Deputados de SP blindam bolsonarista que xingou o papa, e Igreja cobra punição

Os aliados têm boicotado a votação da proposta de pena de três meses de afastamento do mandato

O deputado Frederico d'Avila (PSL)

O deputado Frederico d'Avila (PSL) | José Antonio Teixeira/Alesp

Deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo vêm blindando o parlamentar bolsonarista Frederico D’ávila, que chamou o papa Francisco, um arcebispo e outros religiosos católicos de “pedófilos”, “vagabundos” e “safados”.

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Os aliados têm boicotado a votação da proposta de pena de três meses de afastamento do mandato.

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O Conselho de Ética da Casa aprovou a suspensão do deputado em fevereiro. O plenário da Assembleia, porém, ainda precisa aprovar projeto de resolução para a perda temporária de mandato com um mínimo de 48 votos –há na Casa um total de 94 deputados.

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O caso que parecia se encaminhar para a suspensão do deputado tem se arrastado desde então. Houve falta de quórum em cinco sessões onde havia previsão de votação da suspensão —as últimas duas ocorreram na quarta-feira (7).

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O deputado argumenta que há ilegalidades no processo. A demora causa indignação em parte dos deputados e já gerou até cobrança por parte da Igreja Católica.

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As declarações de D’Ávila ocorreram em outubro do ano passado, motivadas por discurso do arcebispo de Aparecida (SP), dom Orlando Brandes.

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Antes de visita do presidente Jair Bolsonaro ao local, o arcebispo pregou: “Vamos abraçar os nossos pobres e também nossas autoridades para que juntos construamos um Brasil pátria amada. E para ser pátria amada não pode ser pátria armada”.

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O religioso fez alertas sobre o armamento da população, o discurso de ódio e as notícias falsas e defendeu a ciência e a vacinação contra o coronavírus.

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No mesmo dia, mas à tarde, Bolsonaro esteve no Santuário Nacional de Aparecida, onde foi recebido com aplausos e vaias e ouviu um outro sermão com referências à situação atual do país, incluindo o desemprego e a pandemia.

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O deputado, então, atacou a conduta de Brandes.

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“Seu vagabundo, safado, que se submete a esse papa vagabundo também. A última coisa que vocês tomam conta é do espírito e do bem-estar e do conforto da alma das pessoas. Você acha que é quem para ficar usando a batina e o altar para ficar fazendo proselitismo político? Seus pedófilos, safados. A CNBB é um câncer que precisa ser extirpado do Brasil”, disse em discurso.

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Dias depois, o bolsonarista pediu desculpas pelo “excesso” no pronunciamento “inflamado por problemas havidos nos dias anteriores”.

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O presidente da Assembleia, Carlão Pignatari (PSDB), também pediu desculpas, em nome da Casa, ao papa e ao arcebispo. Disse que repudia palavras que extrapolem “os limites da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar”.

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O caso foi levado ao Conselho de Ética, após representações de quatro parlamentares. O relatório de Marina Helou, prevendo a perda de mandato e da titularidade do gabinete e subsídio, acabou aprovado.

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Um dos autores dos requerimentos contra D’Ávila, Paulo Fiorilo (PT) reclama da falta de coragem dos colegas que não aparecem para votar a favor ou contra.

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“É inadmissível que deputados não compareçam às sessões para votar se escondendo atrás da ausência. É preciso ter coragem tanto para assumir a decisão do conselho ou para rejeitá-la”, diz.

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“O que não pode é a Assembleia continuar sangrando em praça pública por conta de um deputado que foi irresponsável com o papa, com o bispo e CNBB.”

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Carla Morando (PSDB), que também representou contra o bolsonarista, faz coro às críticas. “É triste a gente ver que os trabalhos não andam porque eles fazem obstrução. A gente percebe que tem uma obstrução grande, falta de quórum”, diz.

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Para ela, por exemplo, a postura contrasta, por exemplo, com o tratamento dado ao processo de cassação de Arthur do Val (União Brasil), por frases sexistas contra ucranianas.

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“Independentemente de o deputado Frederico D’Ávila ter um relacionamento melhor [na Casa], ele foi totalmente desrespeitoso e agiu com falta de decoro nítido.”

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Na última sessão para avaliação do caso, a maioria dos deputados obstruiu, havendo apenas 34 parlamentares, de acordo com a verificação de presença.

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O boicote à votação ocorre por integrantes de diversos partidos, com adesão em peso de siglas com presença bolsonarista como PL, Republicanos e PP, entre outros. A reportagem procurou lideranças dessas siglas, mas não obteve resposta.

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Janaína Paschoal (PRTB) é uma das parlamentares que critica a punição a D’Ávila e diz que o caso não é tão simples como parece.

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“O colega, que exorbitou com toda certeza, se manifestou na tribuna, onde tem absoluta imunidade. Posteriormente, ele se retratou. Na condição de líder da bancada que ele integrava, à época, eu pedi desculpas pela bancada”, diz Janaína.

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A deputada diz ainda que não caberia a suspensão de todo o gabinete de D’Ávila e que propôs poupar os funcionários, com a punição limitando-se ao deputado. “Houve uma certa intransigência no caso dele, talvez em virtude de ser muito crítico ao governo. Ademais, a perda de mandato temporária é prevista para casos de reincidência e ele não é reincidente.”

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Frederico D’Ávila acusa o processo de ser cheio de ilegalidades. “Trata-se de votação de cunho ideológico pelo fato de estarmos alinhados à gestão do governo federal. Tentam, de forma arbitrária, cassar um mandato legítimo por fato já exaustivamente tratado e resolvido”, afirmou, em nota.

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O parlamentar afirma ainda que o Ministério Público entendeu que não houve crime, pedindo o arquivamento do caso. Em março, porém, o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou pedido de liminar do deputado para suspender o processo instaurado contra ele.

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A demora já gera movimentações da Igreja.

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No início do mês, o cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, enviou ofício à Assembleia em que afirma acompanhar o caso “com atenção” e que acompanha com “a confiança de que a gravidade daquela manifestação infeliz seja devidamente considerada pelo Legislativo paulista no discernimento sobre as medidas a serem tomadas”.

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Procurado pela Folha, ele enviou nota com teor parecido, citando os “ataques desrespeitosos injustificados e do discurso de ódio” e que as palavras não agridem apenas os religiosos como “a dignidade do cargo e a liberdade religiosa, garantidas pela Constituição Federal e pelo princípio de laicidade do Estado brasileiro”.