O Sol começava a subir sobre Marte quando o Curiosity apontou sua câmera para o horizonte. À frente do rover, penhascos recortados pela erosão surgiam sob uma luz incomum, com tons azulados próximos ao solo e uma faixa alaranjada dominando o céu.
A imagem, registrada no Monte Sharp, dentro da cratera Gale, chama atenção pela composição incomum. Para a NASA, no entanto, o principal está no que aparece ao fundo: formações rochosas com cerca de 3 bilhões de anos, conhecidas como yardangs, que podem ajudar a esclarecer uma etapa ainda pouco compreendida da história geológica do planeta.
O Curiosity fotografou a paisagem por volta das 8h30 no horário local de Marte, aproximadamente uma hora depois do nascer do Sol. A câmera Mastcam produziu uma sequência de imagens que depois foi reunida em um panorama.
Um horizonte que ainda guarda perguntas
Os yardangs se estendem por cerca de 16 quilômetros na região noroeste do Monte Sharp. Vistos de longe, parecem apenas cristas irregulares. Geologicamente, porém, destoam das camadas que o rover atravessou até agora.
A diferença aparece na inclinação, na textura e na forma como essa camada se encaixa no restante da montanha.
Desde 2014, o Curiosity sobe o Monte Sharp e lê suas rochas quase como páginas sobrepostas. Cada faixa registra condições ambientais de um período diferente. Foi assim que a missão identificou sinais de antigos lagos e cursos d’água em uma região hoje seca e fria.
Os yardangs, no entanto, parecem interromper essa sequência.
Segundo Ashwin Vasavada, cientista do projeto Curiosity no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, a camada pode ter se formado a partir de sedimentos levados pelo vento ou até de cinzas vulcânicas. Depois, o material endureceu e passou bilhões de anos exposto à erosão marciana.
Foi o vento que deu às formações o aspecto que aparece na fotografia.
Ao desgastar lentamente materiais mais frágeis, ele deixou cristas estreitas e alongadas na superfície. Na geologia, esse tipo de relevo recebe o nome de yardang.
A idade estimada da camada gira em torno de 3 bilhões de anos, mas sua posição chama ainda mais atenção do que a idade.
Os pesquisadores acreditam que exista ali uma discordância geológica, isto é, uma interrupção no registro das camadas. Isso significa que parte das rochas mais antigas pode ter desaparecido pela erosão antes da deposição de novos materiais.
Essa lacuna interessa porque pode coincidir com uma mudança importante no ambiente marciano.
Uma subida lenta, mas decisiva
Enquanto se aproxima dessa região, o Curiosity também alcançou um marco importante.
O rover já acumulou 1 quilômetro de ganho de elevação desde o início da subida do Monte Sharp, a maior variação vertical já vencida por um veículo na superfície de Marte.
O número parece modesto, mas em Marte cada deslocamento exige planejamento cuidadoso. A equipe avalia pedras soltas, declives, trechos de areia e desgaste das rodas antes de definir a rota.
Ao mesmo tempo, esse avanço favorece a ciência. O Curiosity para, fotografa, analisa minerais e compara diferentes camadas antes de seguir viagem.
A missão não prioriza velocidade: cada trecho do caminho também faz parte da investigação.
O próximo alvo
A expectativa da NASA é que o Curiosity alcance a base das formações em 2027 ou 2028.
Quando isso acontecer, o rover poderá examinar as rochas a poucos centímetros de distância, usando seus instrumentos para medir composição, textura e química.
Só então os cientistas poderão testar com mais segurança as hipóteses levantadas pelas imagens: sedimentos transportados pelo vento, depósitos vulcânicos ou outro processo ainda desconhecido.
Para quem quiser acompanhar o avanço pode consultar a página oficial do Curiosity na NASA e o acervo do Jet Propulsion Laboratory.
Um amanhecer bem diferente
A fotografia também chama atenção por um detalhe um tanto visual.
Marte é conhecido como Planeta Vermelho, mas o amanhecer capturado pelo Curiosity mostra tons azulados próximos ao terreno, enquanto o céu mantém coloração alaranjada.
Vasavada comparou a paisagem a Monument Valley, no Arizona. A referência faz sentido pelas rochas recortadas e pelo espaço aberto, mas a semelhança dura pouco.
Por alguns instantes, a paisagem lembra desertos terrestres; as cores do céu logo desfazem essa impressão.
Ao fundo, os yardangs permanecem imóveis, moldados por bilhões de anos de vento. O Curiosity segue em direção a eles, lentamente, transformando um amanhecer marciano em mais uma pista sobre o passado de um planeta que já foi muito diferente do que vemos hoje.





