Depois de estrear em fevereiro no Sesc Avenida Paulista, “Autobiografia do Vermelho” se prepara para uma nova temporada em São Paulo.
Inspirado no romance homônimo da escritora canadense Anne Carson, o espetáculo protagonizado por Bianca Comparato será apresentado entre 14 de agosto e 27 de setembro no Teatro YouTube, localizado na Galeria Magalu, no Conjunto Nacional. As sessões ocorrem às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h. Os ingressos custam a partir de R$ 60 e podem ser adquiridos através da plataforma Eventim.
Mito de Gerião
A montagem transporta para os palcos a obra que combina romance e poesia ao revisitar, de maneira contemporânea, o mito grego de Gerião.
Figura da mitologia greco-romana, Gerião é um gigante conhecido por sua representação com três cabeças e por protagonizar um dos episódios mais famosos envolvendo Hércules.
Filho de Crisaor e Calírroe, ele vivia em Erítia, a “ilha vermelha”, uma das lendárias ilhas das Hespérides, localizada no extremo oeste do mar Mediterrâneo, região que estudiosos associam ao sul da atual Espanha, nas proximidades de Cádis. Segundo o mito, Hércules precisa roubar o rebanho de Gerião como parte de um de seus doze trabalhos.
Fuga da narrativa clássica
Ao invés de seguir uma narrativa clássica, a história de “Autobiografia do Vermelho” apresenta um romance de formação ambientado no meio-oeste dos Estados Unidos, propondo uma releitura do personagem mitológico a partir de questões ligadas à identidade, ao desejo e à construção de si.
A dramaturgia é assinada por Gabi Costa, Daniela Thomas e Bianca Comparato, que é também a protagonista, enquanto a direção fica a cargo de Daniela Thomas. O espetáculo também reúne direção de movimento de Malu Avelar, cenário concebido por Daniela Thomas e direção musical de Lello Bezerra, responsável ainda pela trilha sonora original, executada ao vivo durante as apresentações.
‘Me lanço nesse abismo sem medo de erra’, diz Bianca Comparato
Para Bianca Comparato, o caráter provocador da obra foi determinante para aceitar o desafio.
Encontre o que você ama e deixe isso te matar. Quem disse isso foi Bukowski. E, talvez, seja o que mais me atraiu a fazer a peça. Me lanço nesse abismo de sete personagens, sem medo de errar. Aprendi com a Carson a errar deliberadamente, ela erra deliberadamente, inventa, engana. Este projeto é para mim maravilhosamente perturbador, afirma a atriz.
Daniela Thomas conta que seu primeiro contato com o livro ocorreu durante a preparação para dirigir Bianca Comparato na gravação do audiolivro da obra.
Segundo a diretora, a leitura imediatamente a reconectou ao universo do teatro experimental nova-iorquino do fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, período em que viveu nos Estados Unidos e acompanhou de perto grupos como Mabou Mines, Wooster Group e Living Theater, além de artistas como Sam Shepard, Laurie Anderson, Richard Foreman, Jeff Weiss e Spalding Gray.
Ao longo da leitura, Daniela percebeu que o Gerião do mito clássico havia sido transformado por Anne Carson em um jovem norte-americano solitário, vivendo justamente no cenário que marcou sua formação artística. Essa descoberta, segundo ela, motivou a adaptação do romance para os palcos como uma homenagem àquela tradição teatral que influenciou sua trajetória.
Detalhes da trama
Na peça, Gerião parte da Gerioneida, poema lírico narrativo escrito por volta de 650 a.C. pelo poeta grego Estesícoro, cujos fragmentos foram encontrados apenas em 1967, no Egito. A encenação mistura esses registros da obra original com a recriação proposta por Anne Carson, além de intervenções desenvolvidas por Bianca Comparato e Daniela Thomas.
A narrativa acompanha Gerião, um menino que também é um monstro vermelho com asas, enquanto escreve sua autobiografia desde os cinco anos de idade.
Ao crescer, ele tenta escapar da violência do irmão e da incapacidade da mãe de protegê-lo, encontrando refúgio tanto na escrita quanto no relacionamento com Hércules. Quando o jovem reaparece anos depois, Gerião é levado a revisitar antigas dores e embarca em uma jornada marcada por paisagens vulcânicas e pela força de uma paixão obsessiva.
Entre elementos fantásticos e questões profundamente humanas, “Autobiografia do Vermelho” constrói um retrato sensível sobre identidade, pertencimento e aceitação.
A obra propõe uma reflexão sobre o que significa ocupar um lugar à margem, transformando o “monstro” em protagonista e deslocando para o centro da narrativa aqueles que tradicionalmente permaneceram nas bordas dos mitos clássicos.
Reconhecido internacionalmente, o romance de Anne Carson foi eleito um dos livros notáveis do ano pelo The New York Times e figurou entre os finalistas do National Book Critics Circle Award. A autora também entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a receber o T. S. Eliot Prize.
Leitura contemporânea
Ao reinterpretar o mito de Gerião, Anne Carson propõe uma leitura contemporânea em que a monstruosidade deixa de ser entendida como deformidade para se tornar uma metáfora da diferença.
A partir dessa perspectiva, o espetáculo também se estrutura sobre uma ética que acolhe aquilo que escapa aos padrões, abrindo espaço para personagens e experiências que desafiam a lógica heteronormativa e o olhar dominante.
A adaptação preserva a essência da obra ao abordar temas como amor, desejo, morte e autoconhecimento, sem oferecer respostas definitivas. Ao invés disso, convida o público a percorrer um território onde mito e realidade se entrelaçam, permitindo múltiplas interpretações sobre identidade, destino e a possibilidade de imaginar novos futuros.
Essa proposta também se reflete nos bastidores da produção. A equipe reúne majoritariamente mulheres e destaca, em posições de protagonismo, mulheres, pessoas negras e integrantes da comunidade LGBTQI+, reforçando o compromisso do espetáculo com a pluralidade e a diversidade presentes em sua criação.
Para quem gosta de teatro, não deixe de conferir que um musical inspirado em história real abre nova fase do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo.
Serviço – “Autobiografia do Vermelho”
- Onde? Teatro YouTube – Av. Paulista, 2073 – Bela Vista, São Paulo
- Quando? De 14 de agosto a 27 de setembro; sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h
- Quanto? R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada)








