Adriana Abigail Quintana Torres acorda às 5h30 e sai antes do sol. Ela cruza a região metropolitana até o centro da Cidade do México e só volta para casa perto das 22h, depois de enfrentar horas de transporte público.
Ela trabalha 46 horas por semana no Mercado Hidalgo, no distrito de Cuauhtémoc. Para chegar lá, faz quatro baldeações e soma cinco horas diárias no deslocamento, numa rotina que também se repete para milhões de pessoas.
No fim do dia, o cansaço já começa antes do fogão acender. Entre filas, lotação e atrasos, ela tenta proteger o horário, o corpo e o pouco sono que sobra para o dia seguinte. O texto contém informações do jornal El País.
O dia começa no escuro e na pressa
Ela lava o rosto, arruma a mochila e sai agasalhada ainda de madrugada. A rua escura pede atenção, e qualquer atraso no início do caminho vira efeito dominó nas conexões seguintes.
Mesmo quando o trajeto encaixa, o relógio aperta. Ela segue com a sensação de que precisa “ganhar tempo” o tempo inteiro, porque a margem de erro é pequena para quem depende de várias trocas.
A mexicana sequer conta os gastos monetários com transporte.
Porque ela não mora mais perto do trabalho
Em Ayotla, Adriana vive em um cortiço e explica a escolha sem rodeios. “Moro aqui a vida toda”, diz, ao falar do bairro onde se sente parte do lugar e onde construiu a própria rotina.
Depois da separação, os filhos, hoje com 16 e 21 anos, ficaram com o pai. “Escolhi ficar nesta região por causa dos meus filhos, para poder vê-los e estar perto deles”, afirma.
Aluguel barato, distância cara
A conta do aluguel empurra a decisão para longe do centro. No coração da cidade, os empregos pagam melhor, mas o aluguel sobe; em Ayotla, ela paga 1.500 pesos e consegue manter o teto.
Em troca, ela paga com tempo. O caminho longo entra no orçamento e no corpo, e o deslocamento vira uma segunda jornada diária, ainda antes do trabalho começar e depois que ele termina.
Micro-ônibus e o medo que acompanha
Às 6h, Adriana pega um mototáxi por sete pesos até a avenida principal. É um trajeto curto, mas a cartilagem do joelho em mau estado limita o esforço e reduz a chance de dor no caminho.
Às 6h06, ela entra no micro-ônibus e segue em alerta. “É o fato de sair de casa de madrugada e a possibilidade de encontrar alguém que queira te assaltar”, diz, lembrando o irmão ferido por causa do celular.
Teleférico, mudanças de rota e metrô lotado
Depois de chegar a Santa Marta, ela troca de modal e segue no teleférico. O percurso já mudou por obras, porque três estações da Linha 9 ficaram fechadas, e isso altera rotas de quem depende do sistema.
Às 6h40, ela tenta descansar, mas a tensão não some. “Tento dormir. Não consigo, mas fecho os olhos porque tenho medo de altura”, conta, ainda assim escolhendo o caminho mais curto.
Chegada ao trabalho e a volta que ainda espera
Na Linha 8, filas e empurrões definem o embarque, e ela prefere o vagão reservado para mulheres e crianças. Em alguns dias, ela não entra no primeiro trem e precisa esperar o próximo passar.
Ao desembarcar perto do mercado, a exaustão já pesa. “Chego ao trabalho exausta de tanto ficar em pé”, diz, antes de encarar horas de serviço e, mais tarde, mais tempo de deslocamento até a cama.
Quando consegue chegar mais cedo, ela nota a diferença. “Hoje fomos mais rápidas do que de costume”, comenta, mas o alívio dura pouco, porque o ciclo recomeça na madrugada seguinte.
No fim, o sono fica fragmentado pela ansiedade do horário. “Às vezes acordo a cada poucos minutos durante a noite pensando que vou me atrasar.”, diz, como quem vive com o relógio sempre ligado.
