Em maio de 1973, a gravadora Phonogram criou o festival Phono 73. Idealizado por André Midani, o evento reuniu grandes nomes da MPB: Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil e, claro, Caetano Veloso.
Caetano subiu ao lado de um nome que provocaria vaias da maior parte da plateia presente. Um homem de cabelos compridos que fazia sucesso entre as camadas mais populares. Entrava em cena Odair José, um dos maiores nomes do então chamado “brega”.
Caetano reprovou as vaias, criticando a platéia com a frase: “Nada mais Z do que um público classe A”, além de destacar que a sociedade daquela época ainda não havia entendido a mensagem de Odair José.
Cronistas da vida cotidiana, os artistas com rótulos de brega endereçaram suas músicas aos trabalhadores, prostitutas, amantes virulentos e a toda uma casta não abastada. Eram criticados pela direita, já que as músicas andavam em descompasso com o moralismo ditatorial que rondava o Brasil. E também eram criticados pela esquerda, já que a popularidade das canções afastou os universitários do prazer de ouvir o gênero.
Odair José, Diana, Fernando Mendes, Reginaldo Rossi, Kátia, Waldick Soriano, entre muitos outros, eram celebrados pelas rádios populares enquanto eram reduzidos ao ridículo por outros.
A maioria dos artistas citados negava o rótulo de brega. Diana, por exemplo, defendeu que sua obra era resultado da expressão mais pura do romantismo brasileiro. Já Odair José categorizou o rótulo como pejorativo, já que reduzia a atividade do músico ao “mau gosto”.
Reginaldo Rossi e Fernando Mendes, por sua vez, adotaram as vestimentas e a sonoridade definitiva ao final dos anos 70 e começo dos anos 80. Músicas que traçam histórias como “Garçom”, em que o eu lírico sofre um mal melancólico de amor. A temática é envolvida em metais, orquestras ao estilo anos 50 e vozes que gritam a angústia de um amor.
Em determinado ponto, o brega deixou de ser “música de corno” para se tornar fenômeno cult. Isso se deve ao papel dos pesquisadores musicais e à inserção do cotidiano como riqueza cultural.
O álbum “O Filho de José e Maria”, de Odair José, por exemplo, foi entendido finalmente como um fenômeno da expressão contestadora do compositor. Críticas ao modelo de sociedade, provocações à Igreja Católica e arranjos para lá de geniais fizeram o álbum ter a alcunha de “Obra à frente do tempo”.
Hoje, é possível acompanhar jovens da geração Z explorando avidamente esse fenômeno que devolveu a grandiosidade de cantores e intérpretes que não só eram uma expressão do amor brasileiro, como também cronistas de uma vida cotidiana que continua a se repetir até os dias de hoje.
