Deserto do Atacama recebe 60 mil toneladas de roupas descartadas por ano e montanha de desperdício já é vista do espaço

Imagens de satélite revelam a dimensão de um problema causado pelo excesso de roupas descartadas no deserto do Atacama, no Chile

Dezenas de milhares de toneladas de peças se acumulam no deserto e expõem os impactos ambientais da moda rápida (Foto: Divulgação/SkiFi)

Dezenas de milhares de toneladas de peças se acumulam no deserto e expõem os impactos ambientais da moda rápida (Foto: Divulgação/SkiFi)

Do espaço, o deserto do Atacama parece uma imensa área vazia e seca. Porém, imagens de satélite revelam uma marca inesperada na paisagem: uma montanha gigante formada por roupas descartadas, que se tornou um dos símbolos mais visíveis do desperdício da moda.

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O cenário é resultado de uma cadeia que começa com roupas doadas em países desenvolvidos e passa pelo comércio internacional de peças usadas. Todos os anos, 59 mil toneladas chegam ao Chile, mas cerca de 40 mil delas não são vendidas e acabam no lixo.

O problema se concentra principalmente nos arredores de Alto Hospicio, comunidade no norte do país com altos níveis de pobreza e vulnerabilidade. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente de Tarapacá, onde fica a região, os descartes já ocupam cerca de 300 hectares, área equivalente a 420 campos de futebol.

Como as roupas chegam no Chile

O caminho até o deserto começa na Zona Franca de Iquique, conhecida como Zofri, a aproximadamente 15 quilômetros de Alto Hospicio. O local abriga um parque industrial com mais de mil empresas que comercializam produtos isentos de impostos.

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A localização transformou a área em um centro de comércio para países da América Latina, como Argentina, Brasil, Peru e Bolívia. Ao menos 50 importadoras recebem diariamente dezenas de toneladas de roupas usadas.

Segundo o Observatório de Complexidade Econômica, o Chile é o maior importador de roupas usadas da América do Sul. O país recebe 90% do total desse tipo de mercadoria que chega à região.

De onde vem tanta roupa?

Segundo Paola Laiseca, fundadora da importadora PakChile, as roupas chegam dos Estados Unidos e da Europa. De acordo com ela, muitas foram doadas originalmente a organizações de caridade em países desenvolvidos.

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Parte dessas peças é encaminhada para locais de distribuição ou entregue a pessoas necessitadas. Já aquilo que não é aproveitado, por exemplo, por apresentar algum defeito, segue para países como Chile, Índia ou Gana.

Ao chegar ao porto de Iquique, as roupas apresentam diferentes níveis de qualidade. Depois, são separadas pelos importadores antes de serem destinadas à revenda.

“A roupa usada vem em sacos e nós aqui fazemos uma seleção dividida em primeira, segunda e terceira categoria”, explica Laiseca à BBC Mundo.

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O que acontece depois da seleção

Segundo a empresária, a primeira categoria reúne peças consideradas as melhores, sem defeitos ou manchas. A segunda pode ter roupas sujas ou descosturadas, enquanto a terceira concentra produtos mais deteriorados.

Laiseca afirma que as peças de terceira categoria também são vendidas e diz descartar apenas 1% de tudo o que importa. Autoridades locais ouvidas pela BBC, porém, apresentam uma avaliação diferente sobre o volume que termina nos lixões.

Um dos destinos para essas roupas é a feira de La Quebradilla, em Alto Hospicio. É possível encontrar marcas como H&M, Pepe Jeans, Wrangler e Nike, com camisetas e calças custando menos de US$ 1.

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“Sabe-se que ao menos 60% [do que se importa] é resíduo ou descartável, e é isso que forma os montes de lixo”, afirma Edgard Ortega, responsável pela área de meio ambiente na municipalidade de Alto Hospicio.

Por que as roupas vão parar no deserto

No Chile, é proibido descartar têxteis até mesmo em depósitos legais, porque eles causam instabilidade do solo. Assim, não existe, em teoria, um local para jogar fora aquilo que não foi comercializado.

Laiseca reconhece que existem pessoas que recebem dinheiro para descartar roupas que não foram vendidas. Para Patricio Ferreira, prefeito de Alto Hospicio, importadores da zona franca “contratam carreteiros ou um caminhão coletor e pagam para que deixem em qualquer lugar”.

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A falta de fiscalização também facilita o descarte em áreas isoladas. Com isso, roupas que não foram comercializadas acabam abandonadas em diferentes pontos do deserto, formando as enormes montanhas que chamaram atenção internacional.

Impacto ambiental dos tecidos

Grande parte das roupas abandonadas contém poliéster, uma resina plástica derivada do petróleo. O material é mais barato que o algodão, pesa pouco, seca rapidamente e não amassa, mas demora cerca de 200 anos para se desintegrar.

No deserto, peças como camisetas esportivas, trajes de banho e shorts podem permanecer durante meses ou anos nas pilhas de lixo. Com o desgaste, liberam microplásticos que chegam à atmosfera e afetam a fauna marítima ou terrestre das proximidades.

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Outro problema são os incêndios que acontecem anualmente nos lixões clandestinos. Segundo Edgard Ortega, eles podem durar entre dois e dez dias e gerar grandes volumes de fumaça.

“Como não há um dispositivo legal, a única solução é queimar [a roupa]. E a poluição da fumaça é um grande problema”, explica Ortega à BBC.

Quem vive perto dos lixões

A fumaça não é a única preocupação para quem vive na região. Segundo o Departamento de Meio Ambiente de Tarapacá, ela pode provocar doenças cardiorrespiratórias nos moradores das áreas próximas.

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Muitos dos que vivem em casas improvisadas perto dos lixões são imigrantes ilegais. Alguns entram nas montanhas de roupas para encontrar peças para vestir ou tentar conseguir algum dinheiro com a revenda.

“Há populações que vivem nesses lixões, que inalam diretamente os gases produzidos e ficam sujeitas a doenças cardiorrespiratórias”, afirma Gerson Ramos, responsável pelos resíduos da secretaria regional de meio ambiente.

Para Ortega, a situação expõe uma desigualdade que vai além do problema ambiental. “Como não podem trabalhar formalmente, procuram peças nos lixões para vender por um preço mínimo. E isso gera um problema porque o lixo se dispersa ainda mais”, diz.

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O que pode ser feito para mudar a situação

O problema existe há cerca de 15 anos, mas chegou a proporções gigantescas mais recentemente. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente de Tarapacá, os descartes já atingem 300 hectares da região, enquanto as roupas continuam se acumulando.

Atualmente, há dois planos em andamento. Um deles prevê a erradicação dos lixões clandestinos. O outro propõe incorporar as roupas usadas à Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor, que estabelece obrigações para empresas importadoras.

Ainda faltam etapas para colocar as medidas em prática. O programa de erradicação precisa da aprovação do governador regional, enquanto a inclusão das roupas usadas na legislação depende da elaboração de um decreto de regulamentação.

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Para Moyra Rojas, secretária de meio ambiente de Tarapacá, uma proibição da entrada de roupas usadas não seria uma solução viável. Enquanto isso, a fiscalização continua limitada pela falta de recursos.

“Alto Hospicio é uma área vulnerável, que tem um orçamento muito baixo. Não podemos contratar mais fiscais, não recebemos recursos”, declara Ortega.

O resultado é um problema que se tornou impossível de ignorar. O que começou como uma cadeia internacional de doações e comércio de roupas usadas terminou em montanhas de resíduos no deserto, ao lado de uma população vulnerável.

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“Ninguém quer viver em um lixão”, diz Ferreira. “E lamentavelmente transformamos nossa cidade no lixão do mundo“, conclui.