Rock cantado em português: Uma manifestação de amor à nossa cultura

Polêmica nas redes sociais suscita o debate sobre brasileiros cantarem em inglês

O baixinho era o gênio Tom Zé, que se sentiu desrespeitado pela equipe de som ao exigir que "falassem corretamente a língua francesa"

O baixinho era o gênio Tom Zé, que se sentiu desrespeitado pela equipe de som ao exigir que "falassem corretamente a língua francesa" | Reprodução

Durante uma passagem de som no Festival de Montreal, no Canadá, ouvem-se gritos, empurrões e brigas. Um baixinho empurra de forma ávida um dos responsáveis pelo evento e dispara ofensas a esmo. 

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O baixinho era o gênio Tom Zé, que se sentiu desrespeitado pela equipe de som ao exigir que “falassem corretamente a língua francesa”. Na ocasião, o membro fundamental da tropicália expressava seu descontentamento com a soberba dos responsáveis pelo evento e fincava no palco a bandeira pela valorização ao nosso modo de produzir e se expressar. 

Já no Festival de Jazz de Montreux, Elis Regina e Hermeto Pascoal arrancavam aplausos do público francês com a interpretação de “Asa Branca” de Luiz Gonzaga.

Após a performance, Elis disse em entrevista que o resultado da performance era graças ao “Orgulho lascado de ser brasileiro”, com o adicional de olhar nos olhos estrábicos de Hermeto e enxergar a cabeça “não colonizada”.

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Eventos como esse ajudam a entender a polêmica que surgiu após o vídeo da banda “Ginger And The Peppers”, que suscita o rock como sendo qualitativamente “melhor em português do que em inglês”.

Para entendermos, Ginger And The Peppers é uma banda de rock que tocou recentemente no palco do Lollapalooza após vencer um concurso. Com sonoridade que remonta ao rock dos anos 70 protagonizado por Deep Purple e Led Zeppelin, a banda envereda no território do insosso.

O que nos permite perguntar: “Só eu que acho que Led Zeppelin fica melhor à imitação de Led Zeppelin?”.

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Fazer rock em português não é tarefa fácil. O gênero tem origem entre guetos e cultos protestantes norte-americanos e parece ser feito sob medida para os yankees. Sister Rosetta louvava Deus com guitarras ao modismo do blues e Chuck Berry viajava entre crônicas do dia a dia e o “way of life” praieiro californiano.

Já no Brasil, nos anos 50, encontrávamos uma paixão dilacerante pela canção, pelo arranjo de cordas e pelo retrato do cotidiano. Vez com os sertanejos e seus arranjos de cordas radiofônicos, vez com o samba que nos dava identidade desde a melancolia até o estágio de uma felicidade quase que maníaca, vez com o baião de Gonzaga como retrato do povo e da cultura brasileira totalizante.

O ponto que quero chegar é: o Brasil é além do rock. Para se fazer rock no Brasil, é necessário saber canção e vocabulário. O nível de compreensão musical para se fazer rock no Brasil deve ser elevado ao potencial máximo. Os esquemas de rimas swingados devem dar espaço a uma métrica mais sintética, dura e encaixada.

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Nossa batida de violão sambista representada em Jorge Ben deve frear um pouco para caber em acordes mais simples e diretos. Parece até mesmo que o rock não cabe no Brasil. Mas a gente sempre dá o nosso jeitinho.

Para além de modismos dicotômicos, qualitativos e maniqueístas, a proposta do texto é postular o porquê de se fazer música em português. Sendo a resposta uma expressão que o próprio Tom Zé deu em entrevista.

“Nós queríamos fazer parte do mundo. E não ficar como uma coisa à parte do mundo, como um folclore do mundo. A gente meio que mastigava tudo e fazia uma digestão e quando fazia aquilo aparecer de novo era de outra maneira inteiramente diferente”.

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Em suma, fazer rock em português é uma manifestação de amor à história da nossa música, a história do nosso povo e a prova de que podemos nos adaptar e somar nossa arte ao mundo todo.