Um paraíso em meio a um mundo inóspito: essa é a imagem que muitos têm do sagrado Jardim do Éden, mas ela também se encaixa em Doggerland. Segundo estudos recentes, essa região, que hoje está completamente submersa, já foi um refúgio fervilhante de vida em meio à Era do Gelo.
Apesar de o consenso científico já estipular que houve um período em que essa grande porção marinha foi solo, ligando a Inglaterra à Europa continental, as estimativas eram de que esta fosse uma grande faixa de gelo (permafrost) e tundras congeladas, tal qual o Estreito de Bering, e não um oásis.
O que foi descoberto?
Estudo publicado na renomada revista PNAS analisou amostras de sedaDNA (DNA antigo sedimentar) de lama marinha proveniente de Doggerland. Os resultados ajudaram a desmontar a tese de que toda a região era congelada durante a Era do Gelo, pois havia genes de espécies mais condizentes com florestas temperadas.
Foram encontradas até mesmo espécies extintas, como as árvores do gênero Pterocarya, que se acreditava terem sido extintas há cerca de 400.000 anos (Foto: Wikimedia Commons)
“Encontramos evidências da presença de javalis, veados, ursos e auroques”
Robin Allaby, autor principal do artigo e pesquisador da Universidade de Warwick, ao LiveScience
Éden no inferno invernal
No universo fictício de Eduardo Spohr, ‘Filhos do Éden’, o autor descreveu um ser chamado “Deusa que Arde”, que, com seu poder, gerou um refúgio em meio à neve, onde as espécies da Terra poderiam sobreviver ao fustigo da Era do Gelo. A conclusão do estudo é que Doggerland poderia facilmente se encaixar como o lar dessa fictícia divindade.
Apesar de não ter sido abençoada por uma deusa, a região tinha uma geografia favorável, que impediu o avanço completo das massas glaciais para dentro de seu território, gerando microrefúgios onde a vida poderia não apenas sobreviver, mas também prosperar.
Segundo as análises, havia indícios de uma rica fauna e flora, com florestas temperadas repletas de olmos, carvalhos e aveleiras, além de diversas espécies animais, incluindo comunidades humanas.
“É provável que as populações tenham sido atraídas para a paisagem do sul de Doggerland durante o período Pleniglacial tardio para explorar tanto os recursos aquáticos quanto a floresta em expansão.”
citação direta do artigo
O local era lar dos auroques, maciça espécie bovina extinta no século 17 (Foto: Jürgen Hamann / Wikimedia Commons)Tal qual a Terra, o dilúvio
Porém, esse Paraíso Perdido não durou para sempre. Como sabemos, atualmente esse local se encontra a dezenas de metros abaixo do nível do mar. Conforme a glaciação acabou e as temperaturas da Terra subiram, o nível do mar se elevou e engoliu toda a região em um gigantesco tsunami, sepultando-a sob suas águas.
Apesar de Doggerland ter sido sepultada de forma natural, existem locais que foram sepultados por submersão por ações humanas, como é o caso da cidade de Petrolândia, no Brasil.
Outra consequência do estudo foi a descoberta de que a “morte” de Doggerland, como era conhecido, não aconteceu há seis mil anos, mas sim mil anos depois, o que responde a uma dúvida frequente da comunidade científica: “Como a Europa se recuperou tão rápido da Era do Gelo?”
Doggerland pode ser uma resposta, pois ali havia diversos microrefúgios fervilhando de vida. Conforme as camadas de gelo foram desaparecendo, as massas animais e vegetais protegidas nesse refúgio foram capazes de migrar para as áreas anteriormente congeladas, repovoando lentamente a Europa.
Comparação da situação geográfica em 2000 com a maior extensão da camada de gelo Weichseliana-Würm (Foto: Juschki / Wikimedia Commons)





