O aumento da idade mínima para a aposentadoria ganha contornos preocupantes quando confrontado com a realidade da saúde dos trabalhadores.
Um estudo da Hannover Medical School (MHH), financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa (DFG) e publicado no European Journal of Public Health, revela que o prolongamento da vida laboral não acompanha a capacidade física das pessoas.
A líder do projeto, Dra. Juliane Tetzlaff, alerta que “a evolução da vida profissional saudável muitas vezes não acompanha o aumento da idade de aposentadoria estatal”, penalizando de forma desproporcional principalmente as populações socioeconomicamente vulneráveis e as gerações mais jovens.
No Brasil, onde as exigências da previdência sobem com a regra de 65 anos para homens e 62 para mulheres, esse cenário se acentua. Trabalhadores de baixa renda e com menor escolaridade acumulam desgastes físicos e mentais muito mais cedo, criando um abismo social entre quem consegue envelhecer com qualidade e quem precisa recorrer a benefícios por incapacidade antes de se aposentar.
Envelhecimento da população e o paradoxo das doenças crônicas
O estudo utilizou dados longitudinais de pesquisas como o Socio-Economic Panel (SOEP) e o SHARE, além de registros de mais de três milhões de segurados da AOK Lower Saxony entre 2005 e 2018. Os resultados mostram um paradoxo: enquanto doenças graves como câncer e problemas cardiovasculares estão em declínio, permitindo mais anos livres dessas enfermidades, os transtornos musculoesqueléticos dispararam.
Essas dores e limitações nas articulações e coluna surgem cada vez mais cedo e duram por mais tempo durante a vida útil do trabalhador. Conforme destaca a Dra. Tetzlaff, pessoas em cargos que exigem alto estresse físico ou psicossocial enfrentam uma queda drástica na expectativa de vida saudável, agravando a desigualdade em relação aos profissionais de alta escolaridade.
A saúde dos jovens em risco e a precarização do mercado brasileiro
O achado mais alarmante do estudo é a deterioração na faixa dos 18 aos 44 anos, que passa mais anos com percepção de saúde ruim. “Existe o risco de que as gerações mais jovens cheguem à idade avançada de trabalho em condições de saúde significativamente piores do que a geração atual de trabalhadores mais velhos”, aponta a pesquisadora. Entre os fatores citados para esse declínio estão o aumento da obesidade, a intensidade de horas sem pausas e as constantes mudanças de emprego.
No contexto brasileiro, esse quadro é amplificado pela alta rotatividade, pelo medo do desemprego e pela expansão da informalidade e dos trabalhos por aplicativo. A rotina exaustiva, aliada à ausência de proteção social e ao estresse contínuo, antecipa problemas crônicos em jovens que sequer ingressaram no mercado formal de forma estável.
As consequências para a economia e a urgência de prevenção precoce
A tentativa de equilibrar a previdência apenas exigindo mais anos de contribuição ignora o impacto na economia real. A Dra. Tetzlaff enfatiza que “a população em idade ativa pode diminuir não apenas pelo envelhecimento demográfico, mas também pela deterioração da saúde”, o que transfere os custos para o sistema de saúde e os auxílios de incapacidade temporária.
Para conter essa crise, os especialistas defendem uma mudança radical de postura: as ações de prevenção à saúde precisam começar nos primeiros anos da vida profissional, e não apenas na fase pré-aposentadoria. Para o Brasil, torna-se urgente revisar as regras para funções de alto desgaste, adaptar os programas de ergonomia e criar redes eficazes de proteção social para os trabalhadores informais.





