‘A novela é a maior vitrine que a gente tem’: João Victor Gonçalves, o Mau Mau de ‘Quem Ama Cuida’, celebra estreia em trama das nove

Em entrevista exclusiva à Gazeta, João Victor Gonçalves abre o coração sobre a estreia na TV Globo e os bastidores da novela 'Quem Ama Cuida'

João Victor Gonçalves abre o coração sobre estreia em novela das nove: "Eu não conseguia ser outra coisa a não ser ator". Foto: Ieda Ribeiro

João Victor Gonçalves abre o coração sobre estreia em novela das nove: "Eu não conseguia ser outra coisa a não ser ator". Foto: Ieda Ribeiro

Da infância em frente à televisão assistindo novelas com a família aos estúdios da TV Globo, o ator João Victor Gonçalves, de 24 anos, vive um dos momentos mais importantes de sua carreira.

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Após uma breve participação em “Dona de Mim”, o jovem, que se dedica às artes cênicas desde muito cedo, encara seu primeiro papel de destaque em uma novela das nove, interpretando Maurício, o Mau Mau, irmão da protagonista Adriana (Letícia Colin) em “Quem Ama Cuida”, folhetim de Walcyr Carrasco e Claudia Souto.

Na trama, o personagem, que na primeira fase da novela aparece como um adolescente e, após a passagem de tempo de seis anos, já é um jovem adulto, assim como João, vive um delicado processo de descoberta da própria sexualidade, mas acaba sendo reprimido pelo avô Otoniel (Tony Ramos), que não aceita sua forma de se comportar.

Em entrevista exclusiva à reportagem da Gazeta, João relembra o caminho até a televisão, fala sobre a rotina de gravações, o aprendizado ao lado de grandes nomes da dramaturgia, como Tony Ramos e Isabela Garcia, e comenta os desafios de dar vida a Mau Mau, um personagem que tem gerado identificação e debates entre os telespectadores. 

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Descoberta como ator e sonho de fazer novela

Paulista, João iniciou sua formação artística aos nove anos, período em que ingressou na Companhia Profissional de Teatro da Oficina dos Menestréis, onde permaneceu estudando por mais de uma década, porém, apenas no final do ensino médio percebeu que queria realmente seguir a carreira de ator.

Sempre trabalhei com teatro. Mas, ainda assim, era um trabalho que eu não via como trabalho, sabe? Eu não me enxergava como ator. Eu não conseguia olhar pra pessoa e falar assim, ah, eu sou ator. Não, pra mim era difícil falar isso, acho que por conta da construção da sociedade mesmo. Mas, lá no final do ensino médio, quando eu entrei na faculdade de Rádio e TV, eu entendi: Eu sou ator mesmo, eu quero estar nesse lugar.

Antes de receber sua primeira oportunidade na TV Globo, João já havia feito alguns outros trabalhos para o audiovisual. Em 2021, o ator foi protagonista da série “Mila no Multiverso” (Disney+ e Disney Channel) e, no cinema, participou do longa “Nicole: A Primeira Fome”. Mas, para ele, que cresceu assistindo com a família novelas como “Avenida Brasil”, participar de uma trama das nove sempre foi um sonho.

“A novela vem muito como uma vitrine, como uma oportunidade, né? Todo ator, quando pensa em crescimento, cai na novela. Eu acho que é a maior vitrine que a gente tem, é o lugar que mais alcança gente e realmente apresenta o ator pro mercado. Os grandes atores que a gente acompanha, que vão pra Cannes, pro Oscar, grande parte deles veio do teatro, foi pra novela, fez o nome na novela, e aí, depois, passou pro cinema”, opina.

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Formado também em Rádio e TV, João têm uma ampla visão sobre como funcionam os bastidores das produções audiovisuais, o que dá a ele um diferencial se comparado a outros profissionais que, por vezes, não compreendem os processos necessários para que uma gravação ocorra, por exemplo.

“Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Por que é bom? Eu entendo todas as burocracias, eu entendo que nada é tão simples quanto a gente acha que é. Eu entendo toda a importância do horário, tem muito ator que atrasa demais. Eu entendo que é muito importante cada segundo no set, cada atenção é preciosa. Então, como aprendi sobre todas as áreas, eu consigo ter um cuidado que faz a diferença no set, e isso é incrível. Mas, às vezes, eu entro num lugar de julgamento que não é bom pro ator. Eu começo a tentar enxergar a cena de fora com um olhar de direção, e aí isso acaba, às vezes, me bloqueando. Aí eu tenho que me desligar disso pra ouvir o que o diretor verdadeiro da cena tá desejando”, explica.

Sobre a possibilidade de dirigir algum trabalho, João acredita que está em um outro momento de sua carreira: “Agora é meu momento de atuar. Eu gosto muito do estudo da cena, então, se eu fosse embarcar amanhã num projeto, eu não embarcaria num lugar de direção, eu embarcaria num lugar de preparação de elenco, talvez, e atuação.”

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Entrada na Globo e oportunidade no horário nobre

Com exclusividade para a Gazeta, João conta detalhes de como foi o seu processo de entrada na TV Globo. Ele explica que, há cerca de quatro anos, fez seu primeiro cadastro de elenco na emissora e começou a entrar em contato com produtores e enviar material para avaliação.

“Nesse período eu comecei a me mostrar pra eles, pra eles verem que eu existo. Eu pensava: Eu tô aqui, me conheçam, conheçam meu trabalho. E isso foi até o ano passado, que foi minha primeira participação aqui na Globo, em ‘Dona de Mim’, e foi legal porque eu tava viajando, eu tava fora do País, e eu cheguei da Itália numa quarta-feira. No mesmo dia, um produtor me ligou e falou assim. ‘você pode fazer uma participação amanhã na novela Dona de Mim?’ Eu tinha acabado de chegar de viagem, eu tava no aeroporto, uma loucura, eu falei: ‘Claro, posso’. Aí, deixei as malas em casa, peguei um ônibus, vim pro Rio, fiz a participação na quinta-feira, o dia todo, depois voltei pra São Paulo, e esse foi o meu primeiro contato com a emissora.”

Depois de três meses, João estava no Rio de Janeiro para o aniversário de uma amiga e decidiu entrar em contato com um produtor de elenco da Globo para renovar seu material, que consiste em fotos e vídeos do ator interpretando, normalmente monólogos, para que a emissora possa, quando está em busca de elenco, ver se o seu perfil se encaixa com algum personagem.

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“Eu falei: ‘Lauro [produtor], queria atualizar meu cadastro, você tem um texto pra me mandar?’ Ele logo respondeu que tinha e pediu pra eu vir na Globo pra gente gravar o cadastro juntos. Durante essa gravação do cadastro, ele falou que tinha um personagem pra uma novela, não me falou qual novela que era, não me falou qual personagem que era, explicou mais ou menos como seria, e disse: ‘Vamos gravar esse mesmo monólogo, que você tá gravando pro cadastro, só que uma versão pensando nesse personagem. Então foi ali na hora, no improviso, eu não sabia ainda que era um teste pro Mau Mau”, revela.

Dois meses depois desse dia, em novembro de 2025, João recebeu uma ligação que mudaria para sempre sua carreira:

Eu estava na academia, nunca vou esquecer desse momento, eu estava fazendo abdominal. Começa a tocar meu telefone, eu vejo que tem uma mensagem do Felipe Aguiar [produtor de elenco], começa a Dani Simonelli me ligar, eu falei, gente, o que tá acontecendo? Que mundo é esse que eu tô vivendo? Parei meu abdominal [rs], e aí ela me falou: ‘Olha, João, a gente viu o seu teste..’ E eu: ‘mas que teste, Dani? Eu não fiz teste nenhum, eu gravei um monólogo.’ Ela: ‘Então, aquilo era um teste’ Eu falei: ‘Meu Deus, como assim eu não sabia que isso já era um teste, pelo amor de Deus.’ Ela: ‘Então, a gente gostou e aí eu tô te convidando pra fazer a novela das nove, do Walcyr Carrasco, vai ser um personagem super legal. E aí, na hora, eu topei, assim, sem pensar em nada.

Assim, João arrumou suas malas e se mudou para o Rio de Janeiro, já que as gravações de “Quem Ama Cuida” começariam em janeiro. “E foi assim, foi sem querer, foi do nada, foi uma surpresa incrível.”

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‘Temos uma conexão de família’: João fala sobre relação com elenco

Em “Quem Ama Cuida”, o personagem de João, Maurício, apelidado de Mau Mau, é filho de Elisa (Isabela Garcia), irmão da protagonista Adriana (Letícia Colin) e neto de Otoniel (Tony Ramos). Com esse núcleo forte na trama, o ator fala sobre a experiência de, logo em seu primeiro trabalho na emissora, contracenar com grandes nomes da teledramaturgia. 

“Contracenar com esses atores é uma aula diária. Eu fui super bem recebido por todo mundo, pelo meu núcleo e por todos os núcleos. O Tony, a Isabela e a Letícia, além de atores maravilhosos, que não tem nem o que falar, todo mundo sabe que eles são incríveis profissionalmente, eles são pessoas muito generosas, muito cuidadosas, eles abraçam a gente, eles me abraçaram de uma forma incrível. Eu me sinto em casa. Toda vez que eu sinto falta de casa, porque aqui no Rio a gente acaba ficando muito sozinho, aí toda vez que eu sinto falta de São Paulo, eu sei que eles estão ali, que temos uma conexão de família, sabe?”

Na trama, Adriana leva a culpa por um crime que não cometeu e uma das cenas que mais emocionou o público foi a do momento em que Mau Mau conta para a mãe, que é uma mulher mais frágil e doente, que a irmã foi injustamente condenada. 

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“Nesse tipo de cena mais forte, para o ator conseguir passar essa verdade, ele tem que viver aquela cena, ele tem que estar entregue àquilo. Então, a nossa direção da novela, toda a equipe e o Théo [preparador de elenco], que acaba preparando a gente muito pra essas cenas, tornam o ambiente um ambiente seguro, para que a gente consiga adentrar e mergulhar na cena. Claro que fazer uma cena com Isabela Garcia deixa tudo muito mais simples, porque ela é muito verdadeira em todos os momentos, você nunca dúvida dela”, explica.

Para essa cena em especial, o ator conta que ficou nervoso, principalmente porque eles não assistem aos takes na hora em que são gravados, isso ocorre apenas quando a cena vai ao ar.

“Eu estudei bastante pra estar com o texto bem dentro da cabeça, mas sabendo que o texto ali não era o mais importante. O mais importante era aquele sentimento interno. E aí eu falei: ‘Cara, eu preciso ver, será que deu, será que deu essa dor que eu estava sentindo na hora?’ Porque é isso, às vezes a gente sente, mas a câmera não pega. Só que eu percebi que deu, deu pra sentir, eu senti, a câmera sentiu, a Belinha [Isabela Garcia] sentiu.”

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Autodescoberta e homofobia

No folhetim, Mau Mau vêm apresentando uma das histórias mais delicadas e importantes sobre autodescoberta e identidade da teledramaturgia atual.

Ao longo dos capítulos, e principalmente agora, na segunda fase da novela, que começou na última segunda-feira (6/7), o personagem vive um processo de descoberta de sua sexualidade e lida com a homofobia internalizada que parte, muitas vezes, de dentro da própria casa, já que seu avô, Otoniel, costuma reprimir a forma como o jovem age, defendendo, inclusive, que ele não pode cozinhar, porque “isso não é coisa de homem”, e mandando ele “abaixar as asas” enquanto fala.

Com vivências pessoais muito diferentes das que seu personagem enfrenta, João revela que, para ele, o maior desafio é poder sentir a dor das pequenas agressões que Maurício sofre do avô.

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A minha relação com a minha sexualidade é muito diferente, então eu não tenho essa referência de sentimento dentro de mim. Por isso, eu tenho que buscar em outros lugares, né? Tenho que fazer pesquisas, ler coisas sobre outras pessoas, ler depoimentos. Ver o que as pessoas do outro lado da tela sentem. Depois que começou a novela, eu já recebi muitos relatos no meu direct, e todo mundo que me manda esses relatos é um material de estudo valioso para mim.

Sobre os depoimentos que recebeu dos telespectadores, um ficou mais marcado na memória de João. “Eu recebi um relato da filha de uma tia e isso me marcou bastante. Ela é uma menina lésbica e me contou que os pais não aceitavam, eram como o Otoniel, quiseram proibir ela de frequentar a casa deles. Ela fez um relato que pra mim foi difícil de olhar e falar, caraca, tão perto, né? Parece que não acontece com ninguém perto da gente, mas tá acontecendo muito perto de mim. E ainda tem gente que passa por isso.”

O ator reflete ainda sobre a relação de Mau Mau e Otoniel, destacando que a homofobia, muitas vezes, parte de dentro de casa e defendendo que, apesar de tudo, o personagem de Tony Ramos não é uma pessoa genuinamente má.

“Eu enxergo o Otoniel como um homem retrógrado. Eu acho que é o que a gente tem visto muito atualmente no Brasil. Muitas pessoas que têm uma ideia e uma verdade única sobre o que é bom pra outro. Otoniel ama o Mau Mau, ele ama muito, ele tem muito medo de que o mundo seja cruel com esse garoto, que é o que geralmente as pessoas falam, né? ‘Não tenho medo aqui dentro de casa, tenho medo do que vão fazer com vocês na rua.’ Então, sim, o Otoniel é homofóbico, mas essa homofobia é uma homofobia estrutural, não é uma homofobia do homofóbico que é mau. E é super problemático isso, porque ele vive num momento em que ele tem que se transformar, ele tem que mudar.”

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Na segunda fase da trama, essa cobrança do avô vêm de uma forma muito mais forte, já que o personagem está mais velho, tendo mais ou menos a mesma idade de João, e Maurício vai passar por poucas e boas, garante o ator.

Mas eu acredito que o Mau Mau vai ser feliz. Não li ainda se vai, porque a gente não tem todos os capítulos, mas eu tenho fé que sim, que ele vai transformar esse avô, e que muitas pessoas que assistem vão assistir vão falar: ‘Caraca, eu sou igualzinho ao Otoniel, então também preciso mudar’. Eu quero muito que isso aconteça.

‘Quero que o Mau Mau seja feliz’

Desde a estreia de “Quem Ama Cuida”, o público vêm criando teorias sobre um possível romance entre Mau Mau e Felipe, personagem de Pietro Antonelli. Para a Gazeta, João revela que ainda não sabe se isso acontecerá ou não. 

“Não sei ainda, a gente também não tem essa informação. Mas o Walcyr e a Claudia acompanham muito o que tá rolando na internet,então quem sabe. Só que tem coisas que a gente primeiro vê na imprensa e depois a gente recebe e descobre se é verdade ou mentira. Hoje mesmo, eu tava lendo uma notícia e tava dizendo, mudança de trama, Mau Mau não terá mais romance com o Felipe. Eu falei, ué, mas peraí, mudou que nem tava escrito, mas tudo bem [rs]. Agora, segundo a notícia, o Mau Mau vai ter um romance com o Fernando, o personagem do Pedro Alves. Eu não estou sabendo de nada.”

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Porém, apesar de não saber ainda o futuro do seu personagem, João conta que gostaria de satisfazer a vontade do público: “Eu acho que seria muito legal, porque se é uma coisa que o público quer, poxa, vamos tentar construir isso. Mas, com quem quer que seja, o importante pra mim é que o Mau Mau seja feliz.”

Conexão de Mau Mau e Adriana

Na trama das nove, após passar seis anos na prisão condenada por um crime que não cometeu, Adriana será uma pessoa diferente e com desejo de vingança. A raiva que nutriu por anos na cadeia causará preocupação em seu avô, Otoniel e em sua mãe, Elisa. Já o irmão, Mau Mau, apoiará a decisão da mocinha de se vingar.

“O Mau Mau e a Adriana têm essa conexão muito forte. Então, se ela falasse assim, Mau Mau, não quero me vingar, o Mau Mau faria, ok, não vamos vingar. Agora, se ela falar, vou me vingar, o Mau Mau vai todos os dias acordar pensando nessa vingança. Porque ele faz tudo pela irmã, então com certeza ele vai se juntar à ela pra se vingar”, diz João.

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Por fim, João Victor Gonçalves deixa uma mensagem para a sua versão mais nova:

João, continua fazendo exatamente tudo o que você tá fazendo, sendo exatamente a pessoa que você é, porque isso vai te levar a lugares que você não imagina e você só vai chegar nesses lugares porque você é quem você é. E por você ser você, você vai chegar onde você quiser. É isso, sonha, continua sonhando.