A história real (e surpreendente) por trás do chapéu de bruxa

Um mergulho na origem do chapéu cônico; de sacerdotes antigos a figuras mágicas do imaginário popular

A evolução do chapéu pontudo das culturas antigas à fantasia do Halloween que conhecemos hoje

A evolução do chapéu pontudo das culturas antigas à fantasia do Halloween que conhecemos hoje | Divulgação

Quando a palavra “bruxa” surge, a mente evoca imagens vívidas: vassoura, caldeirão e o icônico chapéu cônico. Este último, presente do clássico O Mágico de Oz ao filme Wicked, se tornou o símbolo mais duradouro das feiticeiras.

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Mas como esse chapéu virou sinônimo de bruxa? A resposta vai da antiguidade à moda medieval e até a perseguições religiosas.

Vestígios na antiguidade

O chapéu pontudo não é invenção moderna. Na Idade do Bronze, cocares altos e dourados decorados com símbolos astronômicos foram usados por sacerdotes, indicando poder divino.

Arqueólogos também encontraram chapéus pontudos em múmias chinesas entre os séculos IV e II a.C. Essas referências ficaram conhecidas como as “Bruxas de Subeshi” — uma prova de que o formato apareceu em sociedades milenares bem diferentes.

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Símbolo de perseguição e heresia

Uma teoria importante relaciona o chapéu cônico à marcação de hereges e perseguição religiosa. Na Idade Média, homens judeus eram obrigados pela Igreja a usar um chapéu pontudo chamado Judenhut. No século XIII, esse tipo de boné era nomeado para identificá-los.

Durante a Inquisição Espanhola, a partir de 1478, acusados de heresia ou bruxaria eram obrigados a usar chapéus altos e pontiagudos ou capuzes, conhecidos por nomes como capirote ou coroza.

Artistas como Francisco Goya retrataram figuras com esse tipo de vestimenta em pinturas como O Voo das Bruxas (1798), reforçando a imagem popular das bruxas com chapéus pontiagudos.

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Ligação com cervejeiras e o caldeirão

Na Idade Média, mulheres que produziam cerveja muitas vezes usavam chapéus pontudos. Como dominavam o uso de ervas para temperar ou medicar, a associação com poções e caldeirões se fortaleceu no imaginário coletivo.

A pesquisadora Jane Peyton destaca ao La Nación que, em muitas culturas, mulheres sábias e herbalistas eram vistas com desconfiança. A superstição as colocou no grupo das “outras”, o que reforçou a ligação das cervejeiras com bruxaria.

Por outro lado, a historiadora Laura Kounine questiona essa conexão. Ela observa que no século XVI todo mundo tinha um caldeirão, varria a casa com vassoura e usava chapéu, nem sempre pontudo ou com conotação mística.

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Kounine diz que “nas obras de arte da época, as bruxas aparecem muitas vezes sem chapéu, apenas com os cabelos soltos para simbolizar desordem moral”, relembra a historiadora ao La Nación. 

De moda feminina a conto de fadas

O primeiro registro explícito do chapéu pontudo associado à bruxaria aparece em 1693, no livro As Maravilhas do Mundo Invisível, de Cotton Mather. No entanto, Kounine ressalva que o acessório já era moda popular antes disso.

No século XVII, pinturas retratam mulheres comuns usando chapéus cônicos como parte do figurino de moda. É só a partir dos séculos XVIII e XIX que esse tipo de chapéu começa a se conectar nas obras literárias e em contos de fadas à figura da bruxa.

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Historicamente, muitas mulheres nobres, como as heroínas Cinderela e Bela Adormecida, usaram toucados inspirados no hennin, um chapéu alto usado pela aristocracia europeia.

A transposição desse acessório da moda para a iconografia das bruxas foi gradual, sem necessariamente conotação de ocultismo inicialmente.

A cor preta e os símbolos do mal

Segundo Kounine, talvez o que realmente ajudou a fixar o chapéu no imaginário como símbolo do mal seja a cor. O preto, historicamente associado ao diabo e à escuridão, tornou-se parte da iconografia bruxa porque representava mistério ou perversidade.

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Na escuridão da noite, a figura com o chapéu preto se torna indistinta. E o chapéu, por si só, parece carregar uma simbologia sombria e ameaçadora.

Ressignificação da bruxa moderna

A visão da bruxa como velha de pele verde e nariz adunco se consolidou com o sucesso de O Mágico de Oz (1939). Ao longo do tempo, entretanto, a figura foi ressignificada.

No musical e filme Wicked, a personagem Elphaba (a Bruxa Má do Oeste) ganhou profundidade e empatia. A figurinista Paul Tazewell reinterpretou o chapéu cônico para refletir a ligação de Elphaba com a natureza e sua identidade. 

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Hoje, em parte graças a movimentos feministas, a bruxa é vista como símbolo de empoderamento, rebeldia e liberdade. Para pagãos contemporâneos, o chapéu pode representar um canal de energia, e no Halloween continua sendo a fantasia preferida de muitos.