Clube enfrentou doenças, homicidas e submarinos para jogar bola

Segundo historiador Luiz Antonio Simas, clube brasileiro enfrentou 'a maior epopeia da história da humanidade' para poder jogar futebol

Recorte da revista placar com a equipe da época; com "x", os jogadores que morreram na epopeia

Recorte da revista placar com a equipe da época; com "x", os jogadores que morreram na epopeia | Reprodução/Placar

Duas mortes, dezenas de enfermos e três meses de uma aventura arriscada Brasil adentro. Parece história de exploradores, mas os acontecimentos fazem parte do que seria uma simples excursão do Santa Cruz à Amazônia, em 1943. 

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O plano era simples: o clube pernambucano faria amistosos em cidades do Norte para voltar com uns trocados a mais no caixa. Mas a saída do Recife parecia prenunciar o que viria pela frente.

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Com a Segunda Guerra Mundial em curso, navios alemães pipocavam no litoral brasileiro. A embarcação com a equipe teve de ser escoltada às escuras pela Marinha até Belém, onde o Santa faria três amistosos. Depois dos jogos, seguiram para Manaus num navio que rebocava um batelão com alimentos.

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A viagem era para ser rápida, mas durou 15 dias – um grupo de indígenas nada simpáticos e bem armados sequestrou a tripulação para roubar a comida.

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Duas mortes

Após os jogos em Manaus, parte dos jogadores foi acometida por uma infecção estomacal das bravas. O goleiro King e o centroavante Papeira foram diagnosticados com febre tifoide no barco, que seguia de volta a Belém. Os dois atletas voltaram a entrar em campo num jogo contra o Remo. Mas viria o pior. Dois dias depois, King morreria; no dia seguinte, seria a vez de Papeira.

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Navio com homicidas

Era hora, mesmo assim, de voltar para casa. Devido à guerra, porém, o governo proibira o tráfego marítimo. Somente três semanas depois a viagem foi liberada e a delegação conseguiu se encaixar num navio para Pernambuco, com escala de quatro dias em São Luís.

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Com pouco dinheiro, os jogadores viajaram de terceira classe, ao lado de 35 perigosos homicidas deportados para o Maranhão.

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Submarinos no caminho

Em São Luís, o clube se viu obrigado a entrar em campo para levantar alguma grana. Até o cozinheiro teve de vestir camisa de titular para compensar as baixas. Jogo feito, zarparam rumo ao lar, doce lar. Só que, quase no litoral do Ceará, o comandante recebeu a notícia de que submarinos alemães impediriam a passagem, e decidiu retornar ao Maranhão.

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Os exauridos jogadores resolveram então voltar para casa por terra, pegando carona num trem de carga até Teresina – que atrasou a viagem por descarrilar duas vezes. Na capital do Piauí, fizeram um amistoso em troca de comida.

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Um dos jogadores foi esfaqueado na zona do meretrício. Só então entraram num ônibus até Fortaleza, de onde conseguiram, enfim, chegar a Pernambuco, dando fim à aventura.

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O historiador Luiz Antonio Simas não tem dúvidas: “Para mim, é a maior epopeia da história da humanidade”. Não é para menos.