Há 50 anos, a humanidade decidiu enviar uma espécie de cápsula do tempo para o espaço. Em 1977, a NASA colocou o chamado Disco de Ouro a bordo das sondas Voyager 1 e Voyager 2.
A iniciativa contou com a participação decisiva do astrônomo Carl Sagan, que liderou um comitê responsável por definir o conteúdo da mensagem. Ao lado de outros cientistas e especialistas, Sagan ajudou a escolher as imagens, os sons, as músicas e as saudações que representariam a Terra.
A missão tinha um objetivo curioso: deixar uma mensagem para qualquer civilização extraterrestre que eventualmente encontrasse uma das espaçonaves.
O disco reúne uma representação da Terra e de seus habitantes. Para isso, os responsáveis selecionaram 115 imagens, sons da natureza, músicas de diferentes culturas e saudações em 55 idiomas.
O que os extraterrestres encontrariam no disco?
O conteúdo funciona como um retrato da humanidade na década de 1970. Entre as imagens estão registros de seres humanos, animais, plantas, paisagens, cidades, famílias, alimentação, anatomia, nascimento e atividades cotidianas.
A seleção também inclui sons de trovões, vento, ondas, pássaros, baleias e outros animais. Há ainda sons relacionados à própria experiência humana, como risadas e outros registros da vida na Terra.
Depois dos sons, aparece uma seleção musical de aproximadamente 90 minutos.
De Bach a Chuck Berry
A escolha das músicas tentou representar a diversidade cultural do planeta. O disco inclui obras de Bach, Beethoven, Mozart e Stravinsky, além de músicas tradicionais de países como Japão, China, Índia, Peru, Senegal e Bulgária.
No meio dessa seleção aparece também um clássico do rock: “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry.
A ideia não era apresentar apenas a música considerada “erudita” pelos responsáveis pelo projeto. O objetivo era mostrar diferentes épocas, regiões e manifestações culturais da Terra.
Uma mensagem em 55 idiomas
O disco também carrega saudações de pessoas da Terra em 55 idiomas. Em inglês, por exemplo, a mensagem diz: “Hello from the children of planet Earth”, ou “Olá, das crianças do planeta Terra”.
Outra saudação, em Amoy, pergunta aos possíveis habitantes de outros mundos se estão bem e até os convida para uma visita.
A escolha de tantos idiomas tinha justamente a intenção de mostrar que a humanidade não possui uma única voz.
Como um extraterrestre saberia tocar o disco?
Uma das maiores dificuldades era como garantir que um ET seria capaz de reproduzir o objeto. A NASA não poderia simplesmente escrever instruções em inglês, português ou qualquer outro idioma humano. Por isso, a capa do disco recebeu diagramas baseados em matemática e princípios físicos.
As imagens indicam como posicionar a agulha, qual velocidade utilizar e como transformar os sinais registrados no disco em imagens.
A gravação deve ser reproduzida a 16⅔ rotações por minuto. Ou seja, o próprio objeto contém uma espécie de manual para quem eventualmente encontrá-lo.
A humanidade também deixou um mapa
A capa traz ainda um dos elementos mais impressionantes do projeto: um mapa que indica onde está o Sistema Solar.
Para isso, os cientistas utilizaram 14 pulsares, estrelas que emitem sinais periódicos extremamente precisos.
A localização desses pulsares em relação ao Sol permitiria, em teoria, que uma civilização avançada identificasse de onde a Voyager partiu.
A capa também utiliza o átomo de hidrogênio como referência para estabelecer uma unidade universal de tempo.
Há ainda uma pequena quantidade de urânio-238 na capa. Como o elemento possui uma meia-vida de bilhões de anos, seu decaimento poderia ajudar a determinar quanto tempo passou desde o lançamento da espaçonave.
Uma mensagem que pode sobreviver à humanidade
As duas Voyager continuam viajando pelo espaço interestelar e podem ser localizadas no site oficial.
A Voyager 1 deixou a heliosfera em 2012, tornando-se o primeiro objeto humano a entrar no espaço interestelar. Mesmo assim, a possibilidade de uma civilização encontrar o disco permanece extremamente remota.
A NASA calcula que as sondas levarão cerca de 40 mil anos para fazer uma aproximação relativamente próxima de outro sistema planetário.
Por isso, o Disco de Ouro talvez seja mais do que uma mensagem para extraterrestres. Ele é um registro de quem éramos, como soávamos, o que ouvíamos e como enxergávamos nosso próprio planeta.
Além disso, a entidade espacial fez uma previsão recente de quando o planeta se tornará um deserto inabitável.
Em uma pequena peça de cobre revestida de ouro, a humanidade colocou imagens de sua casa, sons de sua natureza, músicas de diferentes povos e uma tentativa de dizer ao universo: “nós existimos“.






