Localizada no arquipélago de Andaman e Nicobar, no Oceano Índico, a Ilha Sentinela do Norte abriga uma das comunidades mais enigmáticas do planeta.
Conhecidos por sua hostilidade extrema a estrangeiros, os sentineleses vivem em isolamento quase total, protegidos por leis rigorosas que tentam evitar o que especialistas chamam de “ameaça existencial” à tribo.
A ilha voltou aos holofotes após o norte-americano Mykhailo Viktorovych Polyakov, de 24 anos, ser detido pelas autoridades indianas em março por desembarcar no local sem autorização.
O perigo dos ‘influenciadores’ e o caso recente
Detido na ilha, Mykhailo Viktorovych Polyakov era descrito como parte de uma onda de “influenciadores” que buscam aventura em áreas proibidas. Ele chegou a registrar sua jornada e deixou objetos na praia, como um coco e uma lata de refrigerante.
Para organizações de direitos indígenas, como a Survival International, tais incursões são “profundamente perturbadoras”. Além do risco físico óbvio, essas visitas representam um perigo biológico: por estarem isolados há milênios, os indígenas não possuem imunidade contra doenças comuns, como gripe ou sarampo, o que pode dizimar toda a população em pouco tempo.
Como vivem os sentineleses?
Embora a ciência não saiba muito sobre o grupo, os detalhes descobertas são fascinantes.
- Origem: acredita-se que tenham migrado da África há cerca de 60.000 anos;
- Estilo de vida: são uma das últimas tribos de caçadores-coletores do mundo, vivendo da caça na floresta e da pesca;
- População: estimativas variam drasticamente, entre 50 e 200 indivíduos, já que um censo exato é impossível;
- Idioma: falam uma língua única, incompreensível até para tribos vizinhas do mesmo arquipélago.
Um histórico de resistência letal
Desde 1956, uma lei indiana proíbe a aproximação a menos de cinco milhas náuticas da ilha/Indian Coastguard/Survival InternationalA postura da tribo é clara: eles não querem contato. Em 2018, o missionário norte-americano John Allen Chau foi morto a flechadas após subornar pescadores para levá-lo à ilha.
Relatos históricos mostram que essa resistência é constante: em 1974, um cineasta da National Geographic foi ferido na perna por uma flecha, e em 2004, após o tsunami que devastou a região, os sobreviventes dispararam flechas contra helicópteros da guarda costeira que tentavam verificar se eles precisavam de ajuda.
O litoral paulista também guarda uma das ilhas mais perigosas do planeta, localizada entre Itanhaém e Peruíbe.
Por que a ilha é protegida por lei?
Desde 1956, uma lei indiana proíbe a aproximação a menos de cinco milhas náuticas da ilha. A Marinha e a Guarda Costeira realizam patrulhas constantes para interceptar curiosos e pescadores ilegais.
Além da questão humanitária, a região possui importância estratégica. Situada na Baía de Bengala, está próxima a rotas comerciais vitais, como o Estreito de Malaca. Há projetos do governo indiano para a construção de um porto internacional de transbordo na região, o que gera críticas de ativistas que temem que o desenvolvimento econômico destrua o santuário dos sentineleses.
Especialistas e antropólogos reforçam que o desejo da tribo de permanecer sozinha deve ser respeitado para garantir sua sobrevivência física e cultural. Como afirma a jornalista da BBC Janhavee Moole, de Mumbai, aproximar-se deles “pode ser fatal”, tanto para o visitante quanto para os próprios indígenas.
