O takahē, também conhecido como tacaé-do-sul, tem uma das histórias mais impressionantes da conservação ambiental no mundo. A ave, que não voa e possui porte robusto, foi declarada oficialmente extinta em 1898.
Durante décadas, a espécie permaneceu apenas nos registros científicos, tratada como um animal perdido para sempre. Contudo, este cenário mudou em 1948, quando um pequeno grupo foi redescoberto em uma região montanhosa e de difícil acesso da Nova Zelândia.
Desde então, o takahē deixou de ser apenas um símbolo do passado e passou a representar esperança para projetos de preservação de espécies ameaçadas.
Uma ave que virou ‘tesouro sagrado’
Nativo da Ilha Sul da Nova Zelândia, o takahē é uma ave incapaz de voar, adaptada à vida no solo. Seu reaparecimento surpreendeu a comunidade científica e ganhou repercussão mundial.
O animal mede cerca de 63 centímetros e pode pesar entre 2,3 e 3,8 quilos. A plumagem verde-azulada intensa e o bico grande e forte ajudam a identificar facilmente a espécie.
Essas características fazem do takahē uma das aves mais emblemáticas do país, tanto pelo aspecto físico quanto pela sua trajetória de sobrevivência.
Para a tribo indígena Ngāi Tahu, o takahē é considerado um taonga, palavra que significa tesouro sagrado. A ave possui valor espiritual e cultural, sendo vista como guardiã das terras da região.
A relação entre o povo indígena e a espécie vai além da preservação ambiental. Ela envolve identidade, ancestralidade e respeito à natureza.
Por esse motivo, comunidades tradicionais participam ativamente das decisões relacionadas à proteção e à reintrodução do animal em áreas históricas.
Uma espécie mais antiga do que se imagina
Estudos indicam que o takahē já habitava a Terra desde o período Pleistoceno, há mais de 2,5 milhões de anos. Mesmo com essa longa trajetória, a espécie quase desapareceu em pouco mais de um século.
A caça excessiva contribuiu para o declínio populacional, mas o principal fator foi a introdução de predadores mamíferos trazidos por colonizadores europeus.
Gatos selvagens, furões e roedores passaram a atacar ovos e filhotes, comprometendo drasticamente a reprodução da ave.
O maior programa de conservação do país
Diante do risco de um novo desaparecimento, o governo da Nova Zelândia criou o programa de espécies ameaçadas mais longevo do país, coordenado pelo Department of Conservation.
O Burwood Takahē Centre funciona como o coração do projeto de recuperação da espécie. No local, filhotes são criados e treinados para sobreviver fora do cativeiro.
O centro reproduz condições semelhantes às encontradas no ambiente natural, permitindo que as aves desenvolvam comportamentos essenciais. Quando atingem maturidade suficiente, os takahēs são transferidos para santuários ou áreas de soltura definitiva.
O projeto reúne estratégias científicas, monitoramento constante e parcerias com comunidades locais para garantir a sobrevivência do takahē. Ao longo das décadas, o programa se tornou referência mundial em conservação de aves raras.
Para aumentar a população da espécie, diferentes ações foram implementadas de forma integrada.
- Criação de refúgios livres de predadores em ilhas como Mana, Kāpiti e Tiritiri Matangi;
- reprodução assistida no Burwood Takahē Centre;
- preparo de aves jovens em ambientes que simulam o habitat natural;
- solturas monitoradas em áreas históricas da espécie.
Essas medidas reduziram significativamente a mortalidade e ampliaram as chances de adaptação na natureza.
Reintrodução em áreas históricas
Além das ilhas-refúgio, grupos de aves vêm sendo soltos em regiões onde a espécie já viveu no passado, como o Parque Nacional Kahurangi e o Vale de Greenstone.
Essas solturas são acompanhadas de perto por especialistas, que monitoram alimentação, deslocamento e reprodução. O objetivo é reconstruir populações autossustentáveis a longo prazo.
Atualmente, estima-se que a população total de takahēs tenha alcançado cerca de 500 indivíduos, um número expressivo diante do risco de extinção enfrentado no século passado.
Em uma ação recente, 18 aves foram soltas em Whakatipu Waimāori, área pertencente à tribo Ngāi Tahu, reforçando a parceria entre ciência e comunidades tradicionais. O envolvimento indígena é visto como peça-chave para o sucesso contínuo do projeto.
Desafios que ainda persistem
Apesar do avanço, o trabalho está longe de terminar. Por não voarem, os takahēs continuam extremamente vulneráveis a predadores.
O controle rigoroso de armadilhas e a vigilância constante são fundamentais para evitar novas perdas populacionais.



