Quantos produtos sua pele realmente precisa? Dermatologistas alertam para excessos no skincare

Mercado de beleza cresce no Brasil e redes sociais transformam ativos em tendências, mas especialistas afirmam que mais produtos não significam necessariamente mais benefícios.

Cenário está preocupante, com peles fragilizadas, ressecadas, poros obstruídos e piora progressiva da aparência e da saúde da pele

Excesso não equivale a mais eficácia/ Foto: Freepik

O skincare surgiu como tendência há alguns anos e hoje se consolida como passo indispensável na rotina de muita gente. Tutoriais de “morning routine”, vídeos de produtos virais sorbre o tema e influenciadores indicando novos ativos ajudaram a transformar o cuidado com a pele em um mercado cada vez mais robusto. 

Continua após a publicidade

No Brasil, a categoria de cuidados com a pele cresceu 9,6% em 2024, segundo dados da Euromonitor divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). No ano passado, fomos o terceiro maior mercado de cosméticos do mundo, movimentado cerca de 175 bilhões no nosso país. Ao mesmo tempo, o ambiente digital se tornou um dos principais espaços de descoberta e consumo.

Conteúdos, tendências e produtos viralizados nas redes sociais ajudam a transformar ingredientes como vitamina C, retinol, niacinamida e diferentes ácidos em supostas etapas obrigatórias de uma rotina de cuidados.

Mas será que a pele realmente precisa de tantos produtos?

Para as dermatologistas Paula Sian e Manuela Boleira, a resposta é não. As duas especialistas defendem que uma rotina eficiente deve partir das necessidades individuais da pele, e não da quantidade de etapas ou da popularidade de determinado ativo nas redes sociais.

Continua após a publicidade

Não existe um número mágico de etapas de skincare

Segundo Manuela Boleira, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, da Sociedade Latino-Americana de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia, uma pele saudável precisa, acima de tudo, de cuidados que cumpram funções básicas: limpeza adequada, preservação da barreira cutânea e proteção contra a radiação solar.

“Não existe um número mágico de produtos. Para uma pele saudável, o mais importante é garantir algumas funções básicas”, afirma a dermatologista. Na prática, isso pode significar uma rotina composta por um produto de limpeza adequado, hidratante quando necessário e protetor solar durante o dia. Outros ativos devem ser incluídos apenas quando houver uma indicação concreta, como acne, melasma, rosácea ou sinais de fotoenvelhecimento.

Paula Sian, formada pela Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP) e especializada em Farmacodermia e Dermatoses Imuno Ambientais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), segue a mesma linha. 

Continua após a publicidade

Para ela, uma pessoa jovem, sem doenças dermatológicas e com tendência à oleosidade pode ter uma rotina simples com limpeza, hidratação adequada e proteção solar. Já uma pele madura ou ressecada pode demandar outros cuidados.

Ambas doutoras reforçam que o indispensavel mesmo é o protetor solar, para todos os tipos de pele, que deveria ser tradado não apenas como skincare mas como uma questão de saúde pública. 

“Vivemos em um país tropical e todo tipo de pele pode desenvolver manchas e também apresenta risco de câncer de pele. Por isso, o protetor solar deve fazer parte da rotina de todas as pessoas, mesmo as com mais melanina e, a partir dos seis meses de idade, também das crianças”, reforça Paula.

Continua após a publicidade

Já os demais produtos precisam ser escolhidos de acordo com as características e necessidades de cada pele. O mais importante é entender o que aquela pessoa realmente precisa, e não simplesmente aumentar o número de etapas da rotina.

Mais produtos não significam mais benefícios

A popularização do skincare nas redes sociais ajudou a criar rotinas cada vez mais longas. Vídeos mostram pessoas aplicando cinco, oito ou até mais produtos em sequência, enquanto novos ingredientes rapidamente se transformam em tendências de consumo.

Mas, segundo Paula, quantidade não é sinônimo de eficácia. “Quem tem tempo, dinheiro e paciência para aplicar oito produtos no rosto em cada etapa do dia?”, questiona a médica. “Mais produtos não significam necessariamente mais benefícios.”

Continua após a publicidade

Ela afirma que costuma trabalhar com, no máximo, três produtos por etapa e reforça que uma rotina simples pode ser suficiente. O problema do excesso, segundo a dermatologista, está também nas possíveis interações entre ativos e no risco de irritação, ardência, vermelhidão e descamação.

Manuela explica que a pele possui uma barreira importante, responsável, entre outras funções, por reduzir a perda de água e proteger o organismo de agentes externos. O uso simultâneo de diversos produtos, principalmente aqueles com potencial irritante, pode comprometer essa proteção.

“Uma rotina extensa não é sinônimo de uma rotina sofisticada. Em dermatologia, sofisticado é conseguir escolher aquilo que faz sentido para aquela pele, na concentração, frequência e combinações adequadas”, afirma.

Continua após a publicidade

O que é indispensável e o que depende de cada pele?

Como já mencionado, o protetor solar é realmente essencial em todos os casos. Existe um mito que pessoas com mais melanina (pretas, pardas, indígenas e etc) estão automaticamente mais protegidas, mas não é bem assim.

Paula Sian reforça que, mesmo em peles pretas, por exemplo, a maior quantidade de melanina não elimina o risco de envelhecimento, manchas e câncer de pele.

Manuela também diferencia os cuidados básicos dos produtos voltados ao tratamento. Limpeza adequada e fotoproteção fazem parte de uma rotina de saúde da pele, enquanto a necessidade de hidratação varia conforme características individuais.

Continua após a publicidade

Já ativos como retinoides, ácidos, clareadores, antioxidantes e produtos para acne ou oleosidade têm objetivos específicos.

A vitamina C, por exemplo, tornou-se tão popular que muitas pessoas passaram a enxergá-la como uma etapa obrigatória. “Não é”, afirma a dermatologista. “Sua indicação depende do que buscamos naquela pele.”

Quando o skincare passa a irritar a pele

O problema pode se tornar ainda maior quando diferentes ativos são combinados sem orientação. Manuela cita retinoides, alfa-hidroxiácidos e beta-hidroxiácidos como substâncias que podem trazer benefícios quando corretamente indicadas, mas também provocar dermatite irritativa quando utilizadas em associação ou frequência inadequadas.

Continua após a publicidade

O uso de vários produtos ao mesmo tempo pode causar problemas, principalmente quando eles não são adequados ao tipo de pele ou quando são utilizados de forma incorreta. Uma pessoa com pele oleosa, por exemplo, pode saber que precisa hidratar a pele, mas escolher um hidratante inadequado. Nesse caso, pode haver piora da oleosidade e aparecimento de espinhas.

Outro alerta é não interpretar ardência como sinal de que o produto está funcionando. “Ardor, vermelhidão intensa, fissuras ou descamação importante podem significar que a barreira da pele está sendo agredida”, explica Manuela.

O mesmo acontece com quem usa muitas camadas de produtos antes da maquiagem. Dependendo das formulações, essa sobreposição pode favorecer a obstrução dos poros e contribuir para acne e foliculite. “Nos homens, também é preciso observar a combinação de produtos usados no barbear, como espuma, hidratante, pós-barba e protetor solar, além do próprio atrito da lâmina. Em alguns casos, pode ser necessário incluir algum produto que ajude na renovação da pele e na desobstrução dos poros”, reforça Paula

Continua após a publicidade

Além da quantidade, é muito importante prestar atenção ao momento de aplicação de cada ativo. Alguns ácidos e clareadores são mais indicados para uso noturno. “O retinol é um exemplo: nem todas as formulações são suficientemente estáveis para serem utilizadas durante o dia, por isso, em geral, seu uso é recomendado à noite.Já a vitamina C tem um benefício especialmente interessante pela manhã, por sua ação antioxidante diante da radiação ultravioleta. Quando utilizada durante o dia, associada ao protetor solar, ela ajuda a combater o processo de oxidação provocado pela exposição solar”, explica Paula. 

Por isso, não basta comprar um produto bom ou caro. É preciso saber se ele é adequado para aquela pele, em qual etapa da rotina deve ser usado e em que horário. Caso contrário, além de aumentar o risco de irritação, acne ou sensibilização, a pessoa pode gastar dinheiro com um produto e não aproveitar da melhor forma os seus benefícios.

Redes sociais transformam desejo em necessidade

É justamente nesse ponto que influenciadores, publicidade e tendências digitais entram na discussão. Em um mercado que cresce rapidamente e lança milhares de produtos, a sensação de que sempre existe algo novo a ser incorporado à rotina pode estimular compras que não correspondem necessariamente a uma necessidade dermatológica.

Continua após a publicidade

“A primeira coisa é separar desejo de necessidade. Hoje somos expostos diariamente a conteúdos que transformam alterações absolutamente normais da pele em problemas que precisariam ser corrigidos. Poros existem. Textura existe. Linhas surgem com o tempo. A pele real não tem a aparência de uma imagem filtrada”, reforça Manuela.

Isso é especialmente importante porque o skincare também virou um grande mercado de consumo. Um produto viraliza, surge um novo ativo, aparece uma nova etapa e rapidamente se cria a percepção de que aquilo está faltando na nossa rotina.

“Eu gosto de partir de uma pergunta objetiva: o que queremos melhorar ou prevenir? A resposta determina se existe indicação de algum produto específico. Também é importante observar a própria pele. Ela mudou recentemente? Surgiram manchas, acne, coceira ou lesões novas? Há uma pinta que mudou de formato ou cor? Nesse caso, a discussão já deixa de ser simplesmente sobre cosméticos. Pode existir uma condição dermatológica que precisa ser avaliada”, reforça.

Continua após a publicidade

Manuela defende que a dermatologia não deveria perseguir uma pele perfeita, mas sim preservar uma pele saudável, reconhecer alterações precocemente e tratar aquilo que realmente precisa ser tratado.

Paula alerta que a publicidade nas redes sociais trabalha fortemente com a sedução e a emoção, o que pode tornar o consumo menos racional. Para ela, investir em muitos produtos apenas porque estão em alta pode significar gastar mais e, ainda assim, não montar uma rotina adequada.

Menos produtos, mais critério

No fim, o consenso entre as especialistas é que o skincare não precisa ser uma lista de produtos a ser completada. Uma rotina eficiente pode ser curta ou mais elaborada, dependendo das necessidades da pele. 

Continua após a publicidade

O problema começa quando a quantidade de etapas passa a ser confundida com qualidade ou quando tendências substituem uma avaliação individual. Como resume Paula Sian, uma boa rotina não é necessariamente aquela com mais produtos, mas aquela que utiliza os produtos certos para cada tipo de pele.

“Se possível passar num especialista, em um dermatologista, melhor. O especialista avalia aquela pele, repara em pintas, qual é o grau de envelhecimento, percebe o que necessita tratamento e o que é prevenção”, reforça Paula.

O especialista é a pessoa mais adequada para salvar sua pele e seu bolso. “Como temos muitas opções para escolher, as vezes compramos uma marca que é menos específica, tem uma menor qualidade, com um preço menor e só gastamos dinheiro a toa”, reforça.

Continua após a publicidade

Manuela conclui reforçando que também precisamos considerar concentração e frequência. “O mesmo ativo pode ser bem tolerado duas ou três vezes por semana e causar irritação quando utilizado diariamente. Mais concentração também não significa necessariamente melhor resultado. Por isso, não devemos analisar apenas quais ativos estão sendo usados, mas como, com que frequência e em qual pele eles estão sendo aplicados”, explica.

Tome cuidado com o que você coloca no rosto e não deixe de buscar avaliação médica se possível. Caso uma consulta dermatológica não caiba no seu bolso no momento, não deixe de usar protetor solar e evite “explorar” por conta própria.