últimas notícias
Repórter da Terra
Nilson Regalado traz notícias do campo que influenciam diretamente a vida do consumidor da cidade.
[email protected]
Vista aérea da praia de Bertioga, no litoral de São Paulo
Vista aérea da praia de Bertioga, no litoral de São Paulo

Tu, leitor, conhece o uísque da Serra do Mar? O licor de Parelheiros? E o viagra caiçara?

Naqueles dias, o paraíso dos tupiniquins ia de Iguape a Bertioga e exalava o perfume suave da pitanga e da uvaia

Quando o enigmático português conhecido como Bacharel de Cananeia foi largado nas praias desertas onde São Paulo é quase Paraná, possivelmente em 1498, os carijós já conheciam o poder das folhas da cataya. Naqueles dias, o paraíso dos tupiniquins ia de Iguape a Bertioga e exalava o perfume suave da pitanga e da uvaia. E a ‘Terra sem Mal’ dos guaranis, a noroeste, guardava outros tesouros, como os sabores ancestrais do cambucy e do araçá. Cinquenta e poucos anos depois, os padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega se encantariam com esses pomares nativos, durante suas expedições pela Serra do Mar. Enquanto isso, no Engenho dos Erasmos, no coração da Ilha de São Vicente, negros trazidos de outros quadrantes do mundo descobriam, ao acaso, a ‘garapa atômica’, ‘aquela que matou o guarda’, ‘a água que passarinho não bebe’, compreende?

E toda essa gênese de ancestralidades e irreverências difusas forjada na Terra Brasilis pariu aperitivos capazes de agradar aos paladares mais exigentes. Nessa miscigenação, a cataya carijó se misturou à cachaça afrodescendente e, cinco séculos depois, essa alquimia continua sendo enredo das noites de fandango por toda Jureia, combustível das pescarias de manjuba no Mar de Dentro e companheira no dia a dia dos moradores de praias isoladas, de Peruíbe a Paranaguá.

Nos quilombos de Eldorado e Iporanga, a matéria-prima são os frutos de palmeiras como a juçara e o jerivá, que deram origem ao ‘viagra caiçara’. Além dos caiçaras, só poucos privilegiados desfrutam desses sabores exclusivos em pequenos botequins do Vale do Ribeira, especialmente em Cananeia.

Nos bairros de Parelheiros e Marsilac, onde São Paulo toca em Itanhaém, a herança deixada pelo povo Guarani M’Bya se misturou ao legado dos negros, dando origem a licores genuinamente paulistanos. Preservadas por guardiões do que restou de Mata Atlântica na Piratininga, frutas como a jabuticaba, o cambucá e a grumixama se fundem à cachaça, dando origem a uma profusão de aromas excitantes.

Mas, foi nas trilhas que levavam e traziam Anchieta, lá pelos lados de Paranapiacaba e Natividade da Serra, que mascates montados em mulas forjaram a obra-prima dessa coquetelaria genuinamente brasileira, meio caiçara, meio paulistana. Conhecido como ‘uísque tropeiro’ o licor de cachaça com cambucy é, definitivamente, a joia da coroa...

Em dezembro, alimente o corpo...

Neste mês, estão em plena safra e, portanto, com preços mais baixos o abacate, o abacaxi, a acerola, a ameixa, a amora, o caju, o figo, a jaca, o kiwi, a lichia, o limão taiti, a maçã fuji, o maracujá, as mangas, o melão amarelo, a nectarina, o pêssego, a physalis, a romã e as uvas.

...e decore a alma com flores!

Dezembro também tem abundância de colorido e perfume com a safra das rosas, agapantos, bicos de papagaio, dálias, helicônias, lisianthus, petúnias e tuias.

Filosofia do campo:

“Numa velha receita de bolo ou de doce há uma vida, uma capacidade de vir vencendo o tempo sem transigir às modas nem capitular ante as inovações”, Gilberto Freyre (1900/1987), sociólogo pernambucano.

Comentários

Tops da Gazeta