A Odisséia foi lançada com um elenco de peso no mês passado. O longa adapta o clássico poema de Homero e acompanha a jornada de Odisseu para retornar a Ítaca após a Guerra de Troia, em uma montagem épica de ação e fantasia, escrita e dirigida por Christopher Nolan.
O filme foi bastante esperado pelos telespectadores, e ainda não posso falar da qualidade do longa, até porque não assisti, mas algo tem me incomodado desde os vazamentos de elenco: a onda de críticas na internet contra a escalação de atores negros na adaptação.
Essa questão traz um debate complexo sobre representatividade e fidelidade histórica, que ressurge a cada obra que ousa sair do padrão de atores brancos.
Sob o pretexto de “rigor histórico”, discursos que viralizaram nas redes sociais afirmam que não existiam pessoas negras no Mediterrâneo da época e que a presença de atores pretos em papéis de destaque feriria a “pureza” da obra homérica.
Muitos críticos disseram, por exemplo, que a atriz Lupita Nyong’o não teria nada a ver com Helena de Troia, sendo que o próprio diretor da obra, Christopher Nolan, revelou que escreveu a personagem pensando especificamente na atriz.
Historiadores e especialistas reforçam que esse tipo de revolta não se sustenta pela ciência. A ideia de uma Grécia Antiga etnicamente homogênea e exclusivamente branca é um mito construído séculos mais tarde, e que desconsidera tanto a demografia real do Mediterrâneo quanto a própria natureza da mitologia grega.
No Mediterrâneo, o conceito de “raça” nem existia
Uma das principais premissas dos críticos das adaptações é a de que a Grécia Antiga era isolada racialmente. Segundo Felipe Bartuzzo Martins, graduado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e professor do Cursinho HPlus, essa divisão geográfica e racial do mundo é uma invenção moderna.
“Do ponto de vista das relações geográficas, é consensual que noções atuais como ‘Europa’ e ‘África’ são construções ideológicas, e não apenas geográficas. O Mediterrâneo era um mar de fácil navegação e distâncias curtas, o que garantia um convívio contínuo e muito claro entre povos da Europa, do Oriente Médio (o Levante) e do Norte da África”, explica Martins.
O historiador destaca que a própria cultura grega não nasceu isolada nem “pura”, mas sim como um amálgama, uma mistura, de diversas influências culturais e étnicas, incluindo egípcios, fenícios e povos do Chifre da África. Citando o historiador Moses Finley, Martins lembra que “ser grego era uma forma de viver”, e não um pertencimento a um grupo genético fechado.
A presença de populações africanas no mundo mediterrâneo era algo comum. Rios como o Nilo e a proximidade com o Mar Vermelho permitiam a circulação de povos subsaarianos e do reino de Cuxe (na região da Núbia).
Além disso, tentar aplicar o conceito moderno de “raça”, baseado na cor da pele ou na ancestralidade genética, à Antiguidade é um erro. “Essas noções de que a cor da pele define uma relação étnica homogênea não existiam na Antiguidade. As construções coletivas da época se davam por outros parâmetros culturais e sociais, e não pela cor de pele ou genética”, pontua o especialista.
Os próprios gregos admiravam os “etíopes” na Odisséia
As conexões com o continente africano eram tão profundas que a própria linguagem e a arquitetura grega herdaram elementos de povos vizinhos. O alfabeto grego (Linear B), por exemplo, deriva do sistema fenício, enquanto o intercâmbio com os egípcios e os núbios influenciou diretamente a arte e a organização social.
A própria palavra “Etiópia” é de origem grega e era usada para descrever as populações de pele escura ao sul do Egito. E longe de serem vistos com preconceito racial, esses povos figuravam com grande prestígio na literatura homérica.
“Na própria Odisseia, no primeiro cântico, o herói Odisseu não consegue retornar para casa porque o deus Poseidon está ausente, participando de um banquete oferecido pelos etíopes. Os etíopes eram retratados como um povo que mantinha uma convivência direta e respeitada pelos próprios deuses gregos”, aponta o professor Felipe.
Mito não é documento histórico
Outro equívoco frequente nos ataques às adaptações do cinema e da televisão é tratar poemas épicos como se fossem relatórios científicos ou reconstituições históricas.
A Odisséia e a Ilíada nasceram da tradição oral, eram cânticos com métrica e ritmo repassados de geração em geração. O objetivo principal dessas narrativas mitológicas não era retratar a realidade com precisão documental, mas transmitir lições morais e comportamentais para a sociedade da época.
“Falar sobre mitologia é falar sobre formas de crença e valores. A perspectiva fundamental de um mito é normatizar padrões de comportamento e dar um acabamento moral para a sociedade. Não existe o intuito de precisão de acontecimentos. A tentativa de registrar o passado com rigor só começa muito depois, com historiadores como Heródoto, entre os séculos V e IV a.C.”, esclarece Martins.
Portanto, cobrar “rigor documental” sobre o biotipo ou o fenótipo de personagens mitológicos em uma obra de ficção é ignorar a própria função do mito.
No fim, a revolta com as escolhas de elenco não tem nada a ver com contexto histórico
Se a história e a literatura não justificam a revolta contra a presença de atores negros na Odisseia, o que explica tamanha comoção nas redes sociais?
Para o historiador da USP, a resposta está na política do presente. Em termos acadêmicos, utilizar conceitos e preconceitos do presente para julgar ou rotular o passado é chamado de anacronismo.
“Essa visão de embranquecimento da cultura grega tem a ver com a construção do ‘mundo ocidental’, que passou a enxergar a Grécia como o berço de uma civilização europeia branca, criando um argumento de superioridade”, analisa Felipe.
Ele aponta que discursos de extrema-direita e grupos conservadores costumam instrumentalizar essa visão romantizada do passado para defender noções de “pureza cultural” e reagir contra a escalação de atores negros e periféricos no cinema hegemônico.
“Quando atores e atrizes que não entram no estereótipo esperado por esses grupos são escalados, cria-se toda essa comoção. Eles se escondem atrás de um suposto ‘rigor de recriação’, mas a verdade é que essas pessoas não entenderam o intuito da mitologia ou, de forma deliberada, estão tentando distorcê-la para sustentar argumentos políticos atuais”, conclui o historiador.
O racismo se manifesta de muitas formas na sociedade moderna
Geralmente, essa defesa intensa da “fidelidade da obra” não passa de racismo, já que, para essas pessoas, as modificações só parecem necessárias quando dizem respeito a pessoas racializadas.
O caso do live-action de A Pequena Sereia ilustra a mesma contradição: críticos exigiam uma atriz branca para manter a “fidelidade”, ignorando que sereias são seres mitológicos e que o próprio desenho da Disney já havia alterado radicalmente o conto original de Hans Christian Andersen.
Licenças poéticas, figurinos anacrônicos e efeitos visuais absurdos raramente incomodam esse público; a revolta só ganha força quando corpos fora do padrão ocupam papéis de protagonismo.






