Em 3 de novembro de 1957, apenas um mês depois de a União Soviética lançar o Sputnik 1, primeiro satélite a orbitar a Terra, o programa espacial russo enviou o Sputnik 2, a primeira missão com um ser vivo no espaço. A pequena tripulante do foguete era a cadela Laika, um animal que protagonizou uma história descrita pela ciência como melancólica e inovadora.
A vira-lata vivia nas ruas de Moscou, capital da Rússia, e foi selecionada a dedo pelos cientistas soviéticos. Além de seu comportamento dócil e pequeno porte (pesava cerca de 6 kg), o processo de seleção preferiu cães de rua porque acreditavam que eles já eram naturalmente mais resistentes a condições extremas, como frio intenso e escassez de comida.
O projeto fez parte da “Corrida Espacial” entre Estados Unidos e União Soviética, uma das principais disputas entre as duas potências durante a Guerra Fria.
Agora, nesta quarta-feira, 1° de abril, os olhos do público se voltam para o espaço com o lançamento do voo Artemis II. A decolagem da primeira missão tripulada ao redor da Lua no século 21 deve acontecer às 18h24 do horário local (19h24 horário de Brasília)
Treinamentos
Depois de ser capturada, Laika participou de uma sequência de treinamentos intensos para se adaptar ao tamanho minúsculo da Sputnik 2. Ela, assim como outros cachorros, foi mantida em gaiolas progressivamente menores por até 20 dias.
Para evitar que a vira-lata entrasse em choque durante a decolagem, os cientistas colocaram o animal em centrifugadoras que simulavam as intensas forças G do lançamento de um foguete. A cachorra também foi colocada em câmaras de som que reproduziam ruídos ensurdecedores dos motores, para que ela se acostumasse com a vibração e o barulho.
Como não havia uma maneira viável de fornecer comida ou água em gravidade zero, Laika foi treinada para consumir gelatina espacial nutritiva. O gel continha todos os nutrientes e a hidratação necessários para o organismo dela.
Por fim, a cachorra passou por cirurgias focadas na implementação de sensores que monitoravam seu ritmo cardíaco, respiração e movimentos. Os dados eram transmitidos via rádio para a Terra, como uma forma de possibilitar que os cientistas observassem como um organismo vivo reagia fora da atmosfera.
A missão e o fim de Laika
Diferente de missões anteriores, o Sputnik 2 não foi projetado para voltar. Naquela época, a tecnologia de reentrada na atmosfera terrestre ainda não havia sido desenvolvida. Os cientistas sabiam desde o início que Laika não retornaria com vida.
Segundo a Nasa, a cachorra sobreviveu de cinco a sete horas depois de chegar em órbita. A agência norte-americana aponta que a falta de tempo e de investimentos foi crucial para selar o destino da vira-lata.
Durante anos, o governo soviético afirmou que Laika sobreviveu por vários dias em órbita antes de morrer de forma indolor após consumir comida envenenada preparada para evitar sofrimento no final da missão. O The New York Times chegou a noticiar que havia a possibilidade de o animal ser resgatado vivo.
No entanto, documentos revelados em 2002 revelaram que a cadela morreu devido a uma falha no sistema de controle térmico do foguete, o que provocou um superaquecimento na cabine. O óbito foi causado em decorrência de um “estresse severo”.
O Sputnik 2 orbitou a Terra por 162 dias antes de reentrar na atmosfera e se desintegrar, levando consigo os restos mortais da cadela.
Sacrifício, debates e legado
O sacrifício de Laika gerou uma série de debates sobre o uso de animais em experimentos científicos. Mesmo que a missão tenha comprovado que um ser vivo poderia sobreviver ao lançamento e à entrada em órbita, o destino da cadela foi classificado como “cruel” e gerou debates dentro da própria comunidade científica soviética.
Alguns cientistas envolvidos no projeto teriam relatado arrependimento alguns anos depois do lançamento.
Os dados do lançamento de Laika foram fundamentais para o sucesso de Yuri Gagarin na Vostok 1, a primeira tripulada por um humano a orbitar o planeta e retornar em segurança.
Atualmente, ela é referenciada como um símbolo na cultura local. Em 2008, Laika foi eternizada com uma estátua na frente da instalação militar onde ela recebeu os treinamentos para a Sputnik 2.
