Um pequeno primata de olhos enormes, hábitos noturnos e uma característica rara entre os mamíferos voltou a chamar a atenção da ciência após quase um século sem registros científicos confiáveis. O lóris-lento-de-Bangka, considerado possivelmente extinto, continua vivo na Indonésia e foi encontrado em diferentes regiões de uma ilha do país.
Entre 2015 e 2025, equipes do Alobi Wildlife Rescue Center resgataram mais de 90 indivíduos na ilha de Bangka, próxima à costa de Sumatra. Os registros embasaram um estudo publicado em outubro de 2026 na revista científica Spixiana e confirmaram a sobrevivência da espécie.
A descoberta, porém, não significa que o animal esteja fora de perigo. O lóris-lento-de-Bangka continua criticamente ameaçado, e pesquisadores defendem novas medidas para proteger as populações que restam na natureza.
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Primata é o único grupo de mamíferos conhecido por produzir veneno
O lóris-lento-de-Bangka (Nycticebus bancanus) vive nas árvores e costuma se movimentar durante a noite. Seus olhos grandes ajudam na visão em ambientes escuros, enquanto os movimentos lentos favorecem a discrição entre os galhos.
A característica mais surpreendente está em seu mecanismo de defesa. Os lóris-lentos são os únicos primatas conhecidos por produzir veneno. Uma glândula localizada na parte interna dos braços libera uma secreção oleosa que o animal lambe e mistura à saliva.
Essa combinação pode tornar a mordida dolorosa e provocar inchaço. Por isso, apesar da aparência delicada, o primata não deve ser manipulado por pessoas sem treinamento.
Resgates revelam ameaças enfrentadas pela espécie
Muitos dos animais chegaram ao centro de resgate depois que moradores os encontraram em áreas urbanizadas, jardins, estradas ou instalações elétricas. Alguns também vieram de situações de cativeiro ilegal.
Segundo os dados divulgados pela equipe, 86 indivíduos se recuperaram e voltaram à natureza, em áreas florestais protegidas da ilha. Outros sofreram ferimentos graves, incluindo queimaduras provocadas por choques elétricos.
A destruição do habitat está entre as principais ameaças. A mineração de estanho, a expansão de plantações de dendezeiros e o desmatamento reduzem as áreas florestais disponíveis e aproximam os animais das comunidades humanas.
Descoberta abre caminho para novas pesquisas
A ausência de registros científicos por tantas décadas alimentou o temor de que o lóris-lento-de-Bangka tivesse desaparecido. Os resgates mostram, entretanto, que a espécie sobrevive em diferentes partes da ilha.
Os pesquisadores agora defendem levantamentos populacionais, estudos genéticos e ações permanentes de conservação. Também recomendam proteger as florestas remanescentes e avaliar programas de reprodução em cativeiro.
A redescoberta reforça que uma espécie pode desaparecer dos registros científicos sem desaparecer da natureza. Ao mesmo tempo, os especialistas alertam que documentar sua sobrevivência é apenas o primeiro passo para evitar uma extinção definitiva.







