que eles acontecem sempre longe de nós.
O que não é belo incomoda os olhos, e aquilo que incomoda costuma ser empurrado para um silêncio confortável, distante o suficiente para que não precise ser escutado. Mas é justamente nesse silêncio que o mal encontra espaço para crescer.
O tráfico de pessoas é uma realidade que insiste em permanecer invisível aos olhos do mundo. E talvez sua maior perversidade seja justamente esta: o “não saber”. Já não começa, necessariamente, em fronteiras clandestinas ou becos escuros. Começa onde nos sentimos seguros. Na intimidade de uma tela.
Na promessa cuidadosamente construída de um futuro melhor. Antes da violência explícita, quase sempre existe a confiança. Antes do cárcere, alguém ofereceu acolhimento, escutou vulnerabilidades e, silenciosamente, apropriou-se da vida de outra pessoa.
Há algum tempo, durante uma ação voluntária, ouvi de uma criança que não via a irmã havia anos porque ela havia sido levada pelo “moço velho”. O que mais me marcou não foi apenas a ausência da irmã, mas a serenidade com que aquela perda era narrada. Como se o inconcebível tivesse se tornado parte da vida.
Como se aquilo que deveria ser gritado aos quatro ventos tivesse sido silenciado pela conformidade de uma história única. Naquele instante, compreendi que algumas tragédias persistem porque perdemos, pouco a pouco, a capacidade de enxergar o que nos constrange e de escutar aquilo que nos dói.
E foi justamente para dar voz a essa realidade que a campanha Vozes pela Liberdade, da The Exodus Road, voltou a mobilizar artistas, comunicadores e influenciadores em todo o país.
Neste ano, nos dias 29 e 30 de julho — quando se celebra o Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas —, o alerta é claro: a liberdade também precisa ser digital, porque as formas de aliciamento mudaram e a nossa forma de proteger também precisa ser diferente.
A comunicação sempre será uma das mais poderosas formas de despertar a humanidade, sobretudo quando nasce de corações que compreendem que existem gritos silenciosos esperando por vozes dispostas a ecoá-los.
A informação protege. Ela pode impedir que outras pessoas sejam seduzidas por falsas oportunidades de emprego, salários irresistíveis ou promessas de uma vida melhor. Promessas que, muitas vezes, escondem trabalho análogo à escravidão, exploração sexual e outras formas de violência contra a dignidade humana.
Hoje, esse problema ainda parece distante para muitos de nós. Mas a história mostra que nenhuma tragédia permanece confinada quando escolhemos ignorá-la. Se não assumirmos a responsabilidade que nos cabe, ela continuará avançando até alcançar, inevitavelmente, aqueles que mais amamos.
Por isso, enfrentar o tráfico de pessoas não pode ser uma responsabilidade exclusiva das autoridades ou das organizações que atuam na linha de frente. Trata-se de um compromisso coletivo.
Um debate que pertence às famílias, chamadas a fortalecer o diálogo com seus filhos; às escolas, responsáveis por educar para os desafios do ambiente digital; às empresas, que devem assumir um papel ativo na prevenção e no combate às diferentes formas de exploração humana; e aos governos, cuja obrigação é transformar informação em políticas públicas efetivas.
Acima de tudo, pertence a cada um de nós, que já não podemos nos permitir a omissão.
Somente assim será possível impedir que essa realidade continue a se multiplicar. Para que homens e mulheres tenham assegurado o direito ao trabalho digno. Para que nenhuma mulher tenha seu corpo transformado em mercadoria. Para que toda criança possa viver plenamente a própria infância.
Afinal, pessoas não são mercadorias. E nenhuma criança deveria ter a infância roubada, em nenhuma circunstância.
As crianças de Deus não estão à venda. E enquanto houver qualquer uma delas, mulher ou homem submetido a qualquer forma de exploração, este continuará sendo um tema que precisa ocupar os jornais, as escolas, as empresas, as famílias e todos os espaços em que ainda exista coragem para enxergar, escutar e agir.
Porque algumas causas não precisam apenas de campanhas. Precisam de pessoas corajosas o suficiente para emprestar a própria voz a quem foi silenciado e o próprio olhar àquilo que insistimos em não ver.
