Açúcar vicia o cérebro como cocaína, será?

Vício em açúcar existe de verdade? Entenda o que a ciência diz sobre dopamina, vontade de doce, glicemia e dependência de açúcar

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O açúcar ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, o mesmo circuito neuroquímico acionado por drogas de abuso. Foto: Pexels

Você já deve ter visto essa frase circular por aí, açúcar ativa o cérebro do mesmo jeito que droga pesada. Alguém falou, muitos outros concordaram, afinal: “é verdade, comigo é assim mesmo”, e a frase ganha peso de fato científico só de tanto ser repetida.

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Agora pensa numa cena comum, são 17h, o dia de trabalho está terminando, e a vontade de um doce aparece do nada, quase impossível de ignorar, para muita gente essa sensação é tão forte que parece realmente um gatilho de vício, e é exatamente esse tipo de experiência que dá força à comparação com drogas.

O açúcar ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, o mesmo circuito neuroquímico acionado por drogas de abuso.

Um estudo sobre o tema, publicado no European Journal of Nutrition, mostra que animais expostos a açúcar de forma intermitente, não o tempo todo, mas em ciclos de acesso e restrição, desenvolvem padrões parecidos com busca compulsiva e tolerância, semelhantes ao que se vê com substâncias aditivas.

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Só que aqui já está o primeiro problema da comparação, esse padrão aparece no ciclo de restrição e liberação, não simplesmente por comer açúcar.

O segundo problema é pegar um achado de laboratório com ratos e aplicar em humanos. A mesma revisão que descreveu esses achados em animais concluiu, ao olhar a literatura em humanos que há pouca evidência de dependência de açúcar em humanos nos moldes clínicos de uma adição real.

Então por que a vontade de doce, para muita gente, parece tão difícil de resistir quanto um vício de verdade? Para boa parte das pessoas, a explicação mais provável não está na dopamina, está no que aconteceu com a glicemia horas antes.

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Um doce ou refrigerante de absorção rápida gera um pico seguido de queda de glicemia algumas horas depois, essa queda pode ser interpretada pelo corpo como sinal de necessidade urgente de energia, reacendendo a vontade, um padrão que se repete ao longo do dia e se parece com compulsão, mas nasce de oscilação metabólica, não de dependência química.
Cumpre ressaltar que a intensidade dessa resposta varia de pessoa para pessoa, mas o mecanismo em si é bem descrito na fisiologia.

Tratar essa vontade fisiológica como vício, empurra para restrição total e força de vontade, uma lógica que gera mais recaída. Tratar como instabilidade glicêmica te faz entender que a questão não é resistir a vontade de doce, mas entender o que comeu (ou deixou de comer) no almoço para chegar às 17h com a glicemia despencando.

Não existe vício nenhum ali, existe um corpo cobrando, mais tarde, o que faltou horas antes.