Acordo Mercosul-UE: qual efeito para o agro paulista?

Em negociação há 20 anos, texto de livre mercado deve ser assinado no início do próximo ano

Ursula von der Leyen anunciou que o acordo deve ser assinado em janeiro

Ursula von der Leyen anunciou que o acordo deve ser assinado em janeiro | Stephanie Lecocq/Reuters/Folhapress

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia está mais perto de sair do papel. Ele funciona como uma negociação de concessões entre os dois blocos para eliminar as tarifas sobre a maioria dos produtos de ambos os lados. Setores paulistas como café, frutas, aves e principalmente bovinos devem ser beneficiados; enquanto laticínios, bebidas alcoólicas e alimentos processados podem apresentar riscos. 

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A Comissão Europeia planejava assinar o acordo na última semana. Porém, o prazo foi adiado depois da Itália se opor ao documento ao lado da França e exigir um adiamento para buscar uma maneira de proteger o seu setor agrícola.

Apesar de ter o agronegócio como protagonista, abrange outros setores como indústria, serviços e investimentos. As negociações formais começaram em junho de 1999 e o texto oficial foi finalizado em dezembro de 2024. 

Agropecuária de São Paulo

Para o Brasil, o acordo deve eliminar a taxa de importação de 77% dos produtos agropecuários adquiridos pela União Europeia junto ao Mercosul, de forma gradual. A retirada deverá ser dividida em cinco cestas: imediato, de 4, 7, 10 ou até mesmo 15 anos.  

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No caso do estado de São Paulo, os produtores de frutas serão beneficiados. Dentre os produtos, a uva (terá tarifa eliminada de imediato) e o limão (contará com corte progressivo ao entrar para a cesta de 7 anos), no qual a região é a grande produtora nacional. 

Outro produto de destaque é o café, que terá sua tarifa eliminada na progressão de 4 anos, partindo dos 4% até chegar a zero. As regras de origem de importação europeia, afirma que parte desse produto deverá vir do Brasil. 

Para Sueme Mori, diretora de relações internacionais da CNA, o acordo é uma negociação de concessões equilibrada. “O que acaba acontecendo é uma competição entre os produtos. Ou seja, quem for mais competitivo vai acabar levando uma fatia maior do mercado”.

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Isso representa um risco para setores do agro paulista com menor competitividade internacional — lácteos, vinhos e alimentos processados — que tendem a sentir efeitos adversos com a abertura comercial. Por isso, o tempo das cestas para adaptação. 

Como fica o gado?

Em contrapartida, pecuaristas, sobretudo franceses e poloneses, resistem ao tratado por temerem perder espaço para os sul-americanos. O Brasil é agroexportador com uma alta competitividade assim como Argentina e Uruguai. 

“É um receio que eles têm de, ao facilitar o acesso, aumentarem as importações a ponto de prejudicar a produção agropecuária doméstica do bloco europeu. É uma questão de competitividade”, explica Mori. 

Atualmente, a carne bovina brasileira tem dois tipos de tarifação para ser comprada por países da Europa: uma delas é a cota Hilton, destinada a cortes nobres, que permite ao Brasil exportar 10 mil toneladas por ano com uma taxa de 20%. 

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Outros tipos de carne bovina possuem uma taxa de 12,8%, mais 221,1 euros por 100 kg. Caso o acordo seja aprovado, esse percentual será zerado para ambos os tipos e o Brasil passará a ter nova cota de exportação em conjunto com os demais países do Mercosul.

A UE foi o segundo maior cliente do agro brasileiro em 2024, com valores próximos dos US$ 23 bilhões, atrás somente da China, com mais que o dobro, US$ 49 bilhões, conforme dados da Agrostat, Ministério da Agricultura e Pecuária. 

Cláusula espelho 

Sem novas salvaguardas (mecanismos de freio em acordos comerciais), a França não deve assinar o acordo. Os produtores do país acreditam que a América Latina segue regras ambientais e de segurança alimentar menos rigorosas. 

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Os opositores querem forçar a “cláusula espelho”, exigência de reciprocidade em normas de produção que obriga produtos importados a cumprirem os mesmos padrões ambientais, sanitários e de bem-estar animal.

Sueme Mori, explica que o argumento não faz sentido, as duas produções bovinas têm sistemas diferentes, seria inviável para os dois blocos econômicos possuírem as mesmas regras de produção.

“A produção agropecuária brasileira é de clima tropical. Fazemos três safras, possuímos cinco biomas. É completamente diferente da produção europeia, de clima temperado. A média da temperatura é completamente diferente daqui, tem uma situação de neve que mata as pragas”, argumentou. 

Além do país gálico, Polônia, Hungria e agora, Itália querem mudanças essenciais para o acordo ser assinado. A primeira-ministra italiana afirmou que assinar o acordo nos próximos dias “seria prematuro”. 

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Dessa forma, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou a líderes do bloco que a conclusão do acordo foi adiada para janeiro.