Quem viu The Last of Us conhece a ideia de um fungo capaz de tomar o corpo do hospedeiro, transformando-o em um “zumbi“. Para essas pessoas, pode ser ainda mais assustador descobrir que uma nova espécie dessa família fúngica acabou de ser encontrada no Brasil. Porém, a história real é menos apocalíptica e bem mais interessante.
Batizada de Gibellula mineira, a espécie foi catalogada por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais. A nova descoberta pode abrir espaço para novas linhas de pesquisa com essa espécie intrigante, mas agora com uma espécie nativa.
Nova espécie no Brasil
A nova espécie foi encontrada em fragmentos de Mata Atlântica dentro do campus da UFV, em Viçosa. Ela infecta a aranha Iguarima censoria e entra para um grupo de fungos parasitas que alteram o comportamento do hospedeiro.
O estudo mostrou que o parasitismo teve alta presença na área observada, alcançando 25% da população de aranhas infectadas. Os exemplares mortos apareceram presos à parte de baixo das folhas, um padrão típico desse tipo de infecção, em que o hospedeiro vira uma plataforma para o fungo crescer, amadurecer e espalhar novos esporos no ambiente.
“Outro resultado que surpreendeu os pesquisadores foi que aranhas menores apresentaram maior probabilidade de serem parasitadas, um padrão inesperado que levanta novas questões sobre a dinâmica da interação entre o fungo e suas aranhas hospedeiras”
afirmou a Universidade Federal de Viçosa em comunicado.
Como esses fungos agem?
Um dos mais famosos fungos desse grupo é o cordyceps, sendo mais específico o Ophiocordyceps, graças à série de televisão The Last of Us. Assim como o gênero Gibellula, ele ataca pequenos animais (formigas), utilizando-os como seus hospedeiros marionetes.
Apesar de ainda faltarem análises mais profundas sobre o funcionamento da espécie fúngica mineira, o cordyceps já foi alvo de diversos estudos para analisar seu funcionamento. Dentre os principais, está uma pesquisa com mapeamento 3D de formigas infectadas, realizada em 2017.
Formiga infectada pelo Ophiocordyceps (Foto: Bealeiderman / Wikimedia Commons)O fungo se deposita sobre o exoesqueleto do animal; após crescer, ele penetra a cutícula e começa a se espalhar pelo interior do animal, utilizando os próprios nutrientes dele como combustível. Em seu caminho, ele preserva as estruturas nervosas, crescendo ao seu redor e espalhando o micélio por entre as fibras musculares.
Com a infecção em estágio avançado, o fungo já consegue disparar descargas eletroquímicas no sistema nervoso, assim controlando a musculatura do animal. Os pesquisadores batizaram esse comportamento de controle periférico.
A partir desse estágio, a criatura infectada não possui mais autonomia, pois seus sinais nervosos estão muito bagunçados pelo fungo. Quando a infecção for total, o parasita conduzirá o animal para algum lugar alto, como o topo de uma folha, galho ou árvore.
Nesse momento, há o chamado “aperto da morte”, documentado em estudo de 2019. Nele há uma hipercontração na musculatura da mandíbula de formigas infectadas. Ao mesmo tempo, os neurônios motores e as junções neuromusculares ainda pareciam preservados. Ou seja, todos os músculos contraem, paralisando o animal, mas sem danificar o sistema nervoso.
O cadáver se torna uma rota de dispersão do fungo por duas vias. Se deixado em repouso, o fungo cresce e começa a desenvolver um corpo de frutificação maior que libera ainda mais esporos para infectar outros animais. Porém, algum animal pode acabar comendo a formiga, o que também é benéfico ao fundo, pois os esporos serão dispersos nas fezes do predador.
O corpo de frutificação é a parte mais visível dos fungos, por onde ocorre a maior parte da liberação de esporos, as “sementes” dessas espécies (Foto: Avustfel / Wikimedia Commons)Pode infectar humanos?
A resposta curta, com o conhecimento disponível hoje, é não para esse tipo de fungo zumbi que virou símbolo da cultura pop. A variação do cordyceps, apresentada no universo pós-apocalíptico retratado em The Last of Us é uma fictícia variação mutante que consegue infectar humanos, mas que está longe da realidade.
Os cordyceps conhecidos pela ciência são altamente especializados em artrópodes, como formigas, vespas e aranhas. Até aqui, não há hospedeiros vertebrados descritos para esse grupo (Foto: Christian Ferrer / Wikimedia Commons)O corpo humano não é compatível com esse tipo de fungo porque mantém uma temperatura alta, em torno de 37°C, e ainda pode subir mais com febre. Para a maioria dos fungos, esse é um ambiente impossível de sobrevivência.
Além disso, o organismo humano tem tecidos mais complexos e um sistema imunológico capaz de reconhecer e atacar invasores com rapidez. Sem conseguir se adaptar a esse ambiente, o fungo não consegue se instalar, crescer nem completar seu ciclo no corpo.
Isso não significa que fungos mereçam pouca atenção. Um estudo recente, publicado na Nature Microbiology, reforçou a preocupação com fungos estarem se adaptando a temperaturas mais altas e, em casos raros, conseguirem infectar pessoas com o sistema imunológico comprometido.








