Invenção da USP promete acabar com o disfarce da madeira ilegal na Amazônia a partir de uma “impressão digital química”

Metodologia analisa a proporção de oxigênio, carbono, nitrogênio e estrôncio, elementos que variam conforme o clima, solo e altitude

Centenas de árvores espalhadas por diversas localidades do bioma foram catalogadas para estruturar o banco de dados inicial (Foto: Divulgação, Greenpeace Brasil)

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) criaram uma “impressão digital química” capaz de rastrear a origem exata da madeira ilegal no Brasil. A tecnologia inédita desenvolvida no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP) identifica a assinatura geográfica das árvores para barrar o desmatamento na Amazônia e dar segurança ao mercado consumidor.

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A inovação paulista vira aliada da Polícia Federal para rastrear fraudes no comércio de madeira em todo o país.

Divulgado pela Agência Fapesp e publicado na conceituada revista científica Molecules, o estudo utiliza a análise de isótopos estáveis presentes na celulose das árvores para verificar se aprocedência indicada no Documento de Origem Florestal (DOF) corresponde à realidade.

A metodologia analisa a proporção de oxigênio, carbono, nitrogênio e estrôncio, elementos que variam conforme o clima, solo e altitude. Como cada região deixa um rastro químico próprio no vegetal, a tecnologia cria um rastro natural praticamente impossível de ser adulterado por fraudadores.

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Rastreio químico e IA: de onde a madeira foi tirada?

A pesquisa foi liderada pelo professor Luiz Antonio Martinelli, com participação da pesquisadora Isabela Maria Souza Silva, em projeto de doutorado financiado pela  Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A tecnologia já vem sendo aplicada em apoio a perícias ambientais e operações da Polícia Federal, fortalecendo as fiscalizações no campo e nos terminais de transporte que abastecem o comércio em São Paulo e no exterior, além de se alinharem aos compromissos sociambientais (ESG).

Para estruturar o banco de dados inicial, a equipe da USP coletou amostras de aproximadamente 800 árvores espalhadas por 63 localidades da Amazônia. Um dos maiores desafios enfrentados pelos cientistas foi o mapeamento do chamado arco do desmatamento, região marcada por grande diversidade de microclimas e solos.

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E contornar essa complexidade, os pesquisadores combinaram modelos estatísticos com inteligência artificial e aprendizado de máquina (machine learning), prevendo a distribuição dos elementos e elevando aprecisão dos cruzamentos de dados.

Modelo da USP descarta área que equivale a duas vezes o Estado de São Paulo

O modelo atual alcançou um marco expressivo ao conseguir descartar cerca de 80% da área da Amazônia como possível origem de uma amostra suspeita, o que corresponde a 3,2 milhões de quilômetros quadrados.

“O nosso melhor modelo consegue excluir 80% da área florestal da Amazônia, que são 3,2 milhões de quilômetros quadrados. O problema é que 20% ainda é muito. Dá mais ou menos 640 mil quilômetros quadrados, [uma área equivalente a duas vezes e meia o Estado de São Paulo]”, explicou Martinelli.

Com o envio contínuo de novas amostras de madeira para o mapeamento isotópico, a ferramenta criada em São Paulo se consolida como um braço decisivo para a fiscalização pública e a auditoria de cadeias sustentáveis. Além de reprimir o desmatamento, a tecnologia traz transparência para o agronegócio e para asindústrias de papel, móveis e construção civil, garantindo a procedência legal dos insumos consumidos no país.