Não é só o pobre que perde: a desigualdade custa bilhões e freia a economia brasileira

Estudo aponta que violência, discriminação e exclusão reduzem produtividade, encolhem o mercado consumidor e impõem perdas bilionárias à economia do país

Lançamento da pesquisa "Custo das Desigualdades" na Conferência Ethos, em São Paulo | Imagem: Bruno Basila

Lançamento da pesquisa "Custo das Desigualdades" na Conferência Ethos, em São Paulo | Imagem: Bruno Basila

A desigualdade atinge mais intensamente quem está na base da pirâmide, como famílias sem renda suficiente para viver dignamente, trabalhadores excluídos do mercado, mulheres que deixam suas carreiras por falta de infraestrutura de cuidado ou jovens que têm suas vidas interrompidas pela violência.

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Mas o que pouco se fala é que os impactos desse abandono não ficam restritos a quem sofre diretamente com a pobreza, a discriminação ou a criminalidade. Um país desigual também tem um mercado consumidor menor, menos trabalhadores disponíveis e produtividade e custos mais altos para empresas e governos. A desigualdade não prejudica apenas quem tem menos, ela limita o desenvolvimento econômico de toda a sociedade.

Estudo inédito revela detalhes desta realidade

Essa é uma das conclusões do estudo inédito conduzido pelos economistas Michael França e Daniel Duque, em parceria com o Instituto Ethos e o Núcleo de Estudos Raciais do Insper (NERI), que deu origem ao livro “Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas”, publicado pela editora Jandaíra.

Os números ajudam a dimensionar essa conta. Segundo o levantamento, a violência no Brasil representa um custo equivalente a 4,38% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 285 bilhões por ano, considerando despesas com segurança pública e privada, sistema prisional, saúde, Justiça e perdas de capacidade produtiva.

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A exclusão de pessoas LGBTQIAPN+ do mercado de trabalho, por sua vez, representa uma perda estimada em R$ 94,4 bilhões anuais para a economia brasileira. A discriminação no trabalho também reduz a arrecadação: o estudo estima em R$ 14,6 bilhões por ano os impostos que deixam de ser recolhidos em razão dessas desigualdades.

Para Michael França, pesquisador do Insper e coautor da obra, o impacto vai além das vítimas diretas da violência e da discriminação.

“A violência e a discriminação corroem o capital humano do país. Quando vitimamos desproporcionalmente homens jovens negros de baixa escolaridade ou afastamos talentos por preconceito, estamos impondo um dano profundo, duradouro e mensurável ao potencial de desenvolvimento da nossa economia”, afirma.

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Menos renda igual a menos consumo e menos crescimento

A relação entre desigualdade e economia também passa pelo tamanho do mercado consumidor. Quando uma parcela significativa da população vive com renda muito baixa, milhões de pessoas têm capacidade limitada para consumir produtos e serviços.

Isso afeta diretamente empresas e setores que dependem do mercado interno. Uma população mais pobre não deixa apenas de acumular patrimônio; ela também compra menos, movimenta menos a economia e reduz o potencial de expansão de negócios.

Embora indicadores recentes apontem redução da pobreza no Brasil, de 27,3% para 23,1% entre 2023 e 2024, segundo dados do IBGE, milhões de brasileiros ainda vivem em situação de extrema vulnerabilidade.

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Para os autores, essa realidade limita não apenas o bem-estar das famílias, mas também a própria capacidade de crescimento econômico do país. Menos renda significa menos consumo; menos consumo reduz oportunidades de negócios; e uma economia menos dinâmica gera menos empregos e investimentos.

Talentos ficam perdidos pelo caminho nesse cenário

A desigualdade também representa uma perda de capital humano. Ouvimos reclamações sobre “as pessoas não estarem a fim de trabalhar” nos dias de hoje, mas será esse o caso?

Segundo o estudo, a falta de infraestrutura social pode afastar até 7 pontos percentuais das mulheres do mercado de trabalho. A violência, por sua vez, está associada à redução de 4% a 6% na renda do trabalho.

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Cada jovem vítima de homicídio representa, ainda, um prejuízo estimado em R$ 550 mil em capacidade produtiva que deixa de ser gerada ao longo da vida.

O problema, portanto, não é apenas individual ou familiar, como “falta de vontade” ou “comodismo”. Quando uma pessoa abandona o mercado de trabalho por falta de creche, sofre discriminação na contratação ou perde a vida precocemente, o país também perde profissionais, conhecimento, produtividade e arrecadação.

Projeções do Banco Mundial citadas no levantamento indicam que uma redução de 10% nas taxas de homicídio poderia elevar o crescimento do PIB em aproximadamente 1 ponto percentual ao ano em países com alta criminalidade.

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A desigualdade como problema de negócios

Durante décadas, diversidade e inclusão foram frequentemente tratadas por empresas como compromissos sociais ou iniciativas de responsabilidade corporativa. Os dados apresentados no estudo, no entanto, reforçam uma dimensão econômica do problema.

Para Ana Lucia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos, combater desigualdades também deve ser entendido como uma estratégia de competitividade. “Durante muito tempo, a desigualdade foi tratada sob o prisma ético ou social. As evidências do estudo provam que ela compromete diretamente a produtividade, restringe mercados e limita o crescimento sustentável do país. Enfrentar esse cenário é uma decisão estratégica indispensável para lideranças e organizações que pensam no longo prazo”, afirma.

Empresas funcionam dentro da economia e da sociedade em que estão inseridas. Um ambiente marcado por violência, baixa renda, exclusão e falta de oportunidades gera custos que, em diferentes níveis, acabam sendo compartilhados por todos.

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Segurança privada mais cara, menor disponibilidade de mão de obra qualificada, redução do consumo, perda de produtividade e menor crescimento econômico fazem parte dessa conta.

Por isso, a discussão sobre desigualdade precisa ultrapassar a ideia inicial de solidariedade ou justiça social; os danos são muito mais profundos, inclusive para quem faz parte do ciclo opressor, mesmo que de cima. Reduzir a exclusão também pode significar ampliar mercados, aproveitar talentos que hoje são desperdiçados e construir uma economia capaz de crescer de forma mais sustentável.

A desigualdade pode até atingir algumas pessoas de forma muito mais dura do que outras, mas seus efeitos não ficam confinados à base da pirâmide, eles atravessam empresas, governos, consumidores e o próprio potencial econômico do Brasil.