Covas defende concessões, ações no centro e zeladoria

Em entrevista à Gazeta, prefeito defende a concessão do Pacaembu e explica os investimentos em zeladoria e os projetos de requalificação do centro de SP Por Bruno Hoffmann De São Paulo

Bruno Covas (PSDB) está há um ano e quatro meses à frente da Prefeitura de São Paulo. O tucano assumiu a gestão municipal após a saída de João Doria (PSDB), que renunciou ao cargo para disputar as eleições ao governo do Estado. Com um estilo mais sóbrio e conciliador do que seu companheiro de partido, Covas tem se marcado por levar a frente um grande plano de requalificação do centro da Capital e por triplicar o orçamento da zeladoria na cidade, de R$ 500 milhões para R$ 1,5 bilhão. A sua gestão também pretende finalizar o programa de desestatização de vários bens públicos, como os complexos do Pacaembu, na zona sul, e o do Anhembi, na zona norte. Algumas dessas ambições, porém, enfrentam resistência de entidades da sociedade civil. Nesta entrevista exclusiva à Gazeta, o prefeito nascido em Santos há 39 anos explica as suas principais ações na Capital e a sua visão sobre o governo federal. “Anulei meu voto no segundo turno do ano passado”.

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Gazeta de S. Paulo – As obras de requalificação do Vale do Anhangabaú e do Largo do Arouche são contestadas por entidades de preservação do centro. O que acha disso?

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Bruno Covas – Que as pessoas estão mal informadas. Em relação ao Anhangabaú tiveram várias audiências públicas, além de todos os licenciamentos necessários. Esse é um processo que se iniciou ainda na gestão passada e quando assumimos a obra estava licitada, inclusive. Talvez as pessoas não tenham participado [das audiências públicas], mas não terem participado não significa que não houve. Nós apresentamos à Justiça cópia da lista de presença de um diretor da associação [Preserva SP, que entrou com uma liminar para interromper as obras no Anhangabaú] em que mostra que ele esteve presente na audiência pública. Já em relação ao Largo do Arouche todos os órgãos de proteção do patrimônio se manifestaram no processo. A prefeitura não inicia nada sem passar pelos órgãos de defesa do patrimônio, pelo licenciamento ambiental. A gente segue a lei.

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GSP – Como transformar a região central em tão pouco tempo, se levando em conta ainda a questão da segurança?

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BC – A requalificação no centro passa pelas pessoas investindo mais no ponto de vista privado, voltando a morar no centro. A ocupação do centro pela população também é um instrumento para melhorar a segurança. Quanto mais ermo um lugar é, mais aberto a problemas de segurança. O investimento no centro é um grande programa que agora devemos enviar à Câmara, que é a revisão do PIU [Projeto de Intervenção Urbana] central. A operação urbana aqui, como foi uma das primeiras, pagou o preço do seu ineditismo e acabou tendo muita dificuldade de implementação. Depois, o poder público foi aprendendo com isso, tanto que outras operações urbanas tiveram mais adesões da iniciativa privada, como o caso da Operação Urbana Faria Lima e da Água Espraiada. Dentro dessa grande ação há alguns investimentos que o poder público vem fazendo: o Hospital Pérola Byington, na Estação da Luz, a requalificação do Anhangabaú e do Largo do Arouche, e, agora, começar a requalificação pelo Programa Triângulo SP, que é a região entre a Boa Vista, Libero Badaró, Largo de São Francisco e Praça da Sé.

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GSP – Em relação a zeladoria, em abril o sr. disse que a prefeitura taparia 38 mil buracos em 40 dias. Essa ação foi realizada?

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BC – Sim, e antes dos 40 dias. No dia 7 de abril tínhamos 38 mil solicitações não atendidas pelo 156, e o prazo de 40 dias foi para atender a essas 38 mil solicitações. As equipes de zeladoria são orientadas e organizadas pelo sistema 156 e não pelo sabor dos ventos, pelo gosto do subprefeito ou do vereador do bairro. Em 36 dias zeramos aquele estoque. É claro que se tem novas demandas, mas agora nós estamos fazendo além das solicitações apresentadas. O prazo médio para se atender uma solicitação de tapa buraco no início da gestão era de 90 dias. Hoje é de 40 dias. Vamos chegar até o fim do ano com o prazo de 10 dias para atender uma solicitação de tapa buraco.

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GSP – Por que houve tantos problemas com buracos nas vias nos últimos anos?

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BC – Um grande motivo foi o fechamento da usina de asfalto no ano passado por conta de um TAC [Termo de Ajustamento de Conduta] assinado ainda na gestão [Gilberto] Kassab, e o prazo acabou nesta gestão. Para se fazer um tipo de contrato novo se tem uma rediscussão com o Tribunal de Contas. Uma coisa é o tribunal discutir um tipo de serviço que era relicitado. Outra é agora incluir um outro serviço, que é o refornecimento da massa asfáltica. Isso levou muito tempo com o Tribunal de Contas. Houve um período em que a cidade ficou praticamente sem massa asfáltica para poder fazer o serviço. Tinha também o fato de que até o ano passado havia R$ 500 milhões para equipes de zeladoria. Neste ano devemos chegar a R$ 1,5 bilhão. Agora temos massa asfáltica e mais equipes para fazer o trabalho.

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GSP – Como resolver a questão das enchentes na cidade?

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BC – Há ações pontuais, mas o que resolve mesmo é piscinão. O plano de macrodrenagem estabelece que a cidade deveria ter pelo menos 60 piscinões. Quando assumimos havia 24. Já entregamos três, e vamos entregar mais cinco, chegando a 32. Fizemos quatro vezes mais em dois anos o que a gestão passada fez em quatro. Mas para chegar em 60 ainda falta bastante. Então estamos modelando uma PPP [Parceria Público-Privado] de piscinão para passar a obrigatoriedade de manutenção dos atuais e de construir de 10 a 12 novos piscinões com recursos privados, e quem ganhar fica com o direito de construir e explorar um prédio comercial ou residencial em cima do piscinão pelos próximos 35 anos. A legislação municipal só permite a construção de equipamentos públicos em cima de piscinão. Então estamos solicitando à Câmara para que se altere a lei.

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GSP – Em relação às concessões, qual é a vantagem para a cidade perder o controle de bens como o Complexo do Pacaembu e o do Anhembi?

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BC – Em primeiro lugar, essa discussão foi vencida em 2016 quando o candidato João Doria prometeu que, se eleito, faria a desestatização do Pacaembu, de Interlagos e do Anhembi, e a população votou nesse plano de governo. De certa forma, está referendado pelo voto popular. E qual é a vantagem disso? A vantagem é poder focar recursos financeiros e humanos no que é o serviço essencial. Não tem sentido a prefeitura gastar energia com a limpeza de um estádio quando pode gastar com a manutenção de UBSs ou verificar se estão em dia os medicamentos ofertados à população. A iniciativa privada cuida de um estádio melhor do que o poder público. O Pacaembu custa R$ 9 milhões por ano para a prefeitura, não só para fazer a manutenção do estádio mas também com o clube [anexo ao estádio]. Não tem sentido a prefeitura gastar R$ 9 milhões num clube pra atender a população do Pacaembu. Tem que se gastar R$ 9 milhões em um clube em Sapopemba, no Grajaú, em Perus, não no Pacaembu. O Anhembi vai custar para a prefeitura nos próximos 30 anos R$ 2 bilhões. Se somar os R$ 2 bilhões mais o R$ 1 bilhão que é o preço mínimo que a prefeitura gostaria de ter cobrado no leilão, se fala de um ganho de R$ 3 bilhões. No Pacaembu, quando se soma o que a prefeitura vai deixar de gastar nos próximos 30 anos, o investimento que vai ser feito lá, a outorga fixa, a outorga variável e a cobrança de ISS, se fala de mais R$ 650 milhões de ganhos da cidade.

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GSP – O sr. sempre se mostrou distante do presidente do Jair Bolsonaro , enquanto algumas pessoas do seu partido já pareceram mais próximas. Por que não embarcou no clima polarizado que havia nas eleições do ano passado?

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BC – Eu apoiei o candidato Geraldo Alckmin no primeiro turno, e no segundo turno eu tinha duas opções: ou votar no Bolsonaro ou anular o voto. Não tinha sentido votar no PT, ainda mais tendo participado do processo de impeachment da presidente Dilma, e tendo visto tudo que o PT fez nos últimos 16 anos no País. Durante o segundo turno eu procurei algum posicionamento no Bolsonaro que me desse tranquilidade que ele fosse fazer um governo mais conciliador, e não encontrei. Percebi que o discurso dele no segundo turno foi um discurso em que ele continuava falando apenas para o povo dele, o povo da extrema direita. E, portanto, anulei meu voto no segundo turno do ano passado. Acho que de alguma forma o que eu senti no segundo turno é o que a gente percebe neste ano. Embora o presidente tenha dito em seu discurso de posse de que faria um governo conciliador, o que a gente vê é uma aposta do governo cada vez maior na divisão do País. A mesma aposta que o PT fez, dividir o País entre brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, católicos e evangélicos, norte e sul, trabalhador e empresário, é o mesmo tipo de divisão que a gente vê o atual governo fazer.

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GSP – Como o sr. avalia os oito primeiros meses do governo Bolsonaro?

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BC – Eu até acho que ele é uma pessoa bem intencionada. Não vejo nenhuma ação que indique que ele esteja lá para poder enriquecer. Mas acho que o governo não está sabendo aproveitar o bom momento, em especial para poder aprovar reformas. Até agora teve apenas uma que passou apenas na Câmara dos Deputados, não ainda no Senado Federal. Creio que o governo deveria ter aproveitado o clima que se apresentou no País de mudanças e já ter pautado outras reformas estruturais: reforma tributária, reforma política. Há outras reformas que poderiam ter avançado muito mais.

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GSP – O que achou do convite do PSDB ao deputado Alexandre Frota?

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BC – O convite partiu do governador João Doria, que tem uma relação pessoal com ele muito antes dos dois fazerem política. Se ele se compromete com o estatuto do PSDB, com os ideais do PSDB, não há nenhum problema em relação a isso.

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GSP – O sr. já se diz candidato à reeleição?

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BC – Não. Só trato de 2020 em 2020.